A vida musical das esposas de Henrique VIII: Ana Bolena

Parece que o grande corpo de informações sobre a vida musical de Ana Bolena foi uma combinação de boatos e mitos urbanos, mas o que é certo é que a ideia de envolvimento musical e Ana são quase sinonimamente associadas. Embora poucos relatos primários sobrevivam de sua produção musical, ela também foi a rainha cujos atributos musicais são mais mencionados, contemporâneos e postumamente. Nos últimos cinco séculos, Ana Bolena tem sido uma fonte de fascínio para historiadores, pesquisadores e musicólogos. De todas as seis rainhas de Henrique, ela tem sido a mais escrita no mundo da musicologia e da história inglesa.

Como embaixador estrangeiro no rei, Thomas Bolena tinha as conexões necessárias para colocar ambas as filhas em posições de destaque nas cortes estrangeiras durante seus anos de formação. Ana e Maria começaram suas educações como dames d’honneur de Margaret da Áustria na corte neerlandesa do Palácio Mechelen em 1513.

Ana recebeu educação formal em canto, dança e música instrumental na corte de Margaret. Cercada na corte por uma grande população de artistas e instrutores vocais e instrumentais, Ana teria sido educada nos dois tipos de composição musical, incluindo a clavicord, manicordium, alaúde e outros “instrumentos melodiosos”. A figura do alaúde pode ser visto na imagem acima, de uma Ana feita de cera. Já os clavicord e manicordium não sobreviveram do período Tudor até os dias atuais, mas pode-se ter uma idéia de como eles eram por essas duas reproduções modernas:

Clavicord

Manicordium

Além de aprender a tocar instrumentos, Ana teria aprendido a dança da corte e, mais especificamente, danças que integravam performances teatrais. Dançar e participar da dança da corte era um dos principais deveres das filles d’honneur  – as damas de companhia ou ‘damas de honra’. Os livros de dança Mechelen deste período incluem música para uma das danças mais comuns para casais na época, a dança basse.

As mulheres neste retrato são mostradas em uma típica produção de música doméstica do século XVI. Ana, como essas mulheres, talvez tenha tocado a peça francesa retratada aqui, Jouissance Vous Donneray, de Claudin De Sermisy.

Depois de um ano em Mechelen, Ana e Maria foram chamadas para assistir Maria Tudor em seu casamento com o rei francês na corte da França. Há pouca ou nenhuma evidência contemporânea do tempo de Ana na França. Há uma “Mademoiselle Bolena” que é mencionada no séquito de 1514 do casamento de Maria Tudor com Luís XII, embora não diga se a jovem era Ana ou Maria. Outra fonte posterior, citada por Agnes Strickland em Vidas das Rainhas da Inglaterra , descreve Ana Bolena e seus talentos musicais narrados pela perspectiva do Visconde Chateabriant, que era cortesão da corte de Francisco I. O Visconde transmite os encantos musicais infinitos de Ana dizendo:

Ela possuía um grande talento para a poesia, e quando ela cantava, como um segundo Orfeu, ela teria feito ursos e lobos ficarem atentos. Ela sabiamente dançou as danças inglesas, saltando e pulando com infinita graça e agilidade. Além disso, ela inventou muitas novas figuras e passos, que ainda são conhecidos pelo nome dela, ou por aqueles dos parceiros galantes com quem ela os dançou. Ela era bem qualificada em todos os jogos da moda na corte. Além de cantar como uma sereia, acompanhando-se do alaúde, ela tocava melhor do que o rei Davi, e manipulava habilmente a flauta e o rebec.

O cortesão francês fez várias observações sobre a habilidade musical de Ana. Primeiro, ele elogiou não apenas seus talentos na música, mas também sua poesia e composição de dança. Ele elogiou suas habilidades em cativar uma audiência. Ele ainda comenta que ela dançava “pulando” e “saltando”, que na época teria sido algo altamente escandalizador para uma mulher. Ele até comparou Ana a uma “sereia” que por natureza eram criaturas perigosas que atraíam marinheiros para costões rochosos com seu encanto e música. Ainda mais, Chateaubriant retratou Ana tocando a flauta em forma fálica, um instrumento que insinuava conotações sexuais icônicas para artistas femininas.

Poucas posses de Ana ainda sobrevivem até hoje. O que sobrevive são três Livros de Horas que gradualmente se tornaram progressivamente mais religiosos. Mais importante ainda, um manuscrito do início do século XVI chamado de MS 1070, também chamado de “Livro de canções de Ana Bolena” por estudiosos modernos, inclui obras vocais seculares e sagradas que são principalmente em latim e francês. Pesquisadores anteriores, como Edward Lowinsky, especularam sobre a época específica em que Ana teria sido proprietária do manuscrito, argumentando que ela poderia tê-lo depois de se tornar rainha; ele até formulou a hipótese de proprietários alternativos do manuscrito. Cerca de vinte anos depois, Lisa Urkevich confirmou através do estudo da assinatura que Ana, de fato, era a proprietária do manuscrito antes de seu romance com o rei. Esta pequena inscrição, encontrada na parte inferior do f. 79 lê “Mris A Bolleyne Now Thus” e identifica Anne como “Mistress“. Isso pode, de fato, vincular Ana a seu tempo antes de sua elevação a Marquês e à rainha; já em 1532. Além disso, a inscrição “Now Thus” liga o manuscrito à família de Bolena, pela inscrição do lema da família. Um mini-documentário sobre um possível manuscrito musical de Ana pode ser assistido no nosso canal:

 

Mais importante do que a linha do tempo de propriedade de Ana do manuscrito é a coleção de músicas contidas no interior. Embora o conteúdo musical principalmente sagrado deste livro de canções possa refletir a piedade de Ana, ele também imita os sabores musicais difundidos da corte francesa. Como o retrato das três senhoras mencionadas anteriormente, o manuscrito de Ana também contém o trabalho secular Jouissance Vous Donneray, então é bem provável que a própria Ana tenha tocado a peça. Além disso, o pequeno tamanho do manuscrito indica que ele seria usado para fazer música doméstica, seja para uso individual ou de pequenos grupos. Músicos como Jean Mouton, Antoine Brumel, Loyset Compère, Claudin de Sermisy e até mesmo o famoso Josquin De Pres compõem a grande maioria dos trabalhos encontrados no manuscrito, e cada um serviu com Luís XII ou Francis I.

Ao contrário de sua antecessora, Catarina de Aragão, a maior associação de Ana com a música não era sua posse ou patrocínio de músicos, mas sim suas performances. Mais do que qualquer outra das seis rainhas, sua performance musical foi especulada, refletida e escrita. Mesmo nos variados relatos do cronista, as atividades musicais de Ana contêm um certo efeito teatral que é único para ela apenas como rainha.

Traduzido por Maria Helena Alves da Silva do artigo "Anne Boleyn: Musical legend and the MS1070" por Brooke C. Little.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s