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Foto da Semana #306

anita

Anita Dobson como Elizabeth I no documentário ‘Armada’ da BBC, em 2015.

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Ficção, amor e o casamento na Era Tudor

casamento tudor

Sabemos que mulher medieval e renascentista era definida pelo seu estado civil: na adolescência, era uma virgem solteira até o momento que, quando adulta, entraria no estado matrimonial no qual ou ela ou morreria ou sobreviveria à viuvez. Assuntos comuns para a ficção história são a vida sexual dos cortesões reais: qualquer um que olhe para a vida sexual de alguém deste período inevitavelmente olha para seu eventual casamento, uma vez que poucas pessoas permaneciam solteiros naquela época. No entanto, o casamento que é mostrado na ficção história raramente representa o estado real do casamento da época. Esse artigo incide exclusivamente sobre o casamento dos cortesões reais e como eles foram retratados na ficção, e não o casamento como um estado geral em todos os estratos sociais do período Tudor (1485 – 1603).

Um típico casamento ficcional Tudor geralmente é mostrado como sendo opressivo e restritivo para a mulher – e legalmente e podemos ver que esse é o caso. Os homens medievais e renascentistas tinham, em teoria, o poder total sobre suas esposas. Com o casamento, o dote de uma mulher tornava-se propriedade de seu marido para que ele administrasse como bem entendesse. Se o marido morresse, ela iria resgatar essas terras (ou o equivalente que seu marido tinha vendido, trocado ou perdido) e esperava-se que ele tivesse cuidado deles esse tempo todo (caso contrário, ela ficaria sem nada). Ela viveria onde o marido escolheria para ela viver. Se seu comportamento ofendesse o marido, ele poderia optar por mandá-la embora para uma outra propriedade dele ou até mesmo colocá-la em um convento. A mulher poderia não ter nenhuma propriedade em seu próprio direito e estaria dependente de seu marido para ter sua renda, para suas roupas e a despesa geral da vida. Ele pagaria tudo que ela precisasse: efetivamente, se ele não quisesse pagar por sua comida ela não comeria. Se ele se recusasse a pagar por suas roupas ela poderia ficar sem nenhuma, e se ele parasse de pagar suas criadas, ela ficaria sem nenhuma. Um marido poderia bater em sua esposa e, consequentemente, fazer o que quiser com ela às quatro portas.

O casamento de Jane Grey e Guildford Dudley é mostrado no filme Lady Jane, de 1986, como o típico casamento Tudor.

O casamento de Jane Grey e Guildford Dudley é mostrado no filme Lady Jane, de 1986, como o típico casamento Tudor.

Com esse quadro bastante desolador do casamento não é de se admirar que a imagem mais comum que temos de uma mulher casada nesse tempo era uma imagem de opressão. E então não é de se surpreender que muitas heroínas ficcionais recusam a se casar e tentam afirmar sua independência ao se casar com um homem de sua escolha, porque ela nunca iria se sujeitar a uma vida tão restritiva por um homem que não amava.

No entanto, aceitar este ponto de vista como um fato mostra apenas o mínimo de pesquisa. Sim, um marido tinha o direito de todos os itens acima, mas isso não significa que todos os homens se tornavam tiranos e mantinham suas esposas em uma penúria constante após o casamento. Na verdade, o casamento era, como regra geral, uma parceria igualitária entre marido e mulher trabalhando juntos para ganhar mais status e posições para si mesmos e sua família.

Claro que como um público ocidental moderno nos solidarizamos instantaneamente com uma mulher prestes a se casar, uma vez que os casamentos Tudor eram em sua grande maioria arranjados. Quando a heroína ficcional expressa seu descontentamento com seu casamento iminente, ela é imediatamente forçada a uma situação que não quer. Nada é ajudado pela idéia comum de que se uma família quisesse casar sua parente mulher com um homem velho, eles o fariam. A adaptação televisiva de “The Other Boleyn Girl” mostra a tentativa da família Bolena em casar Maria Bolena com um homem velho e acima do peso. Mas só porque uma família poderia fazer isso não significa que eles fariam. A esmagadora maioria das famílias queriam noivos e noivas com idades semelhantes, ou pelo menos com uma idade razoável. Enquanto não era inédito para um homem idoso se casar com uma jovem mulher, isso não era uma norma e geralmente causava um escândalo, com uma simpatia pela mulher. Quando Charles Brandon, de 49 anos, se casou com uma jovem de 14, o arranjo foi considerado tão incomum que o embaixador espanhol incluiu a notícia em seus despachos como valendo mencionar “a novidade do caso”.

Era uma sabedoria convencional que parceiros de idade, status e riquezas aproximadas eram melhores paraum casamento: diferenças de idade eram consideradas imprudentes – um grande exemplo foi quando Louis XII, de 52 anos, se casou com Maria Tudor, de 18 anos. Ele morreu 3 meses depois e Maria logo se casou secretamente com Charles Brandon, de uma idade mais próxima da sua, embora de status e riquezas muito inferiores.

Além disso, era necessário o consentimento expresso dos noivos para um casamento ser válido – assim, era prática comum que os casais declarassem sua aceitação mútua durante o namoro. Mas para os ricos, esse podia ser um momento perigoso, uma vez que um consentimento por ambos já resultava em um contrato de casamento – o que poderia ocasionar em problemas caso um dos noivos se casasse posteriormente com outra pessoa, mesmo que o contrato verbal tivesse sido feito décadas atrás. Isso aconteceu com a rainha Ana de Cleves – seu casamento com Henrique VIII foi anulado, entre outros motivos, pelo seu noivado com o Duque de Lorraine.

A maioria dos casamentos era como os de Maria Bolena e William Carey, como mostrado no filme "A Outra" de 2008.

A maioria dos casamentos era como os de Maria Bolena e William Carey, como mostrado no filme “A Outra” de 2008.

A corte estava cheia de mulheres que faziam seus próprios casamentos contra os planos de sua família e do monarca. A princesa Margaret, a princesa Maria, ambas as irmãs Bolena, Maria Rainha da Escócia, Catarina Grey, Elizabeth Throckmorton, Elizabeth Vernon e Lettice Knollys são apenas apenas algumas das mulheres que fizeram os seus próprios casamentos. A própria avó de Henrique VII fora assim. O fato é que elas eram mais comuns do que a ficção nos quer fazer crer – embora ocorresse, é claro, coisas ruins quando um casamento secreto fosse descoberto, uma pequena proporção dessas mulheres eram obrigadas a abandonar o marido – grande parte das vezes porque, quando um casamento era descoberto, já havia sido consumado.

Um casal poderia muito bem contrair matrimônio secretamente e se considerar ‘homem e mulher diante de Deus’, mas um casamento na Igreja era necessário para satisfazer as expectativas dos amigos, da família e da comunidade. Acredita-se que quase 1/3 das noivas elisabetanas estavam grávidas quando se casaram na Igreja, apesar da proibição sobre relações sexuais. Além disso, durante a cerimônia, cada parceiro se comprometia a amar o outro, e o dever dos maridos em particular era enfatizado com citações das cartas de São Paulo.

O parentesco era tudo para as família renascentistas, e não apenas da Inglaterra. Os casamentos eram arranjados a fim de fortalecer os laços familiares e ganhar mais conexões que garantissem proteção e prosperidade para a família; e pais arranjavam os casamentos de seus filhos a fim de garantir o seu futuro – não é só as filhas que tinham o seu casamento arranjado, os filhos também eram casados sem terem chance de escolher suas parceiras. Como nota o historiador Jasper Ridley, as mulheres eram vistas como necessariamente subordinada aos homens, mas também tinham lugares de honra e importância na sociedade – principalmente se, em um casamento arranjado, o status da mulher fosse maior do que o do homem. Além disso, uma vez casados, embora as terras das mulheres se tornassem do seu marido, eram as mulheres que as administravam. Isso era mais presente na vida de ‘mulheres comuns’, que tomavam conta de suas casas, preparavam as refeições e compravam o que era necessário para o seu lar no mercado de suas vilas.

Em termos de administração doméstica – praticamente o único lugar em que todas as mulheres, de todos os níveis sociais, tinham superioridade ao homem – o marido é visto como assumindo um papel passivo. Se uma mulher vivia na corte e fosse dama de companhia da Rainha, era benéfico para um cortesão, uma vez que o salvava da despesa de ter que subordinar uma dama para lhe contar as informações que eram ditas dentro da corte e do círculo da Rainha. Para Sir Thomas Smith (1513 – 1577), escritor sobre o governo e a sociedade inglesa, a família não era uma monarquia, mas sim uma aristocracia, ‘onde alguns e os melhores governam, e onde nem sempre um – mas em algum momento e em alguma coisa um, e algum tempo e em alguma outra coisa ambos’. Correspondências familiares entre cortesões revelam a estreita parceria entre alguns maridos e esposas: em 1502, comprometido em uma luta para recuperar suas terras, Sir Robert Plumpton dependia de sua esposa Agnes para defender ua mansão e arrecadar dinheiro para ele – embora ele pedisse para que ele acabasse com essa questão. Ele se dirigiu a ela em uma carta como ‘coração querido’ e descrevendo a si mesmo como ‘seu próprio amante’. na década de 1540, John Johnson, comerciante, confiava que sua esposa Sabine gerenciasse seus negócios na Inglaterra enquanto ele estava em Calais trabalhando como comerciante de lã: eles assinavam suas cartas como ‘marido amoroso’ e ‘esposa amorosa’.

 O casamento de Maria Stuart e Francisco na série Reign.


O casamento de Maria Stuart e Francisco na série Reign.

É lógico que isso não quer dizer que todo casamento era um sucesso – mas mesmo para aqueles que eram infelizes, havia a chance de ir ao tribunal e pedir o divórcio por conta de abuso ou negligência, como Maria Talbot fez com o seu infeliz marido Henry Percy. O pai de Maria temeu que ela estivesse sendo abusada por seu marido, e Henry reagiu ao não deixar Maria se comunicar com sua família. Maria, por sua vez, foi para a casa de sua família e se recusou a ver seu marido, processando-o por divórcio. Embora ela não tenha tido sucesso – embora ele tenha morrido pouco depois – essa era uma possibilidade para as mulheres podiam fazer isso.

Acontece que grande parte da ficção história é baseada em torno de Catarina de Aragão, que mostra que os maridos estavam livres para tomar amantes enquanto suas esposas tinham que ‘fechar os olhos e suportar’. Embora uma rainha realmente tinha que ser virtuosa, algumas damas de companhia tomavam amantes – Anne Stafford, por exemplo, viveu em adultério aberto com William Compton por muitos anos até a sua morte. Apesar de suas imprecisões históricas, The Tudors mostra como muitas mulheres da corte mantinham relacionamentos com outros homens além de seus maridos.

A noção de que a sociedade Tudor era opressiva e patriarcal, onde esperava-se que as mulheres conhecessem seu lugar, diz muito mais sobre as atitudes do século XIX para as mulheres do que com os Tudor de fato. Grande parte das fontes para esses ‘mitos’ são de estatutos, atos de Estado e sermões religiosos, onde as mulheres eram retratadas como sujeitas à regra do pai, marido ou mestre – no entanto, essas fontes oficiais foram escritas de homens para homens, onde a voz das mulheres estão escondidas. No entanto, isso não quer dizer que a voz das mulheres está escondida nos registros históricos: como pudemos ver, através da literatura e de cartas podemos ver todo um universo Tudor que muitas vezes é desconhecido. Concluindo, a idéia deste artigo é mostrar que nem tudo no casamento Tudor era opressivo de forma que a ficção nos faz mostrar. Em teoria, os homens tinham controle completo sobre suas esposas; na prática, o casal via em si um parceiro para ajudar no avanço de suas ambições.

Bibliografia:
HOULBROOKE, Ralph. Love and marriage in Tudor England. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.
TONGE, Dave. Attitudes towards women in the Tudor period. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.
Fiction, Feminism and Marriage. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.
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Foto da Semana #305

eliza

Rachel Skarsten como Elizabeth I na série Reign, em 2015.

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Adelaide Kane como Maria Stuart, Rainha da Escócia, na série Reign, em 2016.

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Quando Ana Bolena se casou com Henrique VIII?

bou

A mais famosa esposa de Henrique VIII, Ana Bolena, foi coroada em uma cerimônia magnífica cheia de propaganda política e extravagância real. No entanto, os detalhes de seu casamento são menos conhecidos e uma confusão considerável o rodeia.

A versão tradicional dos acontecimentos e muitas vezes repetidas em biografias e livros didáticos é que eles se casaram em 25 de Janeiro de 1533. De acordo com Nicholas Harpsfield, apologista católico escrevendo durante o reinado de Maria I, os únicos presentes no local eram: Henrique Norris e Thomas Henegage, amigos do rei; e Anne Savage, amiga de Ana. Um mês depois, Eustace Chapuys registrou que o casal se casou na presença apenas do pai, mãe, irmão e duas amigas íntimas de Ana Bolena. Continue lendo »

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24 de Janeiro de 1536: O dia que mudou Henrique VIII

_Renaissance_FestivalO dia 24 de Janeiro de 1536 mudou o rei Henrique VIII, e não para melhor. Catarina de Aragão tinha morrido no início do mês, e é provável que o rei estivesse em um estado de espírito jubiloso. A morte de sua ex-esposa pôs fim a mais de uma década de disputa sobre a validade de seu casamento, e as relações conflituosas com a Espanha agora poderiam ser restauradas. Ana Bolena, sua nova rainha e esposa, estava grávida novamente e esta criança certamente seria seu almejado herdeiro. O mês de Janeiro foi repleto de festas, dança e um torneio. Henrique, amante de esportes, decidiu competir. Com mais de quarenta anos e mais pesado do jamais tinha sido, o rei era sensível sobre sua destreza física. Continue lendo »

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