O romance de Elizabeth I e Francisco, Duque de Anjou

Elizabeth

“Confesso que não há príncipe nenhum no mundo a quem eu mais de bom grado me entregaria para ser dele, a quem vós, nem a quem eu me veja mais agradecida, nem com quem eu gostaria de passar os anos da minha vida, por vossas raras virtudes e doce natureza”

Carta de Elizabeth, após a partida de Anjou.

Nascido em 1555, com o nome de Herculés, o jovem francês teve varíola aos oito anos, e seu rosto manchado e sua espinha ligeiramente deformada claramente não atendia à expectativa do nome, que foi mudado para Francisco em homenagem ao seu falecido irmão Francsco II da França. Três anos depois, aos vinte e cinco anos, Elizabeth Tudor ascenderia ao trono da Inglaterra.

Durante a noite de 15 de setembro de 1575, com título de Duque de Alençon, Francisco fugiu da corte francesa, pois Henrique III e Catarina de Médici temiam que ele se juntasse aos rebeldes protestantes. Jovem e extremamente irritável, foi descrito como “cabeça oca” por Walsingham. Francisco havia dado seu apoio à luta dos huguenotes contra os espanhóis nos Países Baixos, mas com um exército morto de fome e começando a desertar,o Duque temia um infame retorno á França. Ao invés disso, preferiu tentar a sorte com Elizabeth.

Francisco, Duque de Alençon, seria um dos poucos pretendentes estrangeiros de Elizabeth a cortejá-la pessoalmente. Elizabeth lhe dera o apelido de sapo, por conta de um brinco em forma de sapo que ele lhe dera. Se Elizabeth planejava verdadeiramente casar com Anjou é muito debatido, e uma vez que ela estava claramente apaixonada por ele, era possível que ele fosse seu último pretendentes, uma vez que ela tinha pouco mais de 45 anos. Ele já enviara uma série de cartas efusivas, louvando à beleza e atração da rainha inglesa, prometendo seu amor eterno e morrer se isso lhe fosse privado. A rainha embarcara nesse galanteio do mesmo jeito que fizera com todos os outros pretendentes.

Jehan de Simier, melhor amigo do Duque, foi enviado à Inglaterra em  1579 para preparar o terreno. Organizou uma série de entretenimentos. O casamento fora primeiramente sugerido sete anos atrás, quando Elizabeth tinha 38 e Alençon quase 16. Deste o início, a rainha achou a diferença de idade constrangedora.  Agora, Elizabeth tinha 45 e Alençon 23.

“Eu vos juro”, escreveu Simier, “que Elizabeth é a princesa mais virtuosa e honrada do mundo; sua inteligência é admirável, e há tantas outras partes para salientar nela que eu precisaria de muito mais papel e tinta para relacioná-las. Em conclusão, considero nosso amo muito felizardo se Deus promover essa união.”

Rainha Elizabeth e o Duque de Alençón na série Elizabeth I, de 2005.

Rainha Elizabeth e o Duque de Alençón na série Elizabeth I, de 2005.

Elizabeth zangou-se com os membros do Conselho que se opunham à união. Ela fora avisada que o coração dos ingleses seria “esfolado” se vissem que a rainha tomara como pretendente um francês papista.  Os franceses, no entanto, exigiam condições inaceitáveis: Alençon deveria ser coroado imediatamente após o casamento, e receber uma vultuosa pensão vitalícia. Os sentimentos de Elizabeth pareciam comprometidos, pois ela declarou à sua camareira que estava decidida a casar-se. Ficou muito melancólica com o veredicto do Conselho e ficou decepcionada com a ideia de que Alençon só estava interessado nela por causa das vantagens que poderia ter. Além disso, circulava o cruel mexerico de que Francisco:

“…. faria bem em casar-se com a velha criatura,  que tivera durante o ano passado uma úlcera na perna, que ainda não sarara, e jamais ficaria curada; e, sob esse pretexto, eles poderiam mandar uma poção da França de tal natureza que ele se veria viúvo no decorrer de cinco ou seis meses, e depois deleitar-se casando-se com a Rainha da Escócia e permanecendo o soberano incontestado dos reinos unidos.”

Em 17 de agosto de 1579, Anjou chegou secretamente em Greenwich para visitá-la e cortejá-la pessoalmente. Quando chegou a Inglaterra, o sangue de todos já estavam fervendo. Contrária à expectativa dos que se opunham ao casamento, o homem era muito mais encantador do que o esperado.  Elizabeth tinha receio pelos sinais de varíola, no entanto, Francisco era tão galanteador, bem-humorado e animado que dava graças a sua maneira. Como podemos ver, o relacionamento de Elizabeth com Anjou foi muito melhor do que geralmente é retratado no cinema.

Catarina de Médici, uma fonte não-imparcial, registrou que o Duque:

“sentiu-se um tanto constrangido, quando como um rapaz dedicado ao prazer, ele se deu conta da avançada idade e da repulsiva qualidade do corpo da Rainha, sendo ela, além de seus outros males, meio tísica… a luxúria para reinar vai lutar contra a luxúria da carne, e veremos qual dessas duas paixões tem maior força.”

No entanto, essa não parece ter sido a real percepção do francês sobre Elizabeth. O casal foi visto junto naquela noite e Elizabeth declarou que nunca tinha visto criatura mais agradável – o Duque também clamou diversos elogios à Rainha. Ele partiria doze dias depois, no dia 29, quando recebeu uma mensagem que um amigo seu havia morrido na França. O casal passou o tempo todo juntos, e quando partiu, Francisco escreveu quatro cartas antes de zarpar e mais três cartas quando chegou a Bolougne. Em uma delas, ele enviou uma pequena flor de ouro, com um sapo nela, uma miniatura dele e um pingente de pérolas. O casamento não ocorreria, como sabemos, mas muitos historiadores acreditam que esse foi um dos maiores romances que Elizabeth teve durante sua vida com uma pessoa que não fazia parte de sua corte.

Acredita-se, inclusive, que a Rainha escreveu um poema sobre a partida, nomeada “On Monsieur’s Departure”: “Sofro e não me atrevo a mostrar o meu descontentamento; eu amo, e ainda sou forçada a aparentar ódio; eu faço, e ainda não ouso dizer o que eu queria dizer; eu pareço austeramente muda, mas interiormento faço pranto”.

Elizabeth sabia que nunca conseguiria casar-se com o Duque. Ela manteve as negociações, dizendo que precisava de dois meses para que o Parlamento aprovasse o casamento. É lógico que ele não seria aprovado.  As esperanças de um casamento surgiram novamente dois anos depois, quando Elizabeth viu uma nova necessidade de aliar-se à França. Ele a visiou novamente, e até mesmo trocaram anéis como um sinal de comprometimento. Mas ela se recusou a financiar o empreendimento do Duque na Holanda, de forma que o rei Henrique III se recusou a aceitar o casamento – o que foi bom para Elizabeth, que conseguiu encontrar mais uma desculpa. O Duque não queria sair da Inglaterra, e Elizabeth teve que pagá-lo para ir embora: ele finalmente deixou a Inglaterra em 1582. Alençon morreria em 1584. Diz-se que a rainha ficou mortificada quando soube de sua morte, chorando publicamente por três semanas inteiras e usando preto durante seis meses. Se era uma tristeza relacionada à perda de um amor, ou a perda da sua última oportunidade de ser mão e esposa, nunca saberemos.

Bibliografia:
DUNN, Jane. Elizabeth e Mary. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
WEIR, Alison. Elizabeth, The Queen. Random House, 2011.
ROSE, Mary Beth; MUELLER, Janel; MARCUS, Leah S. (org). Elizabeth I: Collected Works. University of Chicago Press, 2002.

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5 comentários sobre “O romance de Elizabeth I e Francisco, Duque de Anjou

  1. E aquela cena que a Elizabeth pega o duque travestido de mulher com outro homem, na frente de um monte de gente? Achei cômico e bizarro, mas parece bem exagerado

    • Nossa, foi vergonhoso. Em outras adaptações, como na série estrelada por Helen Mirren, eles tem um romance bem interessante!

      • Sim, no filme, deixaram ele até como alívio cômico. Tenso.
        Vou procurar essa adaptação. Obrigada pela dica 😊

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