A influência do Egito antigo no período Tudor

Depois do século 7, na conquista muçulmana do Egito, o Ocidente perdeu contato direto com o Egito e sua cultura: na Europa medieval, o Egito era representado principalmente em ilustrações e interpretações dos relatos bíblicos. Estas ilustrações eram muitas vezes fantasiosas, uma vez que a arquitetura e os trajes egípcios eram em grande parte desconhecidos no Ocidente. As cenas dramáticas das pragas do Egito, a divisão do Mar Vermelho, a história de José e a fuga do Egito figuravam em grande parte dos manuscritos iluminado medievais, e os tratados de natureza e da teologia tinham poucas investigações históricas. Ou seja, para seu conhecimento do Egito, os estudiosos do Renascimento dependiam grandemente da literatura grega e romana: a grande parte dos escritos dos antigos egípcios, assim como os persas, assírios e babilônios ficariam em espera até os esforços de estudiosos do século 19.

Os antigos romanos trouxeram diversas esfinges, obeliscos e hieróglifos do Egito para a Europa. Mas esse era um dos maiores mistérios para os estudiosos do Egito esse momento: ninguém conseguia, com sucesso, interpretar as línguas egípcias. Apesar dessas dificuldades, no século XV e XVI havia um fascínio por coisas do Egito: existiam diversos artefatos na Itália renascentista, e estudiosos que tentavam desvendar os hieroglifos e as imagens com precisão (mas sem sucesso). Já em 1530, antiquários do renascimento sabiam distinguir artefatos egípcios de outros tipos de antiguidades.

Piramide em RomaA pirâmide de Cestius, um famoso monumento funeral em Roma, feito de mármore branco entre os séculos 18 e 12 a. C., era uma das maiores fontes de imagens para os renascentistas. Em comparação com as pirâmidas do Egito, a pirâmide de Cestius é muito ingríme e pontuda – e isso pode ser visto, por exemplo, nesse mosaico de San Marco, em Veneza, em uma cena bíblica de José no Egito. Cestius era a única pirâmide que os artistas europeus podiam ver, e não tendo as proporções certas, pode ser facilmente identificadas nos registros medievais.

Durante o Renascimento, o erudito jesuíta alemão Athanasiu Kircher fez uma fantasiosa decifração de hieroglifos, e nesse momento o Egito era pensado como uma fonte de sabedoria do oculto e do místico. Nos círculos alquimistas, o prestígio dos egípcios eram grandes, assim como o  “plágio” de obras egípcias, embora alguns estudiosos astutos não eram facilmente enganados: no século 16, Isaac Casaubon desmascarou a obra Corpus Hermeticum do grande Hermes Trismegisto como uma cópia de um escritor grego por volta do século 4. A popularidade dos hieroglifos se provou com diversas obras publicadas nos séculos XV e XVI sobre essa linguagem: para os estudiosos renascentistas, a fusão da forma e do conteúdos dos hieroglifos eram uma evidência de uma linguagem primária na qual os mistérios da antiga filosofia e da verdadeira natureza das coisas poderiam ser melhor entendidas e estudadas.

O Egito não influenciou apenas o estudo do místico e do oculto: o estudo da astronomia deles também eram citadas pelos estudioso. Eduardo VI, por exemplo, escreveu um discurso sobre astronomia em 1551, quando estava prestes a fazer 14 anos, que demonstra isso:

“… Aqueles que [enriqueceram o estudo da Astronomia] com grande perfeição, ou seja, os egípcios e os israelitas, homens certamente mais cultos, mais educados, mais sábios, dotados de todos os tipos de aprendizagens e virtudes…”

José no Egito: note que suas roupas são iguais as do período medieval Europeu.

José no Egito: note que suas roupas são iguais as do período medieval Europeu.

O Egito também ajudou os Tudor em suas conservações de alimento: desde os tempos medievais, a população passava por longos períodos com pouca ou nenhuma carne fresca. Ao invés disso, eles se alimentavam com carnes secas ou conservadas em sal – ele era bastante caro, então geralmente só carnes ricas em gordura eram preservadas. A origem dessa preservação de comida com o sal é rastreada até o Egito Antigo, onde eles usavam sal como parte do processo de embalsamento e preservação de alimentos. Após a difusão do cristianismo, o negócio de preservar peixe em sal era mais rentável devido aos 40 dias da quaresma.

A cultura do Renascimento era permeada de simbolismos. Desse forma, é até possível, embora improvável, que o falcão, emblema de Ana Bolena, tenha origens egípcias: os egípcios associavam o falcão ao Deus Hórus, que na mitologia tinha corpo de homem e cabeça de falcão, onde um olho representava o sol e o outro, a lua. Supostamente, os falcões eram autorizados a andaram perto dos faraós como seu protetor e espírito divino. Dessa forma, o falcão era um símbolo venerável de majestade e poder.

Mas não foram só os estudos do Egito que influenciaram o período Tudor: os próprios egípcios passaram a ir para a Inglaterra no início de 1550, de modo que podemos ver em registros referências a diversas pessoas sendo enterradas ou batizadas a partir desse período. No entanto, é possível encontrar uma referência a essas pessoas desde o governo de Henrique VIII, em 1530, onde um Ato de Parlamento sobre os egípcios foi discutido: pessoas que se chamavam de “egiptsions”, que não tinham nenhuma forma de comércio, vinham a Inglaterra para enganar as pessoas lendo suas mãos de forma a ver sua fortuna, principalmente as mulheres. Esses “egípcios” enganavam as pessoas, roubando seu dinheiro e também cometendo roubos e assaltos. Outros atos sobre os egípcios foram passados em 1552, 1554 e 1562. Em todos esses atos, os egípcios deveriam ser banidos, embora por volta de 1562 aqueles que fossem nascidos na Inglaterra poderiam ser contratados para serviços.

Curiosamente, as pessoas referidas no período Tudor como “egípcias” eram de origem hindu ou romana. O fato dessas pessoas que se chamavam de egípcias não virem realmente do Egito foi notado por um quase contemporâneo de Elizabeth I: Thomas Dekker escreveu em 1608 que essas pessoas “não eram descendentes de nenhuma daquelas tribos que vieram do Egito”, e que nenhum Rei do Egito os chamavam de “súditos”.

Bibliografia:
CHRISTIAN, Kathleen. The Egyptian Renaissance: The Afterlife of Ancient Egypt in Early Modern Italy (review). Acesso em 22 de Junho de 2015.
Food preservation. Acesso em 22 de Junho de 2015.
Ancient Egypt in the Western imagination. Acesso em 22 de Junho de 2015.
Pyramid of Cestius. Acesso em 22 de Junho de 2015.
SILVA, Maria Helena Alves. Os brasões de Ana Bolena. Acesso em 22 de Junho de 2015.
SILVA, Maria Helena Alves. Eduardo VI e sua Defesa da Astronomia. Acesso em 22 de Junho de 2015.
KAUFMANN, Miranda. “Egyptians” in Early Modern England?“. Acesso em 22 de Junho de 2015.

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