A construção da rainha virgem em “Young Bess” (1953)

poster“Young Bess”, lançado aqui no Brasil com o título de “A Rainha Virgem” (embora o filme não mostre, realmente, Elizabeth subindo ao trono), é um filme que mostra o início da vida de Elizabeth Tudor até a véspera de sua ascenção ao trono inglês. Dirigido por George Sidney, foi baseado no romance “A aurora de Elizabeth” escrito por Margaret Irwin. Embora quase esquecidos hoje, os livros de Irwin foram bastante populares em seu tempo. A MGM prontamente adquiriu seus direitos autorais. Lançado na semana da coroação da rainha Elizabeth II em 1953, o filme é altamente ficcional e conta sobre o início da adolescência de Elizabeth.

No início do filme, a filha do rei está sob os cuidados de Katherine Ashley (mostrada aqui como uma mulher idosa, como era na época, e não como uma jovem companheira como foi mostrado em “Elizabeth” em 1998 e “The Virgin Queen” em 2005), que tem o hábito de falar no plural: “Tudo o que temos que fazer é ver e que nossa nova madrasta gostará de nós, nossa aparência, nossas maneiras” – a princesa está sendo arrumada para conhecer a mais recente esposa de seu pai. Durante o início do filme, vemos um flashback das várias esposas do Rei, com direito à cenas de execução de Ana Bolena e Catarina Howard (embora não vemos Catarina de Aragão, pois foi antes do tempo de Elizabeth). O caráter de Kat é mostrado como provavelmente foi – controladora e intrusiva.

O retrato da adolescente Elizabeth de Jean Simmons é positivamente brilhante. É possível que a atriz fosse mais bonita do que a real Elizabeth, mas sua beleza (ou a falta dela) não a impediu se tornar a rainha. Ela capta a combinação da vulnerabilidade e insegurança de uma menina órfã de mãe cuja paternidade foi intensamente discutida. Sempre é sentida a sua dignidade como a filha de um rei, dignidade que ela não compromete ainda que se esforce contra o seu desejo de ser amada. Ela sabe confrontar as mudanças de fortuna com incrível equilíbrio e auto-controle, enquanto emana as ansiedades reais que a filha de Ana Bolena teve que enfrentar. Pode-se entender em sua interpretação porque a menina carente de amor ficou fascinada com Thomas Seymour.

kerrFinalmente, Catarina Parr é a nova esposa do Rei. Deborah Kerr foi bem escolhida para o papel de Catarina Parr, pois se assemelha a uma pintura da última rainha de Henrique VIII. Seus maneirismos maternais doce apelam para Elizabeth, e apesar de torcer um pouco o nariz para seu meio-irmão travesso, o príncipe Eduardo, interpretado por Rex Thompson – que, assim como Jean Simmons, poderia ter tingindo o cabelo para ruivo em prol da autenticidade – Elizabeth e a rainha se tornam grandes amigas.

Falando sobre Thompson, esse é um dos pouquíssimos retratos do Rei aos nove anos de idade. Infelizmente, o ator mirim não convence muito e sua versão do pequeno rei é de dar vergonha em alguns momentos: ele mostra um rei mimado e sabe menos do que acontece em seu governo do que sua inteligente irmã que mora longe. É notável que Eduardo irá, de acordo com o filme, se tornar um tirano igual a seu pai: “Quando eu for Rei, ninguém irá me contradizer; eu os executarei também”.

O filme sugere que Catarina formou um vínculo maternal próximo com Elizabeth – vemos a nova família do rei em um navio, e quando Henrique começa a ouvir sobre as tendências religiosas de Catarina, a agarra pelo pescoço (o filme mostra as mãos do rei no pescoço de suas esposas como um sinal pouco sutil de que ele pretende decapitá-la). Elizabeth grita e a salva – na vida real, Henrique quase foi persuadido a prender Catarina por heresia, mas ela mesma conversou com ele sobre isso, salvando sua própria vida. Charles Laughton, que já havia interpretado Henrique VIII vinte anos antes no filme “A Vida Privada de Henrique VIII” é o típico esterótipo dos cinemas: um vilão porco, em conflito sobre seus feitos passados e inconformado com a filha de Ana Bolena – ele vê nela não só sua segunda esposa, mas muito de si mesmo.

Quando o velho rei morre, traz suspiros de alívio – em seu leito de morte, vemos todos seus filhos e sua esposa (o que sabemos não ser verdade pois todos estavam morando em outros castelos) e a morte do rei só se tornou pública dias depois. Até nesse momento, temos cenas que deixam óbvio que Elizabeth sente algo pelo Lorde Almirante Thomas Seymour – stewartde fato, Stewart Granger era casado com Jean Simmons na época, e foi contratado apenas por causa da “tensão sexual” que havia entre os dois, que o diretor queria passar para a tela. Que os dois atores eram realmente casados não poderia escapar dos espectadores da década de 1950 e pode ter servido para legitimar a relação bastante duvidosa retratada na tela.  Seymour é aqui uma espécia de herói, arrojado e romântico, mas também um almirante muito habilidoso que ganha batalhas para a Coroa no mar.

Elizabeth passa a morar com Catarina, a Rainha Viúva, e Thomas. A verdadeira Elizabeth tinha 14 anos, enquanto Thomas tinha 40 (Stewart Granger, bonito e sem barba, parecia mais jovem do que seus 39 anos durante as filmagens; enquanto Jean Simmons já era uma madura mulher de 23 anos). No filme, Elizabeth convence seu irmão, o rei Eduardo, a emitir um decreto real sancionando o casamento – quando sabe-se que Thomas, através de amigos que eram próximos de Eduardo, convenceu-os a convencer o rei a aprovar seu casamento.

stewart e simmonsÉ impossível saber qual das duas característias do relacionamento de Elizabeth e Thomas é mais assustador: a real, em que ele a visitava de manhã quando mal estava vestida, e convenceu sua esposa segurá-la enquanto ele rasgava seu vestido com uma tesoura; ou a versão do filme, que mostra Elizabeth como uma ninfeta tentando Seymour – que, logicamente, deixa ser tentado. Notando a proximidade entre seu marido e Elizabeth, Catarina pede para Elizabeth fazer uma escolha, e a princesa se muda para Hatfield.

Logo depois, Catarina adoece e morre – não há menção à criança ou a gravidez, que talvez estragariam o roteiro romântico. Depois de meses, pois Thomas estava cumprindo seu dever como Lorde Almirante, ele retorna e vê Elizabeth. Seu irmão, do qual ele sempre teve ciúme, o prende com a acusação de traição (é ignorado aqui a história em que Thomas entra no quarto de Eduardo com uma arma). Elizabeth também é acusada de conspirar com Thomas para derrubar seu irmão rei do trono. Ela vai ver Eduardo para pedir a salvação da vida de Thomas, mas é tarde demais.

O filme avança para 1558. Tendo sobrevivido aos perigos da sua vida e com Eduardo e Maria mortos, Elizabeth está prestes a se tornar rainha da Inglaterra. É possível ver em seu rosto a dor interna e a profunda amargura que irradiam de seu rosto em meio as promessas de triunfo e glória. Nesse sentido, a relação de amor falho entre Elizabeth com seu pai e Thomas Seymour seria a razão pela qual ela nunca se casou. Segundo o filme sugere, Eizabeth se transformou em um ícone austero porque perdeu seu grande amor, é incapaz de voltar a amar.

Cada geração tem sua própria interpretação da alma complexa de Elizabeth Tudor, e como observou Liliana Lopes em “O Estereótipo Feminino na representação fílmica e televisiva de Elizabeth I”,

“segundo sugere o filme, Elizabeth assume uma imagem rígida e austera porque perdeu o seu grande amor, e é incapaz de voltar a amar, assemelhando-se à imagem típica da “solteirona”. Isso porque nessa década ainda predominava a visão de que o lugar da mulher é como dona de casa e mãe – após a Segunda Guerra, os jornais, a televisão e o rádio tentavam, de todas as maneiras, a encorajarem as mulheres a largarem seus empregos e voltarem para suas funções “do lar”.

O filme resultande de um romance é incerto no tom, variando no estereótipo de “Velha Boa Inglaterra” e o presságio de “Grandes Coisas Virão”. Na sua essência, no entanto, é um trágico romance. Os cineastas conseguiram um triângulo amoros bastante convencial e complicado pelo status real de seus personagens. O roteiro é bem focado – praticamente não existe nenhuma menção ao conflito regioso que estava ameaçando despedaçar o país. Ele também é ajudado pelo soberbo elenco britânico.

a rainhaComo os grandes filmes da MGM da década de 1950, os telespectadores são agraciados com grandes sets e belos trajes, embora muitas vezes reutilizados de outros filmes. O filme foi nomeado a dois Oscar: Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte. As roupas são variadas de uma interpretação moderna dos trajes Tudor, e os que tem olhos atentos notarão que Catarina Parr não usa a mesma roupa duas vezes no mesmo filme . De acordo com a produção, o filme levou seis anos para ser feito, mas teve um timming incrível ao ser lançado em um momento em que o mundo parava para ver a ascenção da nova rainha da Inglaterra. Bonita, atrativa e digna, Elizabeth Tudor foi visto como um retrato perfeito da antiga monarquia. Embora são ditas várias coisas contra Ana no filme, em nenhum momento fica implícito que Elizabeth pudesse ser realmente ilegítima (a monarquia é muito respeitada) – e até mesmo a personagem de Ana é cuidadosamente tratada: “ela ria muito, e geralmente com as pessoas erradas”.

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