Uma mulher grávida realmente foi queimada durante o reinado de Maria Tudor?

Perotine Massey não é um nome familiar para muitos. Quando pensamos nos protestantes que foram perseguidos durante o reinado de Maria Tudor, muitas vezes refletimos sobre vítimas proeminentes como Thomas Cranmer, Arcebispo de Canterbury, mas Perotina não era ninguém especial. Mas então porque ela, ou mais precisamente, a sua morte, é tão controversa? É porque ela era uma mulher? Não: as mulheres poderiam ser acusadas e condenadas por uma variedade de crimes e Perotina certamente não era a primeira nem a última mulher a ser queimada por heresia na Inglaterra. Era por causa de seu status? Não: ela era uma mulher de origem modesta, assim como vários outros mártires. A razão pela sua fama é porque ela estava grávida no momento de sua morte.

Os detalhes foram fornecidos por John Foxe em seu Livro dos Mártires: ela era filha de Katherine Cauches e morava com sua mãe e uma irmã, em Guersey. Uma mulher em sua comunidade roubou uma xícara de prata e tentou vendê-la para Perotine, que sabendo que não era sua, informou ao verdadeiro dono sobre o roubo. O ladrão foi preso e Perotine foi interrogada sobre qualquer envolvimento no assalto. Não foram encontradas evidências, mas ao invés disso, ela foi acusada de não comparecer a Igreja. O caso foi levado ao Decano de Guernsey e, em 14 de Julho de 1556, foi julgada por importantes figuras locais. No dia 17 ou 27 de Julho, ela foi condenada como herege e queimada. Ela foi estrangulada antes, mas a corda arrebentou. Enquanto estava na estaca, ela deu a luz a um menino, e uma testemunha no local tentou salvar o bebê. Mas o oficial de justiça, Helier Gosselin, insistiu que o bebê deveria morrer, e o jogou no fogo.

Alguns outros detalhes sobre a vida de Perotine: ela era casada com um ministro calvinista, e deixou a ilha de Guernsey para viver em Londres. O nome de sua irmã era Guillemine Gilbert e, de sua mãe, Katharine Cawches. A testemunha principal em seu julgamento se chamava Vincent Gosset, e ficou decidido que ele havia mentido sobre o objeto roubado. De acordo com Foxe:

“No momento determinado, quando essas três boas servas e santas de Deus, a mãe inocente com suas duas filhas, deveriam sofrer, e no lugar onde deveriam consumar seu martírio, foram colocadas as três. A mãe no meio, a filha mais velha na direita, e mais nova do outro. Perotine, que estava grávida, deu á luz, uma visão pesarosa não só aos olhos de todos, mas também aos ouvidos de todos os cristãos de coração verdadeiro que lerão esta história. O ventre da mulher explodiu pela veemência das chamas”.

Essa é de fato uma história horrível. Mas seria verdade? Se sim, porque ela teria sido executada, e porque o bebê não foi salvo? Se foi inventada, então por quais motivos?

Os motivos da história ter sido registrada ou inventada por Foxe é óbvio – o assassinato de um bebê recém-nascido era considerado odioso para os contemporâneos assim como era para nós. Os responsáveis por isso eram julgados injustos e brutais – exatamente a forma com que a Igreja protestante desejava representar Maria e a Igreja Católica. Acima de tudo, a história se concentra em suas perseguições, nas quais 300 protestantes morreram de forma horrível. Mas isso não significa que as histórias eram necessariamente mentira – ninguém duvida, por exemplo, da excecução injusta de Thomas Cranmer, mesmo após ele ter negado e voltado atrás em suas crenças – o que, de acordo com a Igreja Católica, o salvaria.

A questão da gravidez levanta questões: durante o início do período moerno, havia algo conhecido como ‘benefício da barriga’. Uma mulher gráivida que havia sido condenada à morte poderia mostrar sua condição e, assim, sua execução esperaria até o nascimento da criança. O filho não era considerado culpado pelos pecados da sua mãe e, portanto, não poderia compartilhar seus destinos. Na maioria dos casos, mesmo que a mãe não tivesse um perdão real, poderia permanecer na prisão cuidando de seu filho.

Mas então, porque Perotina foi queimada mesmo estando grávida, assumindo que a história é verdadeira? Talvez ela mesma não soubesse de seu estado, e nem mesmo os oficiais. De acordo com Jasper Ridley em Bloody Mary’s Martyrs (2001), Perotine não disse aos juízes em seu julgamento que estava grávida, embora seja difícil deduzir se isso foi feito conscientemente ou se ela realmente não sabia sobre sua condição.

O oficial de justiça, que não salvou o bebê, foi mais tarde julgado durante o reinado de ELizabeth I. Sua resposta é que pela criança estar no útero da mulher, ele portanto compartilhava de seu pecado. Ele foi condenado por assassinato, mas recebeu um perdão real.

O caso de Perotine revela problemas óbvios no sistema de perseguição aos herefes de Maria. Independente do executado ser católico ou protestante, a morte de um recém-nascido era considerada inaceitável. A história rodou a Europa e foi motivos de coment´rios posteriores: um escritor católico e exilado, Thomas Harding, escreveu que Perotine não havia dito aos juízes sobre seu estado, caso contrário, ela teria sido poupada. Ele não negou que ela tivesse dado à luz na fogueira, mas sim protegendo o sistema de julgamento da inquisição católica.

Hoje existe uma placa em homenagem a Perotine, junto de sua mãe e irmã que também foram queimadas juntas. A placa pode ser vista na Tower Hill, em Londres. Ela pode não ter sido a mártir católica mais famosa, mas sua história têm sido frequentemente mencionada para descrever os horrores do reinado de Maria I.

Bibliografia:
The case of Perotine Massey. Acesso em 12/01/2018.
SIMKIN, John. Perotine Massey. Acesso em 12/01/2018.

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