As datas Tudor e os calendários gregorianos e julianos

ElizabethTheGoldenAge-

No de 46 a.C., o ditador da República Romana Júlio Cesar decidiu reformar o calendário para readequá-lo ao tempo natural. A reforma juliana teve duas etapas: na primeira, estabeleceu-se que o ano de 46 a.C. teria 15 meses e um total de 455 dias para compensar a defasagem (aquele ficou conhecido pelos romanos, e com toda a razão, como o “ano da confusão”). A segunda etapa da reforma consistiu em adotar, a partir de 45 a.C., um ano composto por 365 dias e 6 horas, divididos em 12 meses. Para compensar as 6 horas excedentes de cada ano, seria incluído um dia a mais em fevereiro a cada 4 anos. No entanto, em consequência do movimento de elipse que a Terra faz ao redor do sol, uma defasagem entre o ano do calendário e o ano natural permanecia.  No século XV, por exemplo, o calendário juliano já estava atrasado quase dez dias em relação ao Sol: o equinócio da primavera no Hemisfério Norte caía por volta de 12 de março, em vez do dia 21.

No ano 1545, o Concílio de Trento determinou a realização de alterações no calendário da Igreja. Após décadas de estudos e cálculos astronômicos, o papa Gregório XIII instituiria o novo calendário em 1582 mediante a bula “Inter gravissimas”, a fim de adequar a data da Páscoa ao equinócio da primavera no Hemisfério Norte. O novo calendário apagava dez dias do calendário: a quinta-feira, dia 4 de Outubro de 1582, seria imediatamente seguida da sexta-feira, dia 15 de Outubro.  Em 1583, Portugal, Itália, Espanha, França e os reinos católicos da Alemanha já estavam usando as “novas” datas. Mas a Inglaterra, uma nação protestante, continuou a usar o estilo “antigo”, ou seja, o calendário juliano, até 1752 – de acordo com o astrônomo Johannes Kepler, os estados protestantes prefeririam  “estar em desacordo com o Sol a estar de acordo com o Papa”.  Ou seja, os relatórios ingleses sobre a Armada Espanhola registram eventos como tendo lugar dez dias antes do que os relatórios espanhóis. Os dias da semana também ficaram diferentes – o dia 1 de Maio de 1593, por exemplo, era uma terça-feira no calendário juliano mas era um sábado no calendário gregoriano.

ElizabethTheGoldenAgeEsse problema de dez dias entre as datas persistiu durante todo o reinado de Elizabeth I – se alguém que aceitava o calendário gregoriano e saísse da Inglaterra no dia 20 de Agosto de 1590 – e esperava-se uma média de 4 horas para cruzar o Canal Inglês – ele chegaria na França no dia 30 de Agosto.

Em seguida, há a questão de datas duplas, como em 2 de Fevereiro de 1555 e 1556. Por exemplo, na Inglaterra, o Ano Novo era comemorado no dia 25 de Março, embora o feriado chamado de Dia de ano Novo, em que os presentes eram dados aos monarcas, era comemorado no dia 1º de Janeiro. As datas para os eventos que aconteciam entre 1 de Janeiro e 24 de Março, por exemplo, poderiam ser encontrados como escritos no início de ano, ou em ambos os anos.

Além disso, os meses de Janeiro e Fevereiro de 1595 na França eram os meses de Janeiro e Fevereiro de 1594 na Inglaterra. Em 25 de Março de 1595, o ano começou com a Inglaterra e os elisabetanos estando “no mesmo ano” que os países católicos, até o dia 1 de Fevereiro do próximo mês. Por conta disso, algumas vezes, os elisabetanos escreviam duas datas em suas cartas.

Na Inglaterra, o calendário antigo ficou sendo usado até a adoção do calendário gregoriano, em 1752. Mas ainda há problemas: Ben Jonson, por exemplo, no início do século XVI, datava suas produções dramáticas usando o estilo novo de calendário, e não o antigo, na época em voga na Inglaterra.

Dessa forma, todas as datas de nascimento, casamento e morte dos Tudor e elisabetanos têm que ser tratados com cautela. Ainda existe outra questão para que os estudiosos Tudor tomem cuidado: existem documentos originais do século 16 que não usavam o ano em que eles estavam (“1603”, por exemplo) para marcar a data: eles escreviam 03 abril 45 Elizabeth: ou seja, dia 3 de Abril dos 45 anos do reinado de Elizabeth (ou seja, 1603). Outra questão são a separação do meses:  5/8/1567 seria 5 de Agosto, ou 8 de Maio (se considerarmos a forma americana de escrita, que coloca o mês antes do dia). Dessa forma, para que você possa estudar sobre os reinados Tudor, é necessário saber não só a data de adesão do rei, mas também estar familiarizado com a forma que os Tudor comemoravam o Ano Novo e usavam o calendário.

Bibliografia:
EMERSON, Kate. A note on dates and why you shouldn’t trust them. Acesso em 29 de Março de 2016.
Elizabethan Calendar“. Acesso em 29 de Março de 2016.
WAGNER, John A.; SCHMID, Susan Walters. Encyclopedia of Tudor England, Volume 1. ABC-CLIO, 2012.
KINNEY, Arthur F.; COPELAND, Thomas W.; SWAIN, David W., etc. Tudor England: An Encyclopedia. Routledge, 2000.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s