O fumo e o tabaco na Inglaterra Tudor

Xilogravura de uma taverna Tudor

Os espanhóis foram os primeiros europeus a serem introduzidos ao tabaco. Rodrigo de Jerez e Luis de Torresm que viajaram junto de Cristóvão Colombo ao Novo Mundo, geralmente ganham o crédito por terem experimentado primeiro. Uma vez que a maioria dos espanhóis desprezava os índios, eles também desprezavam o uso do tabaco. Gonzalo Fernándes de Oviedo, o governador militar de Hispaniola, disse que ‘a ingestão de um determinado tipo de fumo, que eles [os índios] chamam de tabaco (…) é uma prática especialmente prejudicial’. O ódio espanhol para o tabaco, entretanto, não se limitou aos consumidores índios da planta, mas também ao seus concidadãos europeus que o consumiam, em parte por causa de suas propriedades viciantes. De acordo com Iain Gately, para eles a ‘indulgência excessiva ou obsessiva em qualquer coisa venal é classificada pura e simplesmente como um pecado’.

A maioria dos espanhóis não concordavam com o consumo do tabaco, já que este era associado com Satanás, pois os índios que o consumiam supostamente entravam em um estado de transe onde conversavam com espíritos. Em 1588, o Papa Paulo VI emitiu um decreto eclesiástico que proibia ‘sob pena de condenação eterna (…) todos os sacerdotes que consumissem tabaco’.

Alguns europeus, por outro lado, desenvolveram uma propensão para o tabaco. A sua primeira utilização na medicina européia foi como um tratamento pela dor causada pela sífilis. Além de alguns espanhóis, os europeus viam a prática do consumo do tabaco com uma curiosidade acentuada. Gately explica o consumo europeu do tabaco a partir de uma perspectiva nacionalista:

O francês o usa para afastar doenças e preservar a beleza, os italianos só permitem o uso pelos sacerdotes, os alemãs o examinou cientificamente e determinaram que era uma ‘erva violenta’, a noção geral inglesa era contrastada e única: eles tiravam o prazer derivado dela.

O consumo de tabaco pelo povo inglês era feito por três métodos principais: o fumo, a aspiração e a sua aplicação tópica. O consumo do tabaco em pequenas quantidades provoca um leve efeito analgésico, embora em doses elevadas pode provocar alucinações e até mesmo a morte. Em 1561, Jean Nicot (de onde deriva o nome da nicotina), embaixador francês em Portugal, aspirava-o moído (rapé) e percebeu que ele aliviava suas enxaquecas. Por isso, nesse ano, enviou sementes e pó de tabaco para França, para que a rainha Catarina de Médici o experimentasse no combate às suas enxaquecas. Com o sucesso deste tratamento, o uso do rapé começou a se popularizar.

Há vários relatos de multidões que se formavam em Londres para assistir homens consumindo tabaco. No início, as pessoas acharam isso extremamente engraçado. No entanto, as atitudes começaram a mudar no final da década de 1580.

Embora geralmente creditado como o defensor mais firme do tabaco na Era Elizabetana, Sir Walter Ralegh não apresentou a planta na Inglaterra pela primeira vez: esse ato foi feito pela tripulação de John Hawkins, que provavelmente trouxe a planta depois de visitar o Caribe em 1562. Como Ralegh era um homem bonito, interessante e poderoso, ele foi muito mais bem sucedido em popularizar o consumo do tabaco do que Hawkins.

O uso médico inglês do tabaco era um pouco mais específico do que qualquer outro uso europeu. Dado que a Inglaterra é uma ilha pequena e que os ingleses eram conhecidos pelo seu consumo excessivo da comida e bebida, eles eram considerados pelos médicos como particularmente propensos a uma doença chamada ‘rheums’. Como Sir Thomas Elyot apontou em sua obra ‘The Castel of Helth’, rheums era a doença mais preocupante na Inglaterra de Elizabeth I. Esta doença, de acordo com a medicina contemporânea, era desenvolvida por causa do clima frio e úmido. Médicos e ervanários pensavam que o tabaco era eficaz contra a doença por ser uma substancia quente e seca. O rei James I, sucessor da rainha Elizabeth I, escreveu um argumento contra o tabaco, dizendo que a fumaça do tabaco fava preso no nariz da pessoa e ficava preso lá até que se condesasse e formasse um líquido, tornando a rheums ainda pior.

Os médicos afirmavam que o tabaco era bom para todos os tipos de doenças como, por exemplo, dor de dente, vermes, mau hálito, têtano e até câncer. Thomas Hariot (um amigo de Sir Walter Raleigh) escreveu que o fumo do tabaco preservava o corpo e era um remédio para úlceras, feridas, infecções na garganta e no peito e contra pragas. Ele se tornou um fumante inveterado e morreu de uma úlcera cancerosa no nariz, tornando-se,provavelmente, a primeira pessoa na Inglaterra a morrer de uma doença relacionada ao tabagismo.

Um visitante alemão, Paul Hentzner, visitou Londres em 1598 e comentou:

‘Nesses espetáculos (peças de teatros e rinhas de ursos) e em qualquer outro lugar, os ingleses estão constantemente fumando a erva nicotina, que na América é chamada de tabaco’.

De acordo com Gately, fumar era ‘simbolicamente o espírito de aventura dos seus proponentes personificada’ na corte de Elizabeth I. Ralegh até mesmo conseguiu fazer a rainha fumar. Por causa de todos os seus defensores influentes,  o tabagismo tornou-se um esteio na Inglaterra. Jogos foram feitos, como, por exemplo, tentar soprar um anel de fumaça perfeito. Até mesmo os pobres tinham em suas habitações um lume no chão, pois pensava-se que o fumo prejudicava a solidez dos madeiramentos. Por isso, em suas casas, o fumo saía por um buraco no telhado.

Apesar dos esforços do críticos do tabaco, a sua demanda aumentou consideravelmente em toda o reinado de Elizabeth e seu reinado foi e ainda é associado com a exploração e aquisição de muitos produtos do Novo Mundo.

Bibliografia:
TAYLOR, Chritopher W. ‘Elizabethan Economy‘. Acesso em 18 de Março de 2013.
TAYLOR, Chritopher W. ‘Elizabethan Tobacco‘. Acesso em 18 de Março de 2013.
SIMKIN, John. ‘Tobacco in Tudor England‘. Acesso em 22 de Janeiro de 2014.
Health Facts‘. Acesso em 22 de Janeiro de 2014.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s