Ana Bolena era uma mulher moderna?

Natalie PortmanParece haver uma tendência de descrever a segunda e mais famosa esposa de Henrique VIII, Ana Bolena, como uma “mulher moderna”. Tudo começou com o historiador Eric Ives em sua obra prima “The Life and Death of Anne Boleyn”, lançado em 2004, na qual ele se refere à Ana como “uma mulher que fez a si mesma”, que quebrou as regras, que era independente e controlava seu próprio destino, em uma época em que as mulheres eram politicamente, socialmente e culturalmente oprimidas. Em “A irmã de Ana Bolena”, de Philippa Gregory, vemos uma Ana impiedosamente ambiciosa que planeja se casar com Henry Percy, o futuro Duque de Northumberland, com um meio de adquirir riqueza, posição e poder – para o horror e desgosto de sua família. Eles a lembram que é o trabalho dos homens encontrar um marido, e não das mulheres. Na série de televisão The Tudors, Natalie Dormer retratou Ana como, nas palavras da acadêmica Susan Bordo, “uma mulher muito intelifente, sexy e forte para seu tempo”, que foi “injustamente vilipendiada” pelo seu desafio às normas do século XVI. Recentemente, o respeitado historiador John Guy se referiu a Ana em uma entrevista como “uma mulher moderna”. Por fim, a atriz Claire Foy, que interpretou a rainha na mais nova série sobre os Tudor, Wolf Hall, descreveu Ana “realmente uma mulher moderna, que acreditava que ela poderia ter mais poder e posição do que quando nasceu”. O consenso parece ser que Ana Bolena, em sua feroz independência, assertividade, confiança em suas relações com os homens e determinação para conquistar seu próprio destino, era uma mulher que deveria ter vivido no século XXI e não no século XVI.

O historiador Conor Byrnex acredita que isso é profundamente inquietante e que, de muitas maneiras, perturba a interpretação de Ana Bolena. É provável que essas idéias tenham surgido dos registros preconceituosos do embaixador espanhol Eutace Chapuys, e na crença tradicional que era Ana quem chamava os homens para começar suas relações com ela, ou seja, Henrique VIII. Vários historiadores tem argumentado, e as representações culturais de Ana tem mostrado uma Ana que manipula Henrique, pressionando-o para fazer dela sua rainha, e seduzindo-o para dar um tratamento cruel para sua primeira esposa e sua filha mais velha. Em suma, a visão persistente de Ana como uma destruidora de lares tem continuado a prevalecer por causa de sua atratividade para a visão de mundo do século 21. Hoje em dia, é claro, uma mulher assim seria chamada de manipuladora, prostituta, e interesseira.

Natalie Dormer seduz o reiQual é a evidência para a afirmação de que Ana Bolena era “uma mulher moderna?”. Surpreendentemente, os proponentes da visão moderna nem sempre especificam o que existe em Ana que a faz parecer mais perto do século 21 do que o seu comportamento e caráter no seu próprio século. A historiadora Susan Bordo sugeriu que era a incapacidade de Ana em ficar quieta, sua assertividade, independência, numa altura em que se esperava que as mulheres fossem submissas, modestas e, acima de tudo, silenciosas. A representação de Ana tão confiante em seus discursos, assumindo e discutindo ferozmente com vários homens, incluindo seu tio, pai e marido, baseia-se na evidência dos registros de Chapuys e os registros hostis produzidos pelos gostos de George Cavendish. Chapuys afirmou que Ana se desentendeu com seu tio, o Duque de Norfolk, porque ele se ofendeu com sua fala franca e, às vezes, sarcástica. Ele também alegou que Ana, uma sedutora espera, foi responsável por pressionar Henrique em maltratar sua primeira esposa, Catarina de Aragão, e sua filha, Maria. Se não fosse pela “má” Ana, Chapuys acreditava, Henrique poderia ter sido persuadido a voltar para sua esposa verdadeira. Na verdade, Ana era tão poderosa na corte que dominava seu marido completamente, que fez o embaixador proclamar que “não há ninguém que se atreva a contradizê-la, nem mesmo o próprio rei”. Chapuys também afirmou que Ana controlava e governava o reino completamente.

Vários historiadores tem questionado os relatórios hostis de Chapuys. Eles demonstram de forma convincente que seus relatórios eram muitas vezes falsos. Eles eram escritos com um objetivo claro: denegrir o nome de Ana, pois ele esperava trazer a reconciliação de Henrique e Catarina. Chapuys não culpava o rei por suas decisões, incluindo o tratamento cada vez mais cruel com sua filha. Ao invés disso, o embaixador recorreu a colocar a culpa na madrasta má, mostrando Ana como uma megera irritante e assertiva que fazia seu marido fazer sua vontade.

Há provas abundantes, além de Chapuys, que relatam que Ana censurava o rei por seus casos conjugais. Várias histórias, algumas delas escabrosas, falam do desespero e choque da rainha ao encontrar seu marido e Jane Seymour, em Janeiro de 1536, causando um aborto espontâneo na rainha. Ana encontrava dificuldades em conciliar a paixão de uma década que Henrique tinha por ela com o conhecimento perturbador de que ele esperava que ela tolerasse suas infidelidades, uma vez que eles eram casados. Numerosos observadores relataram a frieza entre o casal durante o casamento. The TudorA rainha certamente ficou magoada, ofendida e devastada pelos casos do seu marido com outras mulheres, e no seu julgamento em maio de 1536, ela admitiu que “Eu não digo que eu sempre mostrei ao Rei a humildade que eu lhe devia, considerando a bondade e grande honra que ele mostrou a mim e o grande respeito que ele sempre me mostrou. Eu admito também, que muitas vezes minha cabeça ficou tomada pelo ciúme dele… Mas que Deus seja minha testemunha que eu não fiz nenhuma outra coisa errada“. Ana declarou livremente que ela tinha sofrido de ciúme sobre os casos extraconjugais do marido.

Mas isso rende a Ana o título de moderna? Até onde sabemos, as esposas de Henrique não criticavam-no pela sua infidelidade. Mas a primeira rainha de Henrique, Catarina de Aragão, parece ter também reagido com hostilidade quando soube do primeiro caso conhecido do rei, por volta de 1510 (menos de um ano depois do casamento deles), com Lady Anne Stafford. Os observadores da corte observaram que o casal era visivelmente “polêmico” e foram ligados durante algum tempo. Há poucas evidências dessa época, então é difícil comparar a relação pessoal de Henrique e Ana com outro casal real em circunstâncias similares. Além disso, não temos provas detalhadas de como a população via os casos extraconjugais de seus amantes, fora os documentos legais produzidos nos tribunais eclesiásticos. Para nós, o desespero e a tristeza de Ana em assuntos de seu marido são compreensíveis, pois nós valorizados o casamento e companheirismo do mundo ocidental do século 21. Existe a perspectiva de que os parceiros sejam fiéis ao outro, e que se casaram por amor. Mas isso parece ser um passo muito longe para descrever a segunda esposa de Henrique como ‘moderna’, só porque ela ficou chateada e magoada com os casos extraconjugais. Muitas mulheres do século XVI podem ter experimentado emoções semelhantes – que carecem de prova. Ana Bolena, em virtude de sua condição de rainha, estava em uma posição excepcional para que seus sentimentos fossem registrados. Mas só porque nos faltam evidências para as emoções dos outros quando eles tomaram conhecimento da infidelidade do parceiro, não quer dizer que eles também não fossem ‘modernos.

A visão de Ana como uma mulher moderna ignora uma riqueza de evidências que prova que ela era um produto de seu tempo e de sua cultura. A evidência de John Foxe e William Latimer indicam que ela era uma rainha religiosa e caritativa com uma fé sincera e piedosa. Que ela estava interessada na reforma evangélica e no apadrinhamento de radicais religiosos. Ana seguiu sua predecessora em dar esmolas para os pobres  e se engajar em atividades de caridade, que não foram, infelizmente para ela, divulgadas enquanto estava viva. Ana não tinha uma visão moderna sobre o status social, mais tarde conhecidos como ‘classe’: quando sua irmã se atreveu a casar sem sua permissão, Ana reagiu com rainha e choque, imediatamente banindo-a da corte. Ela também demonstrou humildade em relação à sua ascensão à realeza, informando a contemporâneos que o rei tinha sido ‘inspirado’ por Deus para se casar com ela, percebendo-a como uma vontade de Deus.

Além disso, tem sido apontado que Henrique VIII pode ter exercido consideravelmente mais controle sobre o seu relacionamento com Ana do que tradicionalmente se acreditava. Falta-nos as resposta de Ana às suas cartas e por isso não sabemos como ela estava respondendo a ele. A visão predominante, que ela o tratava calculadamente e impiedosamente, com um olho para o trono e um futuro como rainha, repousa sobre nenhuma evidência convincente pela simples razão que não existe nenhuma evidência. Ana certamente não era menos ambiciosa que Jane Seymour, Catarina Howar ou Parr, e é um passo demasiado longo sugerir que ela estava determinada a destruir o primeiro casamento do rei e seduzí-lo a se casar com ela em um movimento que se assemelha com a moderna destruidora de lares. Historiadoras como Amy License, Karen Lindsey e Joanna Denny argumentam que Ana pode ter ficado relutante ou com medo de responder ao rei. Talvez ela não quisesse se tornar rainha. Talvez o rei a pressionou a aceitar seus avanços, uma possibilidade que muitas vezes não recebe a atenção que merece.

Os registros de Chapuys foram recentemente denominados por historiadores que estão convencidos de que nada que ele relatou sobre Ana foi verdade e que não pode ser confiável. Isso também pode ser uma passo muito longo: talvez houvesse alguma verdade nas afirmações de que ela era franca e assertativa, que não tinha medo de repreender o rei pelas falhas que ela percebia nele. Mas isso é realmente evidência de que ela era ‘moderna’? A última esposa de Henrique, Catarina Parr, desafiava as crenças religiosas e se atreveu a lhe dar uma lição de quando ela acreditava que ele estava errado. No entanto, Catarina ainda não tende a ser identificada com uma ‘mulher moderna’, que de alguma forma foi transportada de volta para o século VI,embora haja uma linha de pensamento inquietante que a considera como uma das primeiras feministas. Ana Bolena, como Susan Bordo deixa claro, não era uma feminista, e sim uma mulher moderna. Ela era um produto de seu tempo e o ponto de vista dela como “moderna” ignora uma quantidade significativa de provas produzidas pelos contemporâneos. Grande parte da evidência para sua ‘modernidade’ é instável: ou produzida por espectadores hostis ou supostamente escrita por ela mesma. Aqui estamos nos referindo à infame carta da Dama na Torre, escrita em maio de 1536, em que a rainha censurava o marido por tentar matá-la para se casar com seu novo amor. A maioria dos historiadores estão convencidos de que Ana não era a verdadeira autora da carta, acreditando que ela foi escrita em algum momento do período elisabetano, bem depois da sua morte. Se a evidência de que Ana era uma ‘mulher moderna’ é principalmente hostil, inexistente ou duvidosa, então não se pode, em um equilíbrio das probabilidades, afirmar que ela estava à frente de seu tempo em suas crenças, atitudes e comportamento. Ana era um produto de seu tempo e sua classe: ela pode ter sido assertativa, sincera e ambiciosa, mas outras mulheres também e certamente não se pode firmar que ela foi uma mulher que ‘fez a si mesma’, quando se examina que suas redes familiares e seu papel no fornecimento de uma excelente educação e perspectivas de casamento.

Traduzido do artigo “Was Anne Boleyn
A Modern Woman?
” escrito por Conor Byrne.
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5 comentários sobre “Ana Bolena era uma mulher moderna?

  1. Eu tenho tido algumas dúvidas sobre o perfil dela…pq tb imagino que ela tenha sido muito sedutora, essa é a imagem mais propagada. Por outro lado, tenho lido tb que ela era muito religiosa, educada, erudita e então penso se ela poderia ser mais recatada…uma coisa não exclui a outra, mas fico curiosa.

      • Ela não “voltou da corte francesa”. Ana cresceu na França e depois foi para a Inglaterra, assim como sua irmã Maria. Esse é só um dos vários fatos inventados no filme “A Outra”.

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