Thomas More: Inquisidor, Torturador e Santo

santo thomas more

Centenas de Igrejas Católicas levam o nome de Sir Thomas More, o advogado do século 16, estadista e executor da ortodoxia. Católicos reverenciam Sir Thomas como um mártir porque ele foi decapitado por se recusa a dizer que a autoridade do rei Henrique VIII substituía a do Papa. Mesmo nos círculos seculares e humanistas, More muitas vezes recebe grande respeito, principalmente por suas colaborações com o humanista holandês Desiderius Erasmus, também conhecido como Erasmo de Hotterdan, e parte também por conta da forma com que ele foi famosamente retratado no filme O Homem que Não Perdeu sua Alma – um fervoroso católico que preferiu morrer a trair suas convicções.

Após assistirem a série Wolf Hall, que muitos dizem tratar Sir Thomas More de uma forma “negativa“, os bispos Mark Davies de Sherewsbury e o Bispo Mark O’Toole de Plymouth atacaram a série dizendo que Thomas More “foi um dos maiores ingleses” – nada do homem frio e até asqueroso retratado na série. Até mesmo porque ele não é “Sir Thomas More” – é Santo Tomas More. Ainda para o Bispo Mark,

“Devemos lembrar que Wolf Hall é uma obra de ficção. É um feito extraordinário e perverso de Hilary Mantell e da BBC fazer de Thomas Cromwell um herói falho e de Santo Thomas More, um dos maiores ingleses, um vilão de conspirações. Não é necessário compartilhar a fé de Thomas More para reconhecer seu heroísmo. Um homem de seu tempo, que continua a ser um exemplo de integridade para todos os tempos. Seria triste se Thomas Cromwell, que é certamente uma das figuras mais sem escrúpulos de toda a História da Inglaterra, ser colocado como um modelo para as gerações futuras”.

Thomas More interpretado por James Frain na série The Tudors.

Como o escritor Peter Stanford aponta, escolas católicas de toda a Inglaterra são nomeadas após ele: vai ser difícil para algumas pessoas assistirem Wolf Hall porque há muitas igrejas, casas senhoriais e relíquias em homenagem à Thomas. Os católicos da Inglaterra cresceram com a santidade de Thomas More como parte intrínseca de sua fé.   Mais louvores podem ser lidos em toda a História da Inglaterra: More era e é o ideal do catolicismo.

Mas o que nenhuma pessoa parece disposta a reconhecer é que Sir Thomas More também foi um homem que abominava a Reforma Protestante e que queimava luteranos na fogueira com grande prazer. Um dos motivos maiores que levavam More a odiar os hereges protestantes é que eles se atreviam a ler o Novo Testamento em inglês ao invés de latim, o que era contra a lei da Inglaterra – e da Igreja – na época. O historiador e estudioso James Wood nos lembra que Thomas More era:

“um caçador de hereges de meados da década de 1520, que pessoalmente invadia casas luteranas e enviava homens para a fogueira, e que puniria a dissidência religiosa não só com palavras desagradáveis, mas com a violência do Estado”.

Thomas More, que em 1529 se tornou Lorde Chanceler, foi logo o agente mais ansioso da Igreja. Com a ajuda de John Stokesley, o Bispo de Londres, eles pessoalmente invadiam as casas de suspeitos hereges, os prendia no local e por vezes interrogaram-os em sua própria casa. Uma vez, eles prenderam um homem no portão de sua casa, e depois lhe colocaram em um trono para tortura. Ele invadiu a casa de John Petyt, um homem suspeito de financiar Tyndale – Petyr morreria na Torre de Londres. Uma outra vez, seis estudantes rebeldes de Oxford foram presos por meses em uma adega de peixes, três deles morreram lá.

O mais famoso retrato de Thomas More, por Paul Scofield em O Homem que Não Vendeu Sua Alma.

Uma das biografias mais positivas de Thomas More, escrita por Peter Ackroyd, relata que Sir Thomas More, ao ficar sabendo que John Tewkesbury, um vendedor de couro em Londres, secretamente possuía livros proibidos, fez com que o homem fosse queimado vivo. Após sua execução, More expressou sua satisfação. Richard Marius, um estudioso americano, conclui que More estava ansioso para exterminar os protestantes.

Mas como disse o Bispo de O’Toole, “More era um homem de seu tempo, e heresia era um grande pecado. É difícil para nós em nossa mentalidade moderna vê-lo como errado. Eles olhavam para hereges como nós olhamos para traficantes de drogas. Mas é impreciso dizer que ele (Thomas More) condenava pessoas à morte”. A primeira parte dessa afirmação é o relativismo moral – a desculpa relativista para execuções religiosas é um dos males do nosso século; queimar ser humanos vivos não é algo que podemos simplesmente ajustar a nossa época como um mal necessário. A queima de James Bainham, um dos pontos-chave da série Wolf Hall sobre Thomas More, era um teatro público e um rito social. Mas não podemos desculpar, ou beatificar, os homens por trás desses atos. Isso foi questionado mesmo no tempo de Thomas. Como observa James Wood,

More tentou responder à acusação dos reformadores de que não era cristão para a Igreja queimar hereges. Mas a Igreja não queimava pessoas, respondeu More; o Estado queimava. Isso era estritamente verdadeiro, porque os tribunais eclesiásticos julgavam os hereges e o tribunais estaduais condenava-os. Mas a linguagem de More é falsa. A Igreja, escreveu ele, nunca iria querer matar ninguém. “Não é o clero que está trabalhando para tê-los punidos com a morte. A ‘lei espiritual’ é boa, razoável, comovente e caridosa, e não há desejo de morte nele”. A Igreja pede ao herege para se arrepender, e se ele não o fizer, a Igreja o excomunga, no ponto que “o clero dá conhecimento ao temporal, sem exortar nenhum príncipe, ou qualquer outro homem também, a matá-lo ou puní-lo”. A Igreja não exorta ninguém a punir o herege, ela o ‘deixa para as mãos seculares, e os deixa lá’.

Ainda sim, é um consenso acadêmico de que não há nenhuma evidência histórica de que More se envolveu pessoalmente em uma tortura: como foi resumido por John Guy em The Public Career of Sir Thomas More (Yale, 1980), “uma análise séria se opõe a repetição de histórias protestantes de que Sir Thomas açoitava hereges contra uma árvore em seu jardim em Chelsea” – embora Thomas More tenha admitido que ele mantinha os hereges em custódia pessoal.  Também devemos levar em consideração que o número de hereges queimado nos três anos em que More foi chanceler é de seis pessoas, sendo que em três casos ele estava envolvido diretamente. Para Peter Ackroyd, em sua biografia The life of Thomas More em 1998,

“More encarnava a velha ordem da hierarquia e autoridade no exato momento em que ela começava a desmoronar ao seu redor. Ele foi o último homem medieval”.

Anton Lesser interpreta Thomas More na controversa adaptação ‘Wolf Hall’.

O mundo católico teve quase 4 séculos para escrever mais sobre More, mas nunca o fez. Em 1929, o escritor católico G. K. Chesterton escreveu apenas que “O abençoado Thomas More é mais importante nesse momento do que em qualquer outro momento dese a sua morte, mesmo talvez o grande momento de sua morte”. O Vaticano concordou que ele era um homem digno, e em maio de 1935, Thomas More foi declarado pelo Papa Pio XI como Santo. Em outubro de 2000, o Papa João Paulo II escreveu que Thomas More era “o ideal supremo da justiça” e elogiou-o por sua “integridade moral infalível”. Ele foi então declarado oficialmente como Santo padroeiro dos estadistas, políticos e advogados católicos.

Bibliografia:
WOOD, James. The Broken Estate: Essays on Literature and Belief. Random House, 1999.
MALTBY, Kate. Like Isis, Thomas More believed passionately in burning people alive. Acesso em 25 de Junho de 2015.
MORELAND, Michael. Thomas More Was Not “Unnaturally Fond of Torturing Heretics”. Acesso em 25 de Junho de 2015.
WOODS, Mark. Wolf Hall is wrong: Thomas More was a saint, not a schemer, say Catholic bishops. Acesso em 25 de Junho de 2015.
Thomas More: Inquisitor, Torturer, Killer, Saint. Acesso em 25 de Junho de 2015.
Historical Controversies about Sir Thomas More. Acesso em 25 de Junho de 2015.

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