O gentil William Carey e suas representações na literatura ficcional


Ana Bolena não teria necessariamente passado muito tempo com o seu cunhado, William Carey, e ele morreu alguns anos antes do que pode ser chamado da parte ‘principal’ da história da esposa mais retratada de Henrique VIII. Como resultado, suas aparições ficcionais – com a exceção óbvias dos romances centrados em Maria – são geralmente centrados em torno de seu casamento (muitas vezes ligada com a sua tolerância com o caso de Maria com o rei) e sua morte. Quando ao seu comportamento, é representado em grande parte como ele provavelmente teria desejado: gracioso. Continuar lendo

Ficção, amor e o casamento na Era Tudor

casamento tudor

Sabemos que mulher medieval e renascentista era definida pelo seu estado civil: na adolescência, era uma virgem solteira até o momento que, quando adulta, entraria no estado matrimonial no qual ou ela ou morreria ou sobreviveria à viuvez. Assuntos comuns para a ficção história são a vida sexual dos cortesões reais: qualquer um que olhe para a vida sexual de alguém deste período inevitavelmente olha para seu eventual casamento, uma vez que poucas pessoas permaneciam solteiros naquela época. No entanto, o casamento que é mostrado na ficção história raramente representa o estado real do casamento da época. Esse artigo incide exclusivamente sobre o casamento dos cortesões reais e como eles foram retratados na ficção, e não o casamento como um estado geral em todos os estratos sociais do período Tudor (1485 – 1603).

Um típico casamento ficcional Tudor geralmente é mostrado como sendo opressivo e restritivo para a mulher – e legalmente e podemos ver que esse é o caso. Os homens medievais e renascentistas tinham, em teoria, o poder total sobre suas esposas. Com o casamento, o dote de uma mulher tornava-se propriedade de seu marido para que ele administrasse como bem entendesse. Se o marido morresse, ela iria resgatar essas terras (ou o equivalente que seu marido tinha vendido, trocado ou perdido) e esperava-se que ele tivesse cuidado deles esse tempo todo (caso contrário, ela ficaria sem nada). Ela viveria onde o marido escolheria para ela viver. Se seu comportamento ofendesse o marido, ele poderia optar por mandá-la embora para uma outra propriedade dele ou até mesmo colocá-la em um convento. A mulher poderia não ter nenhuma propriedade em seu próprio direito e estaria dependente de seu marido para ter sua renda, para suas roupas e a despesa geral da vida. Ele pagaria tudo que ela precisasse: efetivamente, se ele não quisesse pagar por sua comida ela não comeria. Se ele se recusasse a pagar por suas roupas ela poderia ficar sem nenhuma, e se ele parasse de pagar suas criadas, ela ficaria sem nenhuma. Um marido poderia bater em sua esposa e, consequentemente, fazer o que quiser com ela às quatro portas.

O casamento de Jane Grey e Guildford Dudley é mostrado no filme Lady Jane, de 1986, como o típico casamento Tudor.

O casamento de Jane Grey e Guildford Dudley é mostrado no filme Lady Jane, de 1986, como o típico casamento Tudor.

Com esse quadro bastante desolador do casamento não é de se admirar que a imagem mais comum que temos de uma mulher casada nesse tempo era uma imagem de opressão. E então não é de se surpreender que muitas heroínas ficcionais recusam a se casar e tentam afirmar sua independência ao se casar com um homem de sua escolha, porque ela nunca iria se sujeitar a uma vida tão restritiva por um homem que não amava.

No entanto, aceitar este ponto de vista como um fato mostra apenas o mínimo de pesquisa. Sim, um marido tinha o direito de todos os itens acima, mas isso não significa que todos os homens se tornavam tiranos e mantinham suas esposas em uma penúria constante após o casamento. Na verdade, o casamento era, como regra geral, uma parceria igualitária entre marido e mulher trabalhando juntos para ganhar mais status e posições para si mesmos e sua família.

Claro que como um público ocidental moderno nos solidarizamos instantaneamente com uma mulher prestes a se casar, uma vez que os casamentos Tudor eram em sua grande maioria arranjados. Quando a heroína ficcional expressa seu descontentamento com seu casamento iminente, ela é imediatamente forçada a uma situação que não quer. Nada é ajudado pela idéia comum de que se uma família quisesse casar sua parente mulher com um homem velho, eles o fariam. A adaptação televisiva de “The Other Boleyn Girl” mostra a tentativa da família Bolena em casar Maria Bolena com um homem velho e acima do peso. Mas só porque uma família poderia fazer isso não significa que eles fariam. A esmagadora maioria das famílias queriam noivos e noivas com idades semelhantes, ou pelo menos com uma idade razoável. Enquanto não era inédito para um homem idoso se casar com uma jovem mulher, isso não era uma norma e geralmente causava um escândalo, com uma simpatia pela mulher. Quando Charles Brandon, de 49 anos, se casou com uma jovem de 14, o arranjo foi considerado tão incomum que o embaixador espanhol incluiu a notícia em seus despachos como valendo mencionar “a novidade do caso”.

Era uma sabedoria convencional que parceiros de idade, status e riquezas aproximadas eram melhores paraum casamento: diferenças de idade eram consideradas imprudentes – um grande exemplo foi quando Louis XII, de 52 anos, se casou com Maria Tudor, de 18 anos. Ele morreu 3 meses depois e Maria logo se casou secretamente com Charles Brandon, de uma idade mais próxima da sua, embora de status e riquezas muito inferiores.

Além disso, era necessário o consentimento expresso dos noivos para um casamento ser válido – assim, era prática comum que os casais declarassem sua aceitação mútua durante o namoro. Mas para os ricos, esse podia ser um momento perigoso, uma vez que um consentimento por ambos já resultava em um contrato de casamento – o que poderia ocasionar em problemas caso um dos noivos se casasse posteriormente com outra pessoa, mesmo que o contrato verbal tivesse sido feito décadas atrás. Isso aconteceu com a rainha Ana de Cleves – seu casamento com Henrique VIII foi anulado, entre outros motivos, pelo seu noivado com o Duque de Lorraine.

A maioria dos casamentos era como os de Maria Bolena e William Carey, como mostrado no filme "A Outra" de 2008.

A maioria dos casamentos era como os de Maria Bolena e William Carey, como mostrado no filme “A Outra” de 2008.

A corte estava cheia de mulheres que faziam seus próprios casamentos contra os planos de sua família e do monarca. A princesa Margaret, a princesa Maria, ambas as irmãs Bolena, Maria Rainha da Escócia, Catarina Grey, Elizabeth Throckmorton, Elizabeth Vernon e Lettice Knollys são apenas apenas algumas das mulheres que fizeram os seus próprios casamentos. A própria avó de Henrique VII fora assim. O fato é que elas eram mais comuns do que a ficção nos quer fazer crer – embora ocorresse, é claro, coisas ruins quando um casamento secreto fosse descoberto, uma pequena proporção dessas mulheres eram obrigadas a abandonar o marido – grande parte das vezes porque, quando um casamento era descoberto, já havia sido consumado.

Um casal poderia muito bem contrair matrimônio secretamente e se considerar ‘homem e mulher diante de Deus’, mas um casamento na Igreja era necessário para satisfazer as expectativas dos amigos, da família e da comunidade. Acredita-se que quase 1/3 das noivas elisabetanas estavam grávidas quando se casaram na Igreja, apesar da proibição sobre relações sexuais. Além disso, durante a cerimônia, cada parceiro se comprometia a amar o outro, e o dever dos maridos em particular era enfatizado com citações das cartas de São Paulo.

O parentesco era tudo para as família renascentistas, e não apenas da Inglaterra. Os casamentos eram arranjados a fim de fortalecer os laços familiares e ganhar mais conexões que garantissem proteção e prosperidade para a família; e pais arranjavam os casamentos de seus filhos a fim de garantir o seu futuro – não é só as filhas que tinham o seu casamento arranjado, os filhos também eram casados sem terem chance de escolher suas parceiras. Como nota o historiador Jasper Ridley, as mulheres eram vistas como necessariamente subordinada aos homens, mas também tinham lugares de honra e importância na sociedade – principalmente se, em um casamento arranjado, o status da mulher fosse maior do que o do homem. Além disso, uma vez casados, embora as terras das mulheres se tornassem do seu marido, eram as mulheres que as administravam. Isso era mais presente na vida de ‘mulheres comuns’, que tomavam conta de suas casas, preparavam as refeições e compravam o que era necessário para o seu lar no mercado de suas vilas.

Em termos de administração doméstica – praticamente o único lugar em que todas as mulheres, de todos os níveis sociais, tinham superioridade ao homem – o marido é visto como assumindo um papel passivo. Se uma mulher vivia na corte e fosse dama de companhia da Rainha, era benéfico para um cortesão, uma vez que o salvava da despesa de ter que subordinar uma dama para lhe contar as informações que eram ditas dentro da corte e do círculo da Rainha. Para Sir Thomas Smith (1513 – 1577), escritor sobre o governo e a sociedade inglesa, a família não era uma monarquia, mas sim uma aristocracia, ‘onde alguns e os melhores governam, e onde nem sempre um – mas em algum momento e em alguma coisa um, e algum tempo e em alguma outra coisa ambos’. Correspondências familiares entre cortesões revelam a estreita parceria entre alguns maridos e esposas: em 1502, comprometido em uma luta para recuperar suas terras, Sir Robert Plumpton dependia de sua esposa Agnes para defender ua mansão e arrecadar dinheiro para ele – embora ele pedisse para que ele acabasse com essa questão. Ele se dirigiu a ela em uma carta como ‘coração querido’ e descrevendo a si mesmo como ‘seu próprio amante’. na década de 1540, John Johnson, comerciante, confiava que sua esposa Sabine gerenciasse seus negócios na Inglaterra enquanto ele estava em Calais trabalhando como comerciante de lã: eles assinavam suas cartas como ‘marido amoroso’ e ‘esposa amorosa’.

 O casamento de Maria Stuart e Francisco na série Reign.


O casamento de Maria Stuart e Francisco na série Reign.

É lógico que isso não quer dizer que todo casamento era um sucesso – mas mesmo para aqueles que eram infelizes, havia a chance de ir ao tribunal e pedir o divórcio por conta de abuso ou negligência, como Maria Talbot fez com o seu infeliz marido Henry Percy. O pai de Maria temeu que ela estivesse sendo abusada por seu marido, e Henry reagiu ao não deixar Maria se comunicar com sua família. Maria, por sua vez, foi para a casa de sua família e se recusou a ver seu marido, processando-o por divórcio. Embora ela não tenha tido sucesso – embora ele tenha morrido pouco depois – essa era uma possibilidade para as mulheres podiam fazer isso.

Acontece que grande parte da ficção história é baseada em torno de Catarina de Aragão, que mostra que os maridos estavam livres para tomar amantes enquanto suas esposas tinham que ‘fechar os olhos e suportar’. Embora uma rainha realmente tinha que ser virtuosa, algumas damas de companhia tomavam amantes – Anne Stafford, por exemplo, viveu em adultério aberto com William Compton por muitos anos até a sua morte. Apesar de suas imprecisões históricas, The Tudors mostra como muitas mulheres da corte mantinham relacionamentos com outros homens além de seus maridos.

A noção de que a sociedade Tudor era opressiva e patriarcal, onde esperava-se que as mulheres conhecessem seu lugar, diz muito mais sobre as atitudes do século XIX para as mulheres do que com os Tudor de fato. Grande parte das fontes para esses ‘mitos’ são de estatutos, atos de Estado e sermões religiosos, onde as mulheres eram retratadas como sujeitas à regra do pai, marido ou mestre – no entanto, essas fontes oficiais foram escritas de homens para homens, onde a voz das mulheres estão escondidas. No entanto, isso não quer dizer que a voz das mulheres está escondida nos registros históricos: como pudemos ver, através da literatura e de cartas podemos ver todo um universo Tudor que muitas vezes é desconhecido. Concluindo, a idéia deste artigo é mostrar que nem tudo no casamento Tudor era opressivo de forma que a ficção nos faz mostrar. Em teoria, os homens tinham controle completo sobre suas esposas; na prática, o casal via em si um parceiro para ajudar no avanço de suas ambições.

Bibliografia:
HOULBROOKE, Ralph. Love and marriage in Tudor England. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.
TONGE, Dave. Attitudes towards women in the Tudor period. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.
Fiction, Feminism and Marriage. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.

Quando Ana Bolena se casou com Henrique VIII?

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A mais famosa esposa de Henrique VIII, Ana Bolena, foi coroada em uma cerimônia magnífica cheia de propaganda política e extravagância real. No entanto, os detalhes de seu casamento são menos conhecidos e uma confusão considerável o rodeia.

A versão tradicional dos acontecimentos e muitas vezes repetidas em biografias e livros didáticos é que eles se casaram em 25 de Janeiro de 1533. De acordo com Nicholas Harpsfield, apologista católico escrevendo durante o reinado de Maria I, os únicos presentes no local eram: Henrique Norris e Thomas Henegage, amigos do rei; e Anne Savage, amiga de Ana. Um mês depois, Eustace Chapuys registrou que o casal se casou na presença apenas do pai, mãe, irmão e duas amigas íntimas de Ana Bolena. Continuar lendo

O Casamento de Henrique VIII e Ana de Cleves

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Ana de Cleves acordou cedo em 6 de Janeiro de 1540, permitindo ser ajudada por suas damas enquanto elas a preparavam para o dia mais importante da sua vida: o casamento com o rei da Inglaterra, Henrique VIII. Ana havia trago um magnífico enxoval de roupas e jóias com ela e, embora já tivesse usado muitas delas nos dias anteriores da cerimônia, ela guardara o melhor para o fim. Seus assistentes cuidadosamente vestiram-na com um rico vestido ao estilo holandês  ‘de tecido de ouro rico, bordado com flores e decorado com ‘grandes pérolas orientais’. O cabelo, longo e louro, estava solto e caía sob um diadema dourado, ‘preenchido por uma enorme pedra rodeada de ramos de rosmaninho’. Continuar lendo

Havia um relacionamento entre Jane Grey e Eduardo VI?

Jane Grey e o mendigo

Eduardo, contando agora com nove anos, era um bonito menino, de cabelos louros e sedosos. Não queria ficar noivo de uma criança, preferindo já que teria que escolher uma prima, casar-se com Lady Jane Grey, um ano mais velha que ele, embora bem mais baixa, e que o auxiliava sempre nas lições. Jane, por sua vez, achava-o mais indicado para uma de suas irmãzinhas… Jane era sobrinha-neta do rei Henrique, no mesmo parentesco que a filha da Rainha da Escóssia.

(IRWIN, pág. 41).

Em seu livro “A Alvorada do Amor de Elizabeth”,  Margaret Irwin cita um possível casamento entre Jane Grey e o príncipe Eduardo, dizendo até que ele mesmo a preferiria acima de suas outras parentes. O filme “Lady Jane”, de 1986, podemos ver uma relação quase íntima entre Jane Grey e Eduardo VI, pouco antes de seu casamento com Guildford Dudley, ou seja, em 1553; e o filme “Crossed Swords” de 1977 vai além a mostrar um relacionamento amoroso entre Jane Grey e Eduardo Tudor, mas que na realidade era um mendigo se passando por ele. Outras adaptações do livro “O Príncipe e o Mendigo” trazem Jane Grey e Eduardo como realmente próximos, mas como amigos, com Jane ajudando-o em suas lições.

No entanto, enquanto era vivo, Henrique VIII nunca expressou qualquer interesse em um potencial casamento entre Jane Grey e seu filho e único herdeiro Eduardo. Uma vez que ele, ao contrário de boatos, tinha uma boa saúde quando jovem, era mais do que provável, na visão de todos, que Eduardo fosse se casar e ter muitos filhos. Jane Grey era a quinta na linha de sucessão para a coroa, e embora os primos possam ter sido próximos devido à sua educação calvinista, é extremamente improvável que o filho do rei fosse se casar apenas com uma prima.

Acredita-se que os pais de Jane haviam passado sua tutela para Thomas Seymour para que ele pudesse tentar um casamento entre Jane e Eduardo. Sabe-se que Thomas invejava seu irmão Eduardo, que era Lorde Protetor do rei e tinha maior controle sobre ele. Talvez ele pensasse que, se conseguisse um casamento entre o rei e Jane, ele poderia ter mais controle sobre o rei, tendo consequentemente mais poder e riquezas. Existem dúvidas se  tal plano existiu, mas é fato que John ab Ulmis (também conhecido como John Ulmer, era um estudioso da Universidade de Oxford mantido pelo pai de Jane), escrevendo da  casa de Jane, Bradgate, em 29 de Maio de 1551, acreditava que Jane estava para “ser dada em casamento para a Majestade o Rei”. Infelizmente para a família de Jane, tal plano não deu certo pois ela acabou se casando com Guildford, filho de John Dudley, Duque de Northumberland.

Além do mais, não havia motivos para que Eduardo se casasse tão jovem, pois ninguém esperava que ele morresse cedo. Se casar com Jane Grey seria excluir a opção de fazer uma aliança externa mais prestigiada e favorável em algum momento mais tarde em sua vida. Se houve, em algum momento, a visão favorável de um casamento entre Jane e Eduardo com certeza foi quando ele já era Rei, mais possivelmente quando estava com 15 anos, uma idade que mesmo naquela época era considerada como muito cedo para se casar. Apesar disso, precisamos nos lembrar que a Inglaterra havia falhado na negociação de um casamento entre Eduardo e Maria Stuart, rainha da Escócia, quando esta ainda era bebê, e outros países católicos como a Espanha, a França, a Itália ou Portugal nunca iriam concordar que suas herdeiras se casassem com um rei protestante. O máximo que sobraria para Eduardo seria uma mulher da Alemanha, Saxônia ou Dinamarca; países conhecidamente protestantes. Ou seja, não havia, de fato, muitos casamentos estrangeiros fabulosos disponíveis para o jovem Eduardo.

Dessa forma, podemos pensar que havia um certo desespero para encontrar uma esposa protestante para um rei protestante que gerasse herdeiros protestantes. Ele, sem dúvida, poderia ter se casado com Jane Grey, mas entre uma prima e uma Duquesa ou Condessa estrangeira protestante, que poderia lhe dar uma aliança, mais terras e dinheiro, certamente a escolha seria para a mulher estrangeira.

Bibliografia:
IRWIN, Margaret. A Alvorada do Amor de Elizabeth. Tradução de Inah Ribeiro e Oliveira Ribeiro Neto. São Paulo: Editora do Brasil S/A.
Henry VIII’s interest in marriage potential of Jane Grey. Acesso em 8 de Junho de 2015.
Edward VI and Jane Grey. Acesso em 8 de Junho de 2015.

Ana de Cleves e seu compromisso matrimonial com o Duque de Lorena

Pouco antes do casamento de sua irmã com o rei Henrique VIII, em 1540, William, o novo Duque de Cleves e irmão de Ana de Cleves, contou sobre um pré-contrato de casamento de Ana, que no caso que teria sido dissolvido nas cortes eclesiais em ordem para facilitar o mais vantajoso casamento com o Rei da Inglaterra. O contrato teria sido feito em 1527, quando John, Duque de Cleves e pai de Ana, tinha assinado um contrato de casamento dela com Francisco de Lorraine. Após o Duque de Cleves e Antoine, Duque de Lorraine e pai de Francisco, terem selado um contrato com os arranjos, John pagou uma certa quantia a Charles de Guelders, o mediador do casamento, que tinha apontado Francisco de Lorraine, o futuro marido de Ana, como seu herdeiro. Cleves tinha, portanto, cumprido uma promessa que ele tinha feito no nome de sua filha. Nesse momento, os Duques de Lorraine, Juliers-Cleves e Guelders tinham assinado dois documentos: o primeiro, um contrato do casamento, que foi datado 5 de Julho, detalhava os direitos de herança de Sybilla, também filha de John, e seu marido, assim como os de Ana e Francisco; o segundo, feito oito dias depois, em 13 de Junho, continha a assinatura dos três duques, em um  acordo de amizade, na qual anexaram o contrato de casamento.

No entanto, apenas os Duques tinham confirmado e ratificado os contratos, deixando a possibilidade de outro casamento para o noivo e a noiva, uma vez que nenhum dos dois jovens, Francisco e Ana, fizeram nenhum tipo de juramento, obrigatório naquela época.

Em Outubro de 1539 o rei e seus ministros instruíram os embaixadores de Cleves a trazerem com eles cópias dos documentos que provassem que o casamento de Ana com o Duque de Lorraie tinha sido repudiado. Muitos questionamentos foram feitos para Cleves e Lorraine. Felizmente, nenhuma evidência ou pré-contrato foi encontrada e no fim de setembro Wotton, o enviado inglês em Cleves, pôde informar ao Rei que ele encontrou o Duque de Cleves e seu Conselho

‘felizes o suficiente para publicar e se manisfestar para o mundo que minha senhora Ana não é comprometida, nem tem sido e assim é livre em liberdade para se casar quando ela quiser’.

No entanto, no dia 7 de Julho de 1540, o clero, reunidos em assembléia, decidiram que o casamento de Ana de Cleves e Henrique VIII era inválido devido ao compromisso de Ana com Francisco. Apesar disso, os embaixadores de Cleves trataram o assunto de forma desdenhosa e ‘só verbalmente transformaram-no numa coisa banal, dizendo que aquilo fora feito quando eles [o jovem casal] eram menores e que nunca, depois disso, tivera qualquer efeito‘. A família de Lorraine foi questionada sobre o contrato, e eles pareciam ter perdido ou não sabiam nada sobre o assunto.

Não foi apresentada nenhuma dispensa do pré-contrato; e o máximo que os embaixadores alemães se dispuseram a fazer foi prometer cópias autênticas dos documentos necessários. No entanto, nada disso aconteceu. Os embaixadores só apresentaram uma declaração autenticada do chanceler Groghroff onde ele anunciava que os esponsais com Lorena estavam cancelados. Para o Conselho, os documentos providos pelos embaixadores de Cleves eram muito duvidosos, em parte porque foram selado na forma de um copo de cerveja. A dispensa nunca foi apresentada, tornando sua existência extremamente duvidosa. Em 9 de Julho de 1540, o casamento de Ana de Cleves e o rei da Inglaterra foi anulado.

‘É, portanto, um dos paradoxos da carreira marital de Henrique VIII o fato de que o casamento que ele celebrava com tamanha relutância pode ter sido autenticamente inválido desde o começo.’

(FRASER, 2010, pág. 411)

Bibliografia:
WARNICKE, Retha M. ‘The Marrying of Anne of Cleves: Royal Protocol in Early Modern England’. United Kingdom: Cambridge University Press, 2000.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva – 2º Edição – Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
NORTON, Elizabeth. ‘Anne of Cleves, A Flanders Mare: Part 2‘. Acesso em 18 de Fevereiro de 2014.
Book Review: Anne of Cleves: Henry VIII’s Discarded Bride by Elizabeth Norton‘. Acesso em 18 de Fevereiro de 2014.