O exorcismo de Sara Williams

Nonancourt - An Exorcism of a WomanNo dia de ano-novo de 1586, um padre católico inglês decidiu que “nem tudo estava bem” com uma jovem criada da casa de Hackney Vaux. Então ele a amarrou em uma cadeira, deu-lhe uma “bebida sagrada” que a fez vomitar e a obrigou a inalar enxofre queimado. Depois de dez hora, Sara Williams, que tinha 15 anos, foi exorcizada do demônio que se presumia tê-la possuído. Uma testemunha ocular escreveu:

“Foi uma visão maravilhosa, garanto-vos, contemplar a dor e o tormento do diabo até na queima do enxofre e mantendo o mesmo sob seu nariz, como ele rugiu, atormentado, e gritava de maneira mais terrível… falando palavrões e xingando tão gravemente que um homem teria ficado com medo de tê-lo ouvido”.

Sara, que estava possuída, foi espancada com um manípulo, forçada a colocar uma veste litúrgica e teve relíquias pressionadas contra sua carne. Já no fim de sua provação, ela gritou que o demônio iria quebrá-la: “Ele jaz no fundo da minha barriga”.

“Em seguida, o sacerdote, percebendo que o diabo estava na parte inferior da barriga, deu uma relíquia a uma das mulheres, querendo que a colocasse até a barriga da possuída, o que foi feito pela mulher, e foi maravilhoso ver como o diabo estava atormentado.”

Por fim, com Sara convocando a ajuda de Deus e da Virgem Maria, o diabo foi expulso e os espectadores católicos voltaram para casa, cheios da certeza que “nestes dias tão cheios de maldade e impiedade, tão cheios de heresia e infidelidade, Deus estava ao seu lado”.

Em 1585, ano em que Elizabeth I enviou forças para os Países Baixos lutarem contra a Espanha, um projeto de lei “contra os jesuítas, os padres do seminário tal como outras pessoas desobedientes” foi lido na Câmara dos Lordes. Ele propunha que qualquer sacerdote ordenado no exterior em 1559 e que fosse encontrado na Inglaterra 40 dias após a promulgação seria automaticamente considerado um traidor. Recusantes deste projeto de lei, tal como Vaux, tinham sido presos em 1581 por se recusarem a jurar de terem abrigado o missionário jesuíta Edmund Campion.

Pouco depois, Vaux e vários outros homens reuniram-se com cinco sacerdotes. Eles concordaram que, a não ser que fossem enviados especificamente, os missionários teriam que “se virar” por um tempo.

O estatuto de 1585 culminou no exorcismo de Sara Williams. Várias vezes ela ameaçou trair os seus exorcistas para os homens da rainha. Uma lei de 1563 fazia a invocação de espíritos – e o exorcismo – punível com morte. Esse relato expõe algumas das tensões que existiam dentro das famílias não-conformistas, onde mesmo após a lei, algumas famílias continuaram a abrigar padres. O demônio, falando através de Sara, zombou dos jovens missionários.

Havia um medo generalizado de espiões. O exorcismo de Sara ocorreu na casa de Vaux. Em outubro de 1584, um traidor católico havia dado a localização da capela secreta de Vaux e afirmou que a família estava esperando um ataque a qualquer momento. Em 5 de novembro de 1586, a casa seria revistada e Henry Vaux preso, com base nas informações de um exorcista chamado Anthony Tyrrel que se tornou informante do governo. “Eu irei agora e depois tentá-la”, ameaçou o diabo em Sara, “às vezes com dinheiro”, e às vezes “na forma de um homem alto”. Ele também disse que tinha falado com oficiais e vizinhos, e quando o exorcista perguntou porque eles ainda não tinham sido presos, o diabo disse que sido frustrado pelo poder da Trindade e da Virgem Maria. Não só o diabo andava junto da religião oficial – ele também ficava junto dos protestantes e católicos:

“Todos os protestantes e hereges estão na minha mão direita perto de mim, mas os cismáticos estão na minha mão esquerda um pouco mais longe: não obstante, todos eles são meus.”

Há ainda uma crítica ao estado elisabetano de que o diabo reconheceu o osso de Alexander Briant, um padre que havia sido executado em 1581, e cujo ossos foram usados no exorcismo de Sara. “Se isso não é um testemunho suficiente do martírio glorioso dos nosso sacerdotes”, escreve a testemunha, “eu não sei o que seria”. Quando o diabo finalmente foi banido do corpo de Sara, esse foi mais um triunfo para o catolicismo – no relato, é exibido o carisma de sacerdotes católicos e suas relíquias em um momento em que a tentação de abandoná-las era muito grande. Em uma época em que as pessoas notavam fenômenos sobrenaturais , executavam bruxas e seriam pressionados para identificar uma diferença precisa entre religião e magia, um exorcismo aparentemente bem-sucedido oferecia uma correlação visual atraente para a linha protestantes de que os milagres e as possessões demoníacas não tinham desaparecido.

Além de Sara, outros seis jovens homens e mulheres foram exorcizados entre o outono de 1585 e o verão de 1586. Um exorcista alegou ter feito 500 conversões neste período, embora o número tivesse sido contestado. “A interveção do Céu foi inquestionável”, escreveu um exorcista jesuíta, William Weston, “e os espectadores incrédulos ficaram espantados”. No caso de Sara, o ritual de expulsão reforçava a devoção e redobrava as orações, para que no momento de triunfo a notícia pudesse ser compartilhada, a fé reforçada e a palavra espalhada.

De acordo com Friswood Williams, irmã mais velha de Sara, a prática dividia as comunidades. A própria Sara afirmou mais tarde que seu confessor, chamado Richard Yaxley, depois de saber do que havia acontecido com ela, disse que “sentia muito e que eles se arrependessem por ter feito aquilo com ela”. Quando pressionado para dar a sua opinião se ela tinha ou não sido possuída pelo demônio, o padre disse que já era “passado”.

Sara Williams mudou-se para Oxford e foi presa por 14 semanas. Seu crime era não ir à Igreja, e não há registros se ela tinha sido questionada sobre o exorcismo. No início da década de 1590 ela foi questionada sobre os exorcismos, mas se recusou a revelar qualquer coisa. Foi apenas em abril de 1602,  depois que todos aqueles que participaram no exorcismo estivessem mortos ou presos, que Sara deu um depoimento para o governo. Ela então estava na casa dos trinta, casada e mãe de cinco filhos.

Richard Bancroft

Richard Bancroft

Curiosamente, os oficiais não queriam prender os padres católicos. Eles queriam fazer uma campanha para expor as práticas de “prestidigitação diabólica”. Com base em depoimentos de pessoas exorcizadas durante 1585 e 1586, Richard Bancroft, um dos homens que investigaram a investigação, publicou em 1603 um livro sobre “imposturas papistas flagrantes” que pretendiam converter os súditos da rainha em católicos através de exorcismos.

No depoimento de 1602 de Sara, ela disse que as mulheres a examinaram e que os padres fingiram que o demônio se escondia na parte mais secreta de seu corpo. Desse modo, eles mergulharam as relíquias em alguns molhos e deram a uma empregada para colocar a relíquia “naquele lugar”. Sara supostamente caiu em lágrimas durante a entrevista. Ela ainda depôs sobre duas ocasiões antes de ser presa em uma cadeia que os sacerdotes tinham feito “uma mulher jorrar algo pelas suas partes íntimas de seu corpo, o que a deixou muito doente”. Aparentemente, um dos sacerdotes depois avisou que ela nunca seria capaz de ter filhos, porque “o diabo rasgou suas partes de tal modo que ela não poderia conceber”. Isso, felizmente, acabou por se tornar falso.

A questão complicada é que não só Sara estava no início de sua menstruação (remédios contemporâneos incluíam pessários, injeções para o útero e vômitos induzidos), ela também sofria de “encaixe da mãe”, uma aflição muitas vezes percebida como sendo de causas sobrenaturais, mas diagnosticada como uma histeria de causas naturais. A publicação deste diagnóstico foi quase certo encomendado por Bancroft como parte da campanha para destruir a crença na possessão espiritual.

Os sacerdotes então viram e ouvirão o que eles fervorosamente queriam ver e ouvir: uma menina apavorada, suscetível a doenças e alterações de humor, habitada pelo diabo e precisando desesperadamente de uma cura milagrosa que só a Igreja Católica poderia oferecer.

Quais quer que tenham sido os abusos perpetrados durante o exorcismo de Sara Williams, quaisquer que tenham sido os erros e acertos, verdades ou inverdades, o episódio oferece um vislumbre de um mundo opressivo e das pessoas que viviam nele. A voz de Sara foi sequestrada por demônios, propagandistas católicos e religiosos. É uma expressão profundamente autêntico de seu tempo.

Bibliografia:
SANDS, Kathleen R. “Demon Possession in Elizabethan England”. United States of America: Praeger Publishers, 2004.
CHILDS, Jessie. “Beware the Foul Fiend: An Exorcism in Elizabethan London“.
Denham Exorcisms

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