‘Deus salve o rei’: Rodolfo de Monferrato e Henrique VIII

Conhecida no começo como ‘Game of Thrones’ brasileiro, três meses após o início de sua transmissão, iniciada em 9 de Janeiro deste ano, acredito que a novela da Globo, ‘Deus Salve o Rei’, já começou a se estabelecer como uma história ‘própria’, embora com uma trama ‘medieval’ clássica: duas famílias anseiam para tomar o trono, com uma paixão entre uma plebéia e um príncipe como romance principal. Continuar lendo

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Quantas pessoas foram executadas sob os Tudor?

 

Todos nós sabemos de cor alguns nomes famosos de homens e mulheres executados sobre os Tudor. William Stankey e Perkin Warbeck sobre Henrique VII; Edward Stafford, Ana Bolena e Thomas More sobre Henrique VIII (apenas para citar alguns); Eduardo e Thomas Seymour sobre Eduardo VI; Lady Jane Grey, Thomas Wyatt e Thomas Cranmer sobre Maria I; Robert Devereux e Maria Stuart sobre Elizabeth I. Mas seria possível saber quantas pessoas exatamente foram executados sobre o reinado dos Tudor? Qual monarca, dentre todos os seis foram os mais sanguinários?

 

Henrique VII
É muito difícil ter uma estimativa do primeiro rei Tudor: assim como Eduardo VI, ele não é foco de grandes pesquisas do período. Sabe-se apenas de quatro pessoas famosamente executadas durante seu reinado: Sir William Stanley (1495), Perkin Warbeck (1499), Edward Plantageneta (1499) e três líderes da primeira rebelião córnica em 1497.

Henrique VII foi implacável em assegurar seu trono, e insistia pessoalmente na execução de determinadas pessoas. Ele, assim como Elizabeth I, usavam de seu poder real para se vingar daqueles que levantavam ou apoiavam rebeliões ou conspirações. Suas vítimas eram aquelas que ameaçavam a estabilidade do reino, algo que nenhum monarca poderia ou deveria tolerar. Suas ações foram justificadas, pelo menos nos termos de sua era.

Henrique VIII
É impossível dizer com certeza e historiadores não têm um número definitivo. Estima-se que entre 57 mil e 72 mil pessoas foram executadas durante o reinado de 37 anos do segundo rei Tudor, mas isso provavelmente é um exagero: a ruptura papal do rei e seu segundo casamento não foram sancionados pelo Papa, causando uma fenda entre Henrique e alguns indivíduos da corte, o que gerou diversos rumores e registros falsos. Um dos motivos de se desconfiar desses números é que uma estimativa da população da Inglaterra neste período era de cerca de 2 milhões. Setenta mil pessoas seria quase 5% disso, e não há tantos registros para resguardar esse número. Entre as execuções mais famosas do rei estão duas de suas esposas; aqueles que se recusaram a aderir ao Ato de Sucessão, aqueles considerados hereges, considerados rivais ao trono, os líderes da Peregrinação da Graça e seu conselheiro mais confiável, Thomas Cromwell.

Henrique VIII, ao contrário de seu pai e sua filha Elizabeth, teve um grande número de pessoas executados por conta de seu fracasso em se curvar à sua vontade pessoal, muitas vezes fabricando ou usando evidências escassas para justificar suas ações.

Eduardo VI
Assim como seu avô, Eduardo não é foco de grandes pesquisas do período. Gerard Warner, jornalista e pesquisador partidário de Maria Tudor, aponta que 5.500 rebeldes católicos foram executados durante o reinado de Eduardo VI, que reinou por 6 anos. Se considerarmos apenas eles, a média de pessoas executadas por ano seria 916. No entanto, não estamos levando a execução de rebeldes na Irlanda ou Escócia em relação a Maria I, Elizabeth I e Henrique VIII, que têm dados melhor registrados.

De acordo com Ryrie, apesar de todo seu reinado tivesse sido voltado para a implantação do protestantismo da Inglaterra, ninguém súdito inglês foi executado em função da religião católica duranteo reinado de Eduardo VI, com exceção de rebeldes. Ao contrário de Henrique VIII, Eduardo decidiu manter vivos outros líderes opositores conservadores, como Gardiner, Bonner e Tunstall.

Maria I
Sob a primeira rainha sob seu próprio direito na Inglaterra, 283 ou 284 pessoas foram executadas e queimadas sob acusações de heresia. O número pode parecer pequeno em comparação com outros reis Tudor, mas o fato é que todas essas pessoas foram queimadas em um período de 4 anos e meio. Isso significa que, em comparação, 62,8 pessoas foram executadas por ano durante 4 anos e meio em seu reinado, enquanto no reinado de Elizabeth, 56,8 foram executadas por ano durante 44 anos.

Deve-se levar em consideração, também, que grande parte das execuções foram realizadas com o destino de restaurar e manter a Igreja Católica Romana, e os julgamentos eram feitos por tribunais da Igreja, e não por sua ordem direta – com a notável exceção de dois bispos eduardianos no primeiro ano de seu reinado.

Elizabeth I
Sob Elizabeth I, acredita-se que um total de 2.500 pessoas foram executadas no seu reinado de 44 anos. A grande maioria das pessoas executadas sob Elizabeth eram assassinos, ladrões, caçadores furtivos, etc., de acordo com as regras rigorosas aplicadas. Elizabeth, ao contrário de seus antecessores, preferia que os acusados pagassem uma multa pesada e fossem destituídos de seus títulos e propriedades ao invés de serem executados.

A tolerância que Elizabeth mostrou nos primeiros 11 anos de seu reinado começou a mudar em 1570, quando foi oficialmente excomungada e mais e mais católicos começaram a se envolver em conspirações para assassiná-la. Cerca de 30 católicos foram executados após sua excomunhão, embora documentos papais indicam que o número de martírios tenha sido 300. Entre as mortes mais famosas de seu reinado, estão a de Maria, Rainha da Escócia; Thomas Howard, Francis Throckmorton e Robert Devereux.

Bibliografia:
MASON, Emma. How many executions was Henry VIII responsible for?. Acesso em 12/01/2018.
RIDWAY, Claire. The Myth of Bloody Mary. Acesso em 12/01/2018.
LONGENECKER, Dwight. Bad Queen Bess. Acesso em 12/01/2018.
RYRIE, Alec. The Age of Reformation: The Tudor and Stewart Realms 1485-1603. Routledge, 2017.
Executions under all the Tudors. Acesso em 12/01/2018.
The most “violent” of the Tudors. Acesso em 12/01/2018.

24 de Dezembro: a última aparição de Henrique VIII no Parlamento

Em 24 de dezembro de 1545, Henrique VIII apareceu diante do Parlamento e fez seu discurso final, onde misturou ameaças e lisonjas enquanto falava aos Lordes e aos Comuns sobre a ausência de unidade religiosa na Inglaterra e outros assuntos. O rei fez sua última aparição como um monarca beligerante e absoluto, que tinha controle de todos os membros do Parlamento e exercia poder político irrestrito sobre o Estado soberano e seus assuntos. Continuar lendo

17 de Dezembro de 1538: Henrique VIII é excomungado pela Igreja Católica

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O Papa Clemente VII havia ameaçado Henrique VIII de excomunhão em março de 1530, quando o rei ainda não havia casado com Ana Bolena. Mas em 1532, Thomas Cranmer foi nomeado Arcebispo de Canterbury pelo própro Papa, e em maio de 1533, Cranmer declarou o casamento de Henrique e Catarina de Aragão nulo e sem efeito. Em resposta, o Papa declarou que anulação e o novo casamento do rei era ilegal e sem efeito. Continuar lendo

17 de Novembro de 1558 – A ascensão da Rainha Elizabeth I

O reinado de cinco anos de Maria Tudor, filha de Catarina de Aragão e Henrique VIII, chegou ao fim ás sete horas da manhã do dia 17 de novembro de 1558. A rainha tinha 42 anos e tinha ouvido a missa matutina, estando acamada há algum tempo, e se deitou para dormir. Doze horas depois, o Cardeal Reginald Pole, último arcebispo católico de Canterbury, morreu. As mortes da Rainha e do Arcebispo eliminaram dois grandes ícones do catolicismo na Inglaterra, abrindo espaço para a meia-irmã de Maria, Elizabeth, se instalar no trono.

De acordo com o Diário Papal, os franceses ficaram de olho na morte da Rainha da Inglaterra, “esperançosos de separar esse reino do Rei Filipe ou uní-lo com o da Escócia, e que o Papa deve declarar a rainha Elizabeth ilegítima por ter nascido de forma incestuosa, o que a deixará incapaz de triunfar no trono”.

Contaram a notícia da morte de Maria para Elizabeth em seu palácio em Hatfield. Os conselheiros chegaram lá na tarde do dia 17, encontrando-a, de acordo com a lenda popular, embaixo de um velho carvalho. Enquanto eles colocavam o anel em seu dedo, Elizabeth teria dito em latim: “Isto é um feito do Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos”.

Elizabeth não estava sozinha no palácio de Hatfield. Desde as últimas semanas, diversos cortesãos começaram a migrar para lá, ansiosos para provar usa fidelidade à nova Rainha, mesmo antes que a antiga morresse – isso também se provaria vital para a formação de Elizabeth como Rainha, sabendo como os cortesãos eram voláteis com as ‘Rainhas antigas’ quando já se tinha um herdeiro confirmado. O embaixador espanhol, Faria, também a visitou e ficou alarmado com a confiança da princesa e a sua recusa em reconhecer uma aliança com a Espanha. Em vez disso, ela disser a Feria que governaria pela vontade de Deus e pelo amor do povo a ela, e não pela vontade da Espanha. “Ela está muito apegada as pessoas, e está muito confiante de que eles estão todos do seu lado, o que é verdade”, escreveu Faria.

Princesa Elizabeth em 1555. Artista desconhecido, em coleção privada.

Mais tarde, durante sua primeira reunião, Elizabeth disse algumas palavras gentis sobre sua falecida meia-irmã. Mas sua atitude não era surpreendente: com uma diferença de 17 anos de idade, as duas irmãs foram amigas durante muito tempo – essa amizade evaporou quando Maria se tornou rainha em 1553. Rebeliões faziam com que Maria suspeitasse que Elizabeth estivesse tramando para derrubá-la do trono, além de ser protestante.

Elizabeth era a imagem brilhante de uma princesa jovem e inteligente, libertando seus súditos da opressão religiosa do reinado anterior. Não seria tão simples, claro: embora Maria não fosse popular no momento de sua morte, haviam muitos que apoiaram a queima dos mais de 300 protestantes a seu comando. Elizabeth, assim, herdou um país cheio de tensão religiosa, política externa em ruínas, economia instável e nobreza dividida. Mas tanto ela quanto Feria estavam certos ao declarar que apesar das dificuldades, Elizabeth chegou ao trono em uma onda de popularidade.

Bibliografia:
RUSSEL, Gareth. 17th November, 1558: The accession of Elizabeth I. Acesso em 10/11/2017.
November 17, 1558: The Queen is Dead, Long Live the Queen. Acesso em 10/11/2017.

O funeral da rainha Jane Seymour

"Six wives with Lucy Worsley"

Em 12 de outubro de 1537, a amada esposa de Henrique VIII, deu à luz em Hampton Court Palace, ao seu único filho e herdeiro masculino, Eduardo. Doze dias depois, em 24 de outubro, a rainha morreu por conta de complicações. Henrique ficou devastado, e retirou-se para Windsor. No dia 1 de novembro, ele decidiu que Jane seria enterrada na Capela de Saint George em Windsor, e que o enterro aconteceria no dia 12. A corte foi ordenada a usar luto. Para se diferenciar, o rei usaria roxo ou branco como luto, e todos os outros vestiriam preto. Continuar lendo