O cardeal e a Concubina – o relacionamento entre Thomas Wolsey e Ana Bolena

"Anne Boleyn persuades King Henry VIII to dismiss Wolsey".

Apesar de ter muitos inimigos, o Cardeal Wolsey teve a confiança do rei Henrique VIII até este decidir procurar uma anulação com a o casamento com Catarina de Aragão, para que ele pudesse se casar com Ana Bolena. A falha de Wolsey para garantir a anulação é amplamente percebida como a causa direta da sua queda e prisão, mas muitos dizem que foi Ana Bolena e a facção Bolena que convenceu Henrique que o cardeal estava deliberadamente retardando o processo, e como resultado ele foi preso em 1529. Destituído de seu escritório do governo e de suas propriedades, muitas pessoas também gostam de culpar a queda de Wolsey como parte de um plano de vingança de Ana Bolena por ele ter acabado com seus planos de se casar com Henry Percy.

Seria realmente muito saber dos fatos e dos sentimentos das pessoas nessa época. Eric Ives aponta que a principal fonte histórica para o envolvimento de Henry Percy e Ana Bolena é a biografia de Cardeal Wolsey escrita por George Cavendish. Nesta biografia, ele conta a história de amor de uma dama de companhia (Ana) e Heny Percy, um membro da família de Wolsey, e como Henrique VIII ordenou que Wolsey intervisse e impedisse o casamento, pois ele estava atraído por Ana.

Cavendish escreve sobre como o Cardeal chamou Percy e lhe disse como ele havia ofendido o seu pai, o Conde de Northumberland, e como o Rei tinha planos para com Ana, e que ele precisava acabar com a relação. Percy foi então casaco com Mary Talbot, filha do Conde de Shrewsbury. A partir daí, Ana passou a nutrir um ódio de Wolsey, e que fez ameaças ao Cardeal.

Já Eric Ives aponta que essa reação de Ana é altamente improvável. Fazer ameaças ao Cardeal em 1522 ou 1523 seria imprudente e infantil, e Ana não era nenhuma dos dois.

Outro episódio que é muitas vezes apresentado como prova do ódio de Ana por Wolsey e sua necessidade de vingança é a interferência de Wolsey nos planos de Ana para ajudar uma parente Carey a ser abadessa em um convento. Infelizmente, a candidata de Ana tinha um passado bastante sórdido, e por isso foi considerada inadequada, enquanto uma candidata de Wolsey levou o prêmio.

Seja quais fossem os sentimentos de Ana sobre Wolsey, ele foi o único homem que poderia dar a ela o que queria, e suas esperanças para o casamento do rei estavam sobre eles.

Depois – e muito depois – seria declarado que ela sempre fora inimiga do Cardeal Wolsey porque ele acabara com o romance dela com Henry Percy. Mas a prova das próprias cartas de Ana a Wolsey no verão de 1528 revela o contrário. Em meados de junho ela escreveu uma carta que era quase abjeta em sua gratidão.

‘Sei que os grandes esforços e dificuldades que o senhor enfrentou por mim, dia e noite [com relação ao divórcio] talvez nunca sejam recompensados por minha parte, a não ser apenas (…) amando-o, depois da graça do rei, acima de todas as criaturas vivas.’

O rei acrescentou um pós escrito: ‘A autora desta carta não queria parar, até que me forçou a fazer o mesmo e escrever (…).‘ Os pretensos amantes assinaram a carta juntos. ‘De seu carinhoso soberano e amigo Henrique R.‘, seguido de ‘Sua humilde serva Ana Bolena’. Poucas semanas depois, Ana Bolena, ao agradar o Cardeal com um ‘rico presente’, expressou sua satisfação por ele ter escapado ‘do suor‘:

‘Todos os dias de minha vida (…) estarei dedicada, de todas as criaturas, depois da graça do rei, a amar e servir Vossa Eminência; pelo que lhe peço que nunca duvide que algum dia eu me desvie desse pensamento enquanto houver vida em meu corpo.’

'Thomas Wolsey and Henry VIII', por Clives Uptton.

‘Thomas Wolsey and Henry VIII’, por Clives Uptton.

Os escritos de Ana podem parecer um pouco falsos ouvidos em uma era posterior. Na verdade, Ana e Henrique tinham muito a agradecer a Wolsey naquele verão. O papa Clemente VII fora induzido a conceder uma comissaão secreta que nomeava Wolsey e o  Cardeal Campeggio, como inquisidores conjuntos do casamento do rei.

Parece que Ana só se moveu contra Wolsey quando ela percebeu que ele estava realmente tentando atrapalhar os planos para a anulação, ao invés de prosseguí-los, e Ana disse a Henrique que Wolsey não estava sendo totalmente honesto com eles em relação aos sentimentos do Papa quanto a anulação.

Em termos políticos, o Cardeal tinha inimigos mais poderosos: Thomas, 3º Duque de Suffolk, tio de Ana, e o cunhado de Henrique, o Duque de Suffolk. Embora não fossem aliados um do outro, eram hostis ao Cardeal.

Mostrando seu lado bonito, Henrique separou-se de seu servidor em termos afabilíssimos: o soberano estava visitando-o durante sua viagem oficial do outono, e encontrava-se montado acavalo no pátio, pronto para partir. Na noite de véspera, Cavendish vira o rei fazer um sinal para o cardeal para que este recolocasse o chapéu cardinalício – um acentuado sinal de boas graças. O rei saiu fazendo barulho e nunca mais viu Wolsey.

A ascensão do Cardeal fora demorada e dura, com diligência, paciência e serviço árduo acompanhando cada passo. Sua queda foi rápida. Uma série de golpes brutais tirou-lhe os poderes, a começar com o procurador-geral em 9 de outubro de 1529 que o acusou de praemunire, ou seja, exercer os poderes do legado papal em território do rei, depreciando, assim, a autoridade legal do rei. Wolsey foi oficialmente destituído do cargo de Lorde Chanceler, e foi obrigado a devolver o Grande Selo.

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‘Thomas More confronting Cardinal Wolsey’, por Vivian Forbes.

Tentando desesperadamente evitar acusações, Wolsey deu a Henrique a maior parte de sua propriedades, incluindo York Place, e se retirou para uma modesta casa em Esher, Surrey. York Place seria reconstruído, rebatizado de White Hall e dado à Ana Bolena. Em novembro, Wolsey implorou ao rei misericórdia, e o rei, aplacado, colocou Wolsey sobre sua proteção pessoal. Logo após o Natal, Wolsey ficou doente. O rei lhe enviou uma mensagem dizendo que ele ‘não iria perdê-lo nem por £20,000’ e a saúde do cardeal começou a melhorar.

Ana ficou furiosa quando, em 12 de fevereiro de 1530, o rei perdoou Wolsey formalmente e confirmou seu posto como Arcebispo de York: para ela, Wolsey nunca tinha apoiado o desejo do rei de obter uma anulação. Percebendo que seu único caminho de volta ao poder seria se Catarina fosse novamente rainha e Ana dispensada, Wolsey escreveu ao Papa para que o assunto fosse resolvido com mais velocidade. Wolsey tinha obviamente subestimado o amor que Henrique tinha para com Ana, sua determinação e a sua influência sobre o rei.

Ela não estava de braços cruzados: ela havia subornado o médio de Wolsey para que ele acusasse Wolsey de convencer o Papa a excomungar Henrique e querer o trono inglês para si próprio. Wolsey também tinha escrito ao rei Francisco e Charles V para pedir que intercedesse ao rei em seu nome, e isso também foi usado contra ele como prova de traição. Curiosamente, quem foi à casa de Wolsey declarar que ele estava preso por Alta Traição foi Henry Percy, Conde de Northumberland.

A queda de Wolsey e sua morte no caminho para ser interrogado deixou o caminho aberto para a facção Bolena e para Thomas Cranmer, que finalmente mostou a Henrique como ele poderia usar a lei de Deus para contornar Roma e conseguir o que queria.

Henrique já não precisava da permissão de Roma, ele poderia anular o casamento e se casar com seu verdadeiro amor, Ana Bolena. Este foi o triunfo de Ana e seus seguidores, e também para o rei, e apesar de haver ainda uma viagem muito longa pela frente, o casal tinha uma esperança renovada.

Bibliografia:
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
Cardinal Thomas Wolsey. Acesso em 25 de junho de 2017.

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