Um poema de Ana Bolena?

Ó morte, me embale enquanto eu durmo
Me leve para um repouso silencioso.
Deixe sair meu fantasma cansado e inocente
Do meu cuidadoso peito.
Toque o sino,
Deixe seu doloroso som ressoar,
Deixe que anuncie o som da minha morte.
A morte se aproxima,
Não há remédio

O que podem expressar minhas dores?
Infelizmente, elas são tão fortes.
Mas a minha tristezá não ficarpa mais forte
Minha por muito se prolongou
Toque o sino,
Deixe seu doloroso som ressoar,
Deixe que anuncie o som da minha morte.
A morte se aproxima,
Não há remédio

Sozinha na prisão
Espero meu destino
Acho que valeu a pena essa saudação cruel que eu
Deva provar desta miséria
Toque o sino,
Deixe seu doloroso som ressoar,
Deixe que anuncie o som da minha morte.
A morte se aproxima,
Não há remédio

Adeus, meus prazeres passados
Bem-vinda, minha dor presente!
Eu sinto que meus tormentos aumentam assim,
Que a vida não possa permanecer.
Cesse agora, você tocará o sino
Deixará seu doloroso som ressoar,
Pelo som, minha morte conta
A morte se aproxima
Não há remédio.

Por cinco séculos, esse poema tem sido atribuído à Ana Bolena, supostamente escrito durante os dias em que ela aguardava sua execução na Torre. É um poema bonito, que transmite uma tremenda riqueza de emoções – tormentos agonizantes, uma angústia mental, dor, mágoa e resignação pelo destino. Com o uso de diversas técnicas como metáforas, símiles e onomatopéia, esse poema é uma descrição mais enfática e viva do que poderíamos ter de Ana Bolena. Diversos historiadores, pesquisadores e leitores de ficção histórica gostam de pensar que Ana Bolena escreveu esse poema na véspera de sua execução em 19 de Maio de 1536.

Martin Pope descobriu um livro da época que contém o poema ‘O death, rock me asleep’.

Mas existe alguma evidência de que o poema foi escrito por Ana? Martin Pope, um pesquisador e historiador, foi a todas as partes da Torre de Londres onde Ana foi presa, pesquisou e analisou alguns fatos conhecidos sobre seus últimos dias e  e descobriu que de fato existe uma versão contemporânea desse poema em um livro de poesia – então sabemos que foi escrito por volta de 1536. Mas ele teria sido escrito pela segunda esposa de Henrique VIII?

Enquanto Ana estava presa na Torre, foram dadas instruções de que cada palavra que Ana dissesse fosse gravada. Para garantir isso, Ana só poderia falar com suas damas na presença de Lady Kingston, a esposa do oficial da Torre.

Relatórios de Kingston para o Conselho sobre as atividades de Ana sobrevivem em cartas e documentos, embora parcialmente pedidos por causa de um incêndio que ocorreu em 1731. Mas Kingston nunca registrou que Ana tenha escrito alguma coisa. Ele faz menção de Ana ter perguntado se ela tinha permissão para escrever para Cromwell – ele disse que não, mas se ela lhe contasse o conteúdo, ele diria para Cromwell palavra por palavra. George Bolena aparentemente tinha as mesmas restrições, pois quando ele recebeu uma carta de Jane Parker, sua esposa, ele teve que responder verbalmente. Por isso, a carta que Ana Bolena supostamente escreveu na Torre também é considerada falsa.

Se Ana era incapaz de escrever cartas implorando por justiça e por sua própria vida, parece improvável que ela poderia escrever poesia. Kingston teria anotado isso em seus relatórios diários, e uma cópia, sem dúvida, teria sido enviada para o Conselho – que não publicaria nada que mostrasse Ana em uma luz simpática. Isso não significa que é impossível que Ana seja a autora do poema, é claro. Está dentro das possibilidades que o relatório de Kingston sobre Ana ter escrito uma poesia pode ter se perdido no incêndio – mas é improvável.

Depois da execução de Ana, o Conselho pegou de Kingston todos os itens pessoais que Ana tinha deixado em seus apartamentos na Torre. O Conselho não queria lembranças da mulher morta – se um poema fosse encontrado entre as coisas dela, teria sido discretamente destruído. Portanto, não podemos dizer com confiança que esse poema possa ter sido escrito por Ana durante seus últimos dias na Torre, embora não seja inteiramente impossível.  Existem outras versões desse poema na internet. Em uma delas, o final termina diferente:

[…] Deixará seu doloroso som ressoar,
Pelo som, minha morte diz:
Senhor, tem piedade da minha alma!
A morte se aproxima
O som,
Pois agora eu morrerei,
morrerei, morrei.

No romance ‘Ana Bolena’, de Norah Lofts, a autora escreve que Ana de fato escreveu um poema na Torre. Provavelmente baseado nesse mito, a passagem é muito emocionante: “Ana cantou […] especialmente a canção, ainda inédita, que compusera dentro da Torre, cheia de tristeza e de cortar o coração:

Maculado está o meu nome, oh tristeza
Por cruéis calúnias e sórdidas mentiras
Assim devo dizer para todo e sempre
Adeus à alegria, adeus à consolação.

[…]

Oh, morte, quando o sono eterno
De mim se apossar,
Deixe que meu imaculado fantasma
Possa além da morte, além do ódio
Dobrar os sinos em finados
Pois terei que morrer
Pois para isto não há remédio
Em meus dias abreviados.

Ana pensava: – Esta é a última vez que tocarei em que eu tocarei um alaúde, a última vez em que cantarei; mas seus pensamentos não possuíam a desesperada descrença […] A medida em que o tempo passava e a hora se aproximava, ela se tornava mais confiante na eternidade”.

Bibliografia:
LYSSA, Brian. “O Death, Rock Me Asleep,” A Poem by Anne Boleyn?. Acesso em 10 de Junho de 2017.
LONGUEVILLE, Olivia. The mystery of the poem “O Death, Rock Me Asleep”. Acesso em 10 de Junho de 2017.
LOFTS, Norah. Ana Bolena – o amor de Henrique VIII. Tradução de C. E. Schleier. – São Paulo: Edições MM, 1976.

A verdadeira Ana Bolena

Fallen in LoveAna Bolena já estava sendo acusada de algumas coisas quando, em 1536, Thomas Cromwell e os Seymour viram para onde o vento soprava, e decidiram tirá-la do caminho: Henrique VIII queria uma nova esposa e Jane Seymour estava à espera nos bastidores. Uma das acusações: Ana tinha crescido na corte francesa e foi dito que tinha ‘ares franceses’, uma acusação tão mortal na política quanto é agora. Havia rumores sobre o seu comportamento na corte francesa, mas é possível que as fofocas tenham se confundindo com a sua irmã, Maria. Segunda acusação: ela não era convencionalmente bonita, era sem peito, de pele morena e cabelos escuros; estava muito longe da mulher de pele clara, a ninfa de cabelos louros que estava tão na moda com os Tudors.  E, ainda sim, com seus ares estrangeiros e olhares não convencionais, havia algo sugestivo sobre ela a tal ponto que ela poderia deixar um homem atordoado apenas com o olhar. Tudo isso fez dela a tela perfeita para se projetar qualquer desejo, qualquer medo. Qualquer coisa vindo dela poderia ser acreditado – um terceiro mamilo, um sexto dedo, bruxaria, adultério, incesto. Perspicaz, de língua afiada e paquera, Ana fez uma roda de homens para ela, e cada um perderia a cabeça por ela. Henrique Norris, Francis Weston, William Brereton, Mark Smeaton, todos foram executados apenas alguns dias antes de Ana, todos acusados de terem conhecido carnalmente a rainha, e de traição contra o rei. Seu irmão também. Dizem que sua própria esposa o delatou. Continuar lendo

Como Henrique VIII foi influenciado pelas mulheres de sua vida

Todos sabemos que aos 10 anos de idade as crianças já mostram suas personalidades, embora eles possam ser moldados por eventos. Neste ponto de sua vida, Henrique estava em uma família que tinha ganhado o trono da Inglaterra pela força, ao invés de direito. Seus pais sentiam que sua nova monarquia era precária, pois ainda tinham inimigos que queriam derrubá-lo do trono. Apesar de que Henrique tenha sido protegido e mimado – embora não tanto quanto seu irmão mais velho e herdeiro, o Príncipe Arthur – ele pode ter sentido o desconforto de seus pais, sempre ameaçados em sua dinastia. Continuar lendo

A imagem de Ana Bolena poderia representar a Rainha Philippa de Hainault?

Quase todos os anos, surgem rumores de uma possível imagem de Ana Bolena em algum lugar. No ano passado, foi Ebay, e esse ano parece que pesquisaram mais fundo: essa semana, o historiador da arte Roland Hui publicou em seu blog um artigo sobre uma imagem de 1534, em que a imagem da Rainha Ana Bolena poderia ter sido usada para representar  Philippa de Hainault, esposa de Eduardo III.

Feito em 1534, o Black Book of the Garter é um dos grandes tesouros do Castelo de Windsor, e contém a história, regulamentos e cerimônias dos ilustres Cavaleiros da Ordem de Jarreteira, fundada pelo rei Eduardo IIII em 1348. O livro é atribuído ao artista flamengo Lucas Horenbout, ativo na corte inglesa entre 1520 e 1540. Continuar lendo