A verdadeira Ana Bolena

Fallen in LoveAna Bolena já estava sendo acusada de algumas coisas quando, em 1536, Thomas Cromwell e os Seymour viram para onde o vento soprava, e decidiram tirá-la do caminho: Henrique VIII queria uma nova esposa e Jane Seymour estava à espera nos bastidores. Uma das acusações: Ana tinha crescido na corte francesa e foi dito que tinha ‘ares franceses’, uma acusação tão mortal na política quanto é agora. Havia rumores sobre o seu comportamento na corte francesa, mas é possível que as fofocas tenham se confundindo com a sua irmã, Maria. Segunda acusação: ela não era convencionalmente bonita, era sem peito, de pele morena e cabelos escuros; estava muito longe da mulher de pele clara, a ninfa de cabelos louros que estava tão na moda com os Tudors.  E, ainda sim, com seus ares estrangeiros e olhares não convencionais, havia algo sugestivo sobre ela a tal ponto que ela poderia deixar um homem atordoado apenas com o olhar. Tudo isso fez dela a tela perfeita para se projetar qualquer desejo, qualquer medo. Qualquer coisa vindo dela poderia ser acreditado – um terceiro mamilo, um sexto dedo, bruxaria, adultério, incesto. Perspicaz, de língua afiada e paquera, Ana fez uma roda de homens para ela, e cada um perderia a cabeça por ela. Henrique Norris, Francis Weston, William Brereton, Mark Smeaton, todos foram executados apenas alguns dias antes de Ana, todos acusados de terem conhecido carnalmente a rainha, e de traição contra o rei. Seu irmão também. Dizem que sua própria esposa o delatou.

Ana tem sido tão magnética para a posteridade quanto foi para seus contemporâneos. Sua história foi contada inúmeras vezes desde a sua morte em peças de teatro, óperas, romances, filmes, séries de televisão, etc. Certos elementos que pareciam ser verdades inequívocas para uma geração foram revisadas e negadas em outra. Assim como alguns retratos dizem mais sobre o artista do que o assunto, as representações de Ana falam sobre diferentes momentos históricos. Ana Bolena é uma ‘vadia intrigante’ hoje e uma ‘não celebrada heroína da Reforma Protestante’ para os elisabetanos, uma heroína romântica de uma década e um conto preventivo vitoriano, em 1950 ela era uma típica adolescente, admirando sua figura no espelho, pelos anos 2000 ela é uma garota má, roubando o namorado da irmã. Mais recentemente na série The Tudors, ela é uma ícone feminista, ‘muito inteligente, sexy e forte para o seu tempo, injustamente difamada pelo seu desafios às normas de obediência feminina do séxulo XVI’.

A intrigante e deformada Ana é em grande parte invenção de Eustace Chapuys, o embaixador imperial na Inglaterra e um aliado próximo a primeira esposa de Henrique, Catarina de Aragão, a quem Ana mandou pastar; e de Nicholas Sanders, também católico. Chapuys não gostava de Ana, como católico e como um defensor de Catarina, mas como a história veria, sua comunicação oficial com o imperador sobre os acontecimentos da corte de Henrique VIII são alguns dos únicos testemunhos em primeira mão deste período que sobreviveram. Mas não é, claro, a fonte mais confiável sobre Ana.

Por que Ana chega nas pessoas? Como essa mulher pode ter capturado o coração de um rei de tal forma que ele rasgaria seu reino para tê-la, alienando o papa e metade dos líderes da Europa, deixando de lado sua esposa e filha, esperando seis longos anos para se casar com uma mulher sem sangue real que não lhe traria nenhum dinheiro, prestígio ou acordos diplomáticos? E o que aconteceu com seu casamento? Como Henrique poderia realmente tê-la matado?

‘A vida de Ana era… a história sensacionalista de tablóides’, diz a agente literária Irene Goodman. ‘Tem sexo, adultério, gravidez, escândalos, divórcio, realeza, celebridades, disputas religiosas e personalidades maiores do que a vida’. Vista sobre esta luz, Ana é uma princesa para todas as idades. Nós queremos compreender Ana e sua história com o tipo de compreensão que temos apenas quando podemos ver, tocar algo. E já que não podemos tocar uma mulher que está morta a seis séculos, tudo o que podemos fazer é projetar-nos em sua vida. The Last DaysEm nossa era de ciência acreditamos que a verdade está no físico, no que pode ser observado empiricamente com os nosso olhos. Isto dá o nosso sistema de justiça, com sua insistência em evidência – um caro avanço sobre a justiça dos Tudors, cujos julgamentos duravam meia hora no máximo e, se o rei queria que você fosse culpado, bem, você seria culpado. Mas isso também significa que estamos prontos para vermos explicações científicas para os mistérios históricos como revelações de uma verdade maior, quando elas são, na verdade, apenas outro tipo de narrativa.

Será que é mesmo possível chegar a uma versão de Ana que é menos influenciada simplesmente porque sabemos mais sobre os estudos científicos de gêneros do que eles? Nós provavelmente nunca saberemos quem a ‘Ana real’ era – muito dos materiais primários foram destruídos após sua morte, mas é lisonjeiro pensar que a nossa própria versão contemporânea é mais provável do que outras porque parece mais criticamente iluminada.

Artigo escrito por Lauren Elkin para o The Daily Beast.

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