A Rebelião de Wyatt

Thomas WyattO medo da Inglaterra tornar-se Católica combinado com o casamento proposto entre Maria e Filipe da Espanha levou á Rebelião Wyatt em 1554. O nome veio de Sir Thomas Wyatt, o Moço, filho do poeta Sir Thomas Wyatt, que amava Ana Bolena e perdera-a para o rei, mas conseguira sobreviver à sua queda. O filho era um valente comandante militar, mas homem estouvado e impetuoso. Foi chamado para se juntar a rebelião por Edward Courtenay, conde de Devonshire, que esperava casar-se com Elizabeth no bem-sucedido desfecho de seu golpe, Wyatt aceitou de bom grado. Esta foi uma rebelião liderada por nobres, e incluiu também Sir Peter Carew de Devon, Sir James Croft de Herefordshire e do Duque de Suffolk de Leicestershire. No entanto, a rebelião não teve o apoio popular das pessoas em todo o país e assim foi condenada ao fracasso.

Havia aqueles que se opunham ao catolicismo na Inglaterra e que temiam o retorno da autoridade papal na Inglaterra e no País de Gales. Estes homens estavam igualmente alarmados como o casamento de Maria com Filipe, e temiam que isso poderia levar a Espanha a ter uma influência indevida sobre a política inglesa. A França, que não podia tolerar um rei Habsburgo da Inglaterra, também estava temerosa. Com o Sacro Império Romano a leste e com Habsburgo Espanhol nas fronteiras sudoeste, a última coisa que a França queria era uma extensão da influência Habsburgo através do Canal.

Filipe e Maria

Após sua coroação em 1 de outubro de 1553, Maria rapidamente colocou homens católicos em posições superiores, inclusive aumentando o número de pessoas no Conselho Privado para 43. O Conselho era o órgão mais importante no governo e os nobres que participavam dele tinham fácil acesso à Rainha. Embora o plano envolvesse muitos ‘se’ e ‘mas’, era para ter sucesso. Os nobres conspiradores planejavam remover Maria e colocar Elizabeth como rainha, além de casá-la com Edward Courtenay – um homem que Maria já havia rejeitado como marido. O plano era que três rebeliões ocorreriam em partes distintas do país e ao mesmo tempo, em Midlands, a região oeste e Kent. Acontecendo ao mesmo tempo, supostamente o governo não teria como saber quem começou primeiro e cada rebelião teria como resultado mais adeptos, em decorrência das localidades escolhidas. A Marinha Francesa ajudaria bloqueando o Canal Inglês com 80 navios, para que os Habsburgos não pudessem ajudar Maria.

O plano falhou miseravelmente. O Embaixador Imperial, Simon Renard, ouviu rumores sobre a existência da conspiração e informou o Lorde Chanceler, Stephen Gardner, que trouxe Courtenay para um interrogatório. Courtenay não era um homem muito forte e contou tudo o que sabia sobre o plano para o governo.As revoltas no Midland e na região oeste foram um fracasso. Parece que, embora houvesse preocupação com Maria se casar com um estrangeiro, a lealdade à rainha teve precedência. Aqueles no oeste não queriam cometer traição (Suffolk só conseguiu 140 homens), e muitos no ocidente eram católicos.

Edward Courteney

Wyatt conseguiu levantar um exército de 4000 homens e sua proximidade a Londres preocupou muito o governo local. A força liderada pelo Duque de Norfolk juntou-se ao de Wyatt, mas o exército entrou em colapso quando uma proclamação foi emitida do governo dizendo que haveria perdão para qualquer um que abandonasse a rebelião dentro de 24 horas e voltassem pacificamente pra suas casas. Isso acarretou em um atraso para Wyatt, que deu tempo a cidade para organizar suas defesas. As tentativas de atravessar o rio Tamisa perto da Torre foram frustadas quando as pontes foram deliberadamente danificadas para impedir o acesso.

Wyatt tentou manter a moral de seus seguidores, anunciando diariamente que esperava soldados da França e circulando relatórios falsos de que as rebeliões do outro lado do país estavam dando certo. A maré virou temporariamente a seu favor quando o Duque de Norfolk foi para Londres junto de Sir Henry Jerningham com 500 homens contra o exército de Wyatt, mas a força do governo era inferior e muitos lá estavam a favor dos rebeldes. Logo muitos trocaram de lado, e se juntaram ao exército de Wyatt. Norfolk e suas forças restantes fugiram deixando armas e tesouros.

Wyatt entrou em Sourthwark, mas seus seguidores ficaram alarmados com os relatórios da atividade do governo: no dia anterior, 1 fevereiro, Wyatt foi declarado um traidor, e no dia seguinte mais de 20 mil homens estavam prontos para proteger a cidade. Em 3 de fevereiro, uma recompensa no valor £ 100 seria dada anualmente a pessoa que capturasse Wyatt.

O exército de Wyatt marchou para sudoeste de Londres, e atravessou o rio Tamisa lá. Ele marchou com seus homens e foi para a cidade, onde ele tinha planejando entrar via Ludgate. No entanto, o portão estava fortificado e para chegar até ele os rebeldes tiveram que subir por suas estreitas, onde eles foram presos pelos londrinos armados leias a Maria. Encarcerado na Torre e interrogado sob tortura, Thomas Wyatt recusou-se a envolver Elizabeth na conspiração, insistindo em que apenas “lhe enviara uma carta na qual dizia que ela devia afastar-se o máximo possível da cidade, o melhor para sua segurança contra estranhos”. Quanto a ele, jurou que não queria a morte da rainha, mas fora motivado por seu patriotismo: “Toda a minha intenção e agitação era contra a vinda de estrangeiros e espanhóis, e para aboli-los deste rainado”. Mas nem as fortes negações de Wyatt conseguiram salvar Elizabeth.

A execução de Jane GreyAs condições na Torre estavam ainda piores do que o de costume para os prisioneiros, uma vez que cada membro da família Grey e Dudley estavam presos esperando a pena de morte. Cramner, Ridley e Latimer tiveram que partilhar a mesma cela, e o Duque de Suffolk, Sir James Croft, Sir Henry Isley, Sir Gawen Carew, dois Culpeppers, Cromer e Thomas Rampton também foram presos.

Na eclosão da rebelião de Wyatt em fevereiro de 1554, Maria convocou-a de Ashridge, onde ela vivia em Hertforshire, a Londres, mas Elizabeth teve uma verdadeira desculpa para não obedecer de imediato. Assim que Wyatt foi preso, contudo, as convocações passaram a ser mais energéticas. Em 11 de fevereiro, chegaram três lordes aos seus portões, com ordens de levá-la imediatamente para Londres, um deles William Howard, parente dos Bolena. O pedido se fazia mais obrigatório pela presença na comitiva de 250 homens a cavalo.

Elizabeth foi interrogada e estava sob o perigo de ser executada, mas conseguiu ser poupada graças a suas respostas evasivas e inteligentes. Ela foi presa em 18 de março na Torre de Londres, e protestava fervorosamente que era inocente. O confidente de Maria, embaixador de Carlos V, Simon Renard, argumentou que o trono nunca estaria a salvo enquanto Elizabeth vivesse, e o chanceler, Stephen Gardiner, fez com que Elizabeth fosse levada em julgamento. Partidários de Elizabeth, incluindo Lord Paget, tentavam convencer Maria na inocência de sua irmã, na ausência de provas contra ela. Em 22 de maio Elizabeth foi movida da Torre para Woodstock, onde ela ficaria quase um ano em prisão domiciliar sob os cuidados de Sir Henry Bedingfieldd. Embora nada pudesse ser provado, o quão Elizabeth estava envolvida na rebelião tem sido questionado por muitos estudiosos modernos.

Princesa Elizabeth

Embora Gardiner e o Embaixador Imperior Simon Renard insistisse que a rainha não deveria mostrar piedade, dando a sentença de morte para todos os rebeles, o Conselho pediu clemência a Maria pelos rebeldes, dizendo que isso demonstraria sua verdadeira natureza cristã. Foi-lhe dito que isto elevaria seu status ainda mais aos olhos do povo. Apenas dois dos líderes foram executados por traição: Wyatt e o Duque de Suffolk. Depois de ter sido severamente torturado, Wyatt foi executado em Tower Hill, em 11 de abril de 1554, em uma execução pública. Ele foi autorizado a fazer um discurso, onde ele corajosamente assumiu a responsabilidade pela rebelião, afirmou a inocência de Elizabeth e defendeu Edward Courtenay. Ele tinha 33 anos, após ter sido decapitado seu corpo foi esquartejado como traidor. O corpo foi pendurado em várias partes de Londres – Newington, Mile End Green, Igreja de St. George e Sourthwark. Em 17 de abril sua cabeça foi roubada e nunca mais foi vista, assim como a cabeça de Sir THomas More, muitos anos antes.

Outros nobres também foram executados, mas alguns, mesmo culpados de traição, foram poupados. No total, cerca de 90 rebeldes foram enforcados, arrastados e esquartejados, seus corpos foram pendurados nas portas da cidade. Courtenay foi exilado e morreu em Pádua. Muitas das pessoas comuns que se juntaram ao exército foram poupados. Duas outras vítimas foram Lady Jane Grey e seu marido Guildford Dudley. Ambos estavam presos desde a fracassada tentativa de colocar Jane no trono, e eles nada tinham a ver com a Rebelião de Wyatt. Maria, no entanto, não teve escolha pois não poderia correr mais riscos, e Jane foi executada.

A rebelião foi desastrosa para a família Wyatt, eles perderam os títulos e terras, incluindo a casa da família, o Castelo Allington. No entanto, quando Elizabeth subiu ao trono em 1558, ela restaurou todos os títulos e bens da família.

Bibliografia:
The Wyatt Rebellion‘. Acesso em 5 de Novembro de 2012.
The Wyatt Rebellion of 1554‘. Acesso em 5 de Novembro de 2012.
Elizabeth I of England‘. Acesso em 5 de Novembro de 2012.
Wyatt’s Rebelion‘. Acesso em 5 de Novembro de 2012.
Wyatt Rebelion‘. Acesso em 5 de Novembro de 2012.
DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto – Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

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Diário, 13 de Maio de 1536

ecuperei a lucidez, mas o mundo que vejo em meu redor é um local tão aterrador que me sinto tentada a regressar à loucura. Prenderam George, meu irmão, acusando-o de ser meu amante. Nós, incestuosos! Espanta-me tanto empenho da parte de Henrique, apenas para possuir essa mulher vulgar. Francis Weston e William Brereton são também acusados do mesmo delito e reuniram-se a Mark Smeaton e a Henry Norris na Torre. Até mesmo Thomas Wyatt e Richard Page foram presos por essa razão. Meu Deus, não posso permitir que estes bons homens estejam a sofrer pela loucura que foi a minha vida. A toda a hora suplico às minhas carcereiras que me informem sobre o meu destino, mas estas limitam-se a contar os mexericos que sabem me vão fazer sofrer. Dizem-me que, todas as noites, Henrique se desloca de barcaça à residência dos Carews, onde se aloja a senhora Seymour para aí se divertir e aguardar o meu julgamento e condenação à morte.
Roguei a lorde Kingston que leve as minhas cartas ao rei e ao secretário Cromwell, mas o alcaide recusa-se, dizendo que apenas poderá transmitir recados orais a partir da Torre. Sei que é fiel à princesa Maria, como anteriormente o foi a Catarina, de modo que não me conferirá favores que possam reabilitar-me. Tenho de encontrar um modo de comunicação com os meus acusadores, para que saibam que não me considerarei culpada desses delitos, nem de outros, provenientes de mentiras ou de corrupção e dizer-lhes também que nenhum homem honesto poderá declarar contra mim.
Nunca mais recebi uma palavra de meu pai ou tive notícias dele e não sei se foi igualmente acusado de crimes de traição e se encontra detido. Nem imagino se será um dos que me acusam. Com a desgraça que caiu sobre a cabeça da filha e do filho, qualquer homem se sentiria desanimado e morreria de vergonha. Não obstante, suspeito que meu pai, se não está implicado, já arranjou maneira de usar a nossa queda em seu proveito.
O pouco consolo que aqui encontro devo-o à sobrinha de lorde Kingston, a senhora Sommerville que veio integrar o número das minhas carcereiras. Esta senhora já não é muito jovem, nem é bonita, mas tem uns olhos calmos que parecem sossegar tudo em seu redor. Para irritação de seu tio e das outras senhoras trata-me com a delicadeza devida à rainha que ainda sou. Dou por mim a desejar os poucos momentos em que estamos sós, para falar com ela com sinceridade e sem receios e nessas ocasiões posso escrever-vos. Embora não me dê falsas esperanças acerca da minha libertação ou que seja ilibada das acusações que me fazem, oferece-me a esperança da felicidade no paraíso, para o caso de vir a morrer, pois jura não conhecer mulher melhor do que eu. Consola-me ainda de outras formas – lê-me as Escrituras, deixa-me falar da minha Elizabeth e conta-me histórias dos seus filhos. E, Diário, escova-me o cabelo, com todo o prazer. Esta pequena atenção faz-me por vezes chorar, pois fá-lo com toda a ternura, como dantes Henrique costumava pentear-me.
Já pensei em pedir à senhora Sommerville que me ajude a enviar as cartas para fora da Torre, mas não tive coragem. Acredito que não quereria recusar e um tal acto poderia pôr a sua vida em risco, por minha causa. Até os meus pedidos para me confessar ao arcebispo Cranmer têm sido cruelmente ignorados. Por vezes receio não voltar a ver um rosto bondoso e familiar.

Afetuosamente,
Ana

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Diário, 9 de Abril de 1536

or um breve tempo julguei que, mais uma vez, tudo estava bem. O embaixador Chapuys trouxe uma mensagem do Imperador. Nela mostrava interesse em negociar um tratado comigo e com Henrique, agora que a morte de Catarina retirara um enorme obstáculo do nosso caminho para uma possível aliança. Agradou-me que desejasse falar também comigo, pois mostrava o respeito que Carlos tinha por mim como rainha. Este plano espanhol agradou de sobremaneira ao secretário Cromwell, que ultimamente considerava os franceses aliados fracos e de pouca confiança. Ainda para mais,julgo que se preocupava que um dia a Inglaterra pudesse ver-se sozinha contra Espanha e França. Assim, marcou-se uma ronda de conversações e festejos em honra de Chapuys.
Henrique não tomou qualquer medida para me excluir destes planos, de modo que fiz grandes preparativos para um jantar privado, após a missa a que assistiriam os grandes nobres do reino e Chapuys como convidado de honra, na esperança que algumas questões importantes pudessem ser resolvidas à minha mesa. Correu tudo bem durante a missa em que o arcebispo Cranmer pronunciou um sermão de marcado conteúdo político e em que o embaixador correspondeu, complacente, aos meus sorrisos. Porém, quando chegou o momento de Chapuys se dirigir aos meus aposentos, Henrique requereu a sua presença e a dos membros do seu Conselho Privado e deixou-me a presidir a uma festa vazia, cujo prato principal foi a minha humilhação.
Afinal, o rei nunca aceitou os termos de Chapuys, pois este exigia em primeiro lugar que Henrique se submetesse ao Papa e em segundo que legitimasse a sua bastarda Maria. Cromwell, furioso por ver destruídos os seus próprios planos, retirou-se indisposto e há cinco dias que se recolheu ao leito na sua residência. Receio que o seu desconforto seja a minha única consolação em todo este assunto.
Henrique pouco amor demonstra por Elizabeth e nem se incomoda em fingir qualquer consideração por mim. Julgo que os meus dias na corte estejam contados e várias das minhas aias atreveram-se a falar-me de conventos distantes, onde uma rainha deposta pode encontrar abrigo.
Ultimamente pouco há que me console. Apenas a doce música de Mark Smeaton e as graças de Niniane são bálsamo para a minha alma ferida.
Rodeiam-me ainda alguns amigos fiéis: Thomas Wyatt, Henry Norris, Francis Weston. Bem sei que lisonjas e galanteios não têm ardor romântico – já não sou bela – mas são sim a expressão de uma corajosa constância e do amor cortês. Esta bondosa atenção fez-me sentir por eles uma apaixonada e profunda afeição, mais do que a que senti por Percy ou Henrique e mais rara que a que devoto a Elizabeth, pois esta está ligada a mim por um vínculo de sangue. A amizade é a mais bela flor, a dádiva de um coração abnegado a outro. Sempre me sentirei grata por isso.
Pouco afeto sinto pela maioria das mulheres, pois sempre me detestaram e desconfiaram de mim, mas Margaret Lee é mais do que minha irmã Maria. Como me amima! É Dama do Corpo da Rainha e é seu dever cuidar de mim, mas sei que se esmera a escolher as roupas que devo usar por mais me favorecerem – cor, estilo e corte que melhor me fiquem. Arranja-me os vestidos, aquece-me as mãos e os pés, massaja-me as têmporas quando me dói a cabeça, tudo com tal ternura que por vezes me comove.
E o meu doce George. Nenhuma mulher teve alguma vez um irmão melhor. Partilhamos recordações das nossas vidas desde que éramos crianças. Continua a troçar de mim e quando rimos juntos, todos os cuidados e desgostos do presente desaparecem como que por magia. Fecho os olhos e vejo-o, subir a escada de caracol para ir ao meu quarto em Hever Castle onde, em surdina, as nossas vozes infantis planeavam grandes guerras e tolas brincadeiras.
Lembro-me de um Outono que passamos em Edenbridge. Um dia fez uma coroa de flores, colocou-a na cabeça e nomeou-me Rainha das Folhas. “Ajoelhai pois sou a vossa soberana!” exclamava eu, imponente, enquanto, em meu redor, caíam milhares de folhas vermelhas, douradas e alaranjadas. “Poderosa Majestade” exclamava George “vede como vossos súditos se curvam perante vós!” Depois soltávamos enormes gargalhadas até o ventre nos doer. Já fui Rainha de Inglaterra. Agora sou apenas a Rainha das Folhas.

Afetuosamente,
Ana

Diário, 28 de Outubro de 1532

ontinuamos em Calais. Chove e o vento sopra forte. É impossível fazermos a travessia para Inglaterra. Desde que escrevi pela última vez, muitas coisas aconteceram no que diz respeito a circunstâncias e sentimentos. Durante a ausência de Henrique que fora buscar o rei francês esperei, tentando não desesperar, recuperar as forças com os meus amigos e família. George e Maria, felizes por se encontrarem de novo em França, organizaram um piquenique na praia num dia ventoso. Thomas Wyatt, amigo fiel em todos os momentos, ainda me presta respeitosas homenagens e escreveu-me uns versos para a ocasião, falando da sua paixão nunca correspondida e finalmente apagada. Diziam assim:

Por vezes sinto um fogo arder em mim
No mar, na água em terra, até no vento
Sigo então o braseiro até ao fim
De Dover p’ra Calais, onde perde o alento

Uma fria tarde, sentei-me com Thomas junto à lareira e passamos o dia em calmas reminiscências. Passaram dez anos desde o meu regresso da corte francesa, quando me ofereceu o diário. Perguntou-me se costumava escrever nele e respondi-lhe que fazia alguns versos, anotava várias recordações e pouco mais. Embora Thomas Wyatt seja um amigo sincero, sinto escrúpulos em falar das minhas confidências a este livro.
Os reis chegaram com toda a pompa e circunstância, no dia anterior ao do meu prometido casamento porém eu, por razões de dignidade e protocolo, ausentei-me. Henrique veio cumprimentar-me em privado assim que chegou. Nem ele, nem eu falamos do seu triste fracasso na véspera da partida, pois trazia graves novidades. Ao quarto dia da viagem, em Bolonha, o rei retirou o seu apoio ao nosso casamento. Tinham chegado notícias da Áustria, onde as tropas de Carlos haviam derrotado os inimigos turcos. A estrondosa vitória do sobrinho de Catarina deixara os homens ansiosos por um novo campo de batalha e Francisco receava que, se desse agora a sua bênção ao nosso casamento, o imperador – magoado e vexado – lançasse o seu exército contra a França.
Não soube o que dizer. Pareceu-me um cruel insulto ao nosso casamento, um obstáculo desagradável e o final de uma longa estrada. Porém, naquele dia sentia-me um poço de calma e razão. Pela primeira vez vi que aquelas circunstâncias nada tinham de pessoal e eram simples factos políticos próprios de reis e papas. Sentia-me Rainha, portanto agi como tal, e em vez de gritos e lágrimas, ofereci a Henrique uma possível solução. Disse-lhe:
– Meu amor, não falamos já, de como seria melhor realizarmos o nosso casamento em solo inglês? Os súditos que não me apreciam adorariam poder considerar o nosso casamento falso e ilegítimo. Juro-vos que aguardarei de bom grado um enlace nas familiares costas da nossa Inglaterra.
Henrique manteve-se em silêncio e pareceu digerir estas idéias como se se tratassem de uma opípara refeição. Nesse momento, soou uma pancada na porta. Era o Superintendente de Paris, em pessoa. Viera a mando de Francisco com um presente para mim – um diamante enorme e luminoso numa caixa de veludo púrpura. Depois da partida do Superintendente e com a pedra preciosa (que Henrique calculou valer cerca de quinze mil coroas) cintilando entre nós, o dia pareceu-me muito mais alegre. Concordamos que, se desejávamos que Francisco continuasse nosso aliado, precisava de mais atenções e eu seria a pessoa indicada para lhas dispensar. Depois, Henrique voltou-se para mim, pousou as mãos sobre os meus ombros e olhou-me nos olhos. Parecia querer falar, abriu os lábios mas as palavras não lhe saíram. Deixou cair as mãos e afastou-se com o pretexto de ter outros assuntos a tratar. Senti que, se as tivesse pronunciado, teriam comentado a atitude real que eu ultimamente tomara, para seu grande orgulho.
Era pois o momento de fazer planos para o meu encontro com Francisco. Sabia que teria de ser esplêndido, uma ocasião maravilhosa. Seria necessário fornecer-lhe um ambiente faustoso – a melhor música, o vinho mais doce, os mais deliciosos manjares, a melhor decoração, as roupas mais elegantes que imaginar se possa. Tudo isto e até mais poderia eu oferecer-lhe, pois, com a nossa hospitalidade, teríamos de dizer a Francisco que não estávamos zangados, nem lhe guardávamos rancor por nos ter retirado o apoio e que, para ele, seria interessante que, embora tendo-nos publicamente voltado as costas, continuasse a ser um amigo bom e fiel.
Na noite em que se teria celebrado o nosso casamento, Henrique e o rei Francisco jantaram juntos na associação dos comerciantes que eu decorara com enorme zelo. Mesas e armários, ornamentados com a baixela de ouro pertencente a Henrique. As paredes cobertas com preciosas tapeçarias e todos os cantos iluminados por velas em candelabros de ouro e pedrarias. Músicos exímios, vindos de Paris, executavam as mais modernas composições e quando os dois grandes reis estavam repletos de comida e bebida, todas as portas se abriram para por elas entrarem, numa onda de luz, oito damas mascaradas dançando ao som de uma bela melodia. As vestes, exoticamente desenhadas eram de gaze, tecido de prata e cetim carmesim, debruado a ouro. Todas as damas misteriosas escolheram um convidado francês para dançar. Um deles foi Francisco, que estava espantoso no seu traje cor de púrpura, com um colar de diamantes, pérolas e esmeraldas maiores que ovos de pata. Depois, a um sinal, todas as damas baixaram as máscaras, revelando o rosto. Era eu o par do rei francês.
Os seus olhos iluminaram-se de alegria e surpresa. Via que admirara a minha audaciosa entrada e aquela ideia inteligente. Saltamos e rodopiamos e vi que Henrique nos olhava satisfeito do seu lugar porque o rei de França rendia homenagem à sua amada. Mais tarde, numa conversa privada com Francisco, falamos de muitas coisas. Recordações dos meus anos na corte, muita lisonja de ambas as partes e palavras graves que tocaram ao de leve assuntos de Estado. Ele pediu perdão (imagine-se) por ter discordado publicamente com o nosso casamento e deu-me explicações, que aceitei com real graciosidade. Em lugar do apoio público, ofereceu-me deliciosas intrigas para, com o auxílio dos cardeais franceses de Tournon e Grammont, conseguir que o Papa demorasse o seu julgamento final acerca do divórcio que parece favorecer Catarina.
A noite esteve esplêndida e foi um êxito. Henrique não cabia em si de júbilo. Tentei aproveitar-me do seu bom humor e, quando nos retirámos, já tarde, nessa noite, atirei-me de livre vontade nos seus braços e fui recebida com grande entusiasmo. Foi maravilhosa aquela união imprevista, brusca e terna, dolorosa mas doce. O meu corpo e as minhas entranhas receberam Henrique Rex que me mostrou o seu mais apaixonado afeto. A noite fez-se dia, mas nunca nos afastamos do leito real. Depois começaram as tempestades, tornando impossível a nossa travessia para Inglaterra.
Ficamos satisfeitos. As refeições eram-nos servidas à porta do quarto. Durante três noites e três dias não vimos ninguém. Rimos, cantamos, tocamos duetos, comemos, bebemos, tomamos banho juntos diante da lareira e fizemos planos e amor. Finalmente, há duas horas, Henrique vestiu-se, dizendo que o melhor seria tratar dos preparativos para a nossa travessia, pois o temporal estava a amainar. Beijou-me com um sorriso. Nunca o tinha visto tão satisfeito. Depois, deixou-me aqui sozinha e… é por isso que estou a escrever.
Os meus receios quase desapareceram. O meu casamento parece assegurado e, se há um Deus no Céu, em breve surgirá um fruto destes dias de sensualidade. Vejo diante de mim um futuro sem nuvens, pois o amor abençoa esta união e como um farol, iluminará para sempre o nosso caminho.

Afetuosamente,
Ana

Ana Bolena e Thomas Wyatt

Thomas Wyatt O nome de Wyatt foi combinado com o de Ana por um longo tempo, mesmo antes de o rei Henrique VIII começar a correr atrás dela. A relação entre a futura rainha e o poeta da corte não é totalmente clara, porque nós não sabemos se Ana teve sentimentos por Thomas, e o que eles realmente fizeram.

Thomas Wyatt nasceu provavelmente no ano de 1503 no castelo de Allington, cerca de 30 quilômetros de Hever Castle, onde morava a família Bolena. O pai de Thomas, Henrique Wyatt, gozava de privilégios na corte real. Era um membro do Conselho Privado e conselheiro de confiança do antigo reinado de Henrique VII. Uma vez concluído o ensino da Universidade de Cambridge, os jovens filhos de Wyatt foram introduzidos à Corte. Muitas vezes ele foi nomeado embaixador e, portanto, viajou pela Europa. Enquanto a poesia de Wyatt não foi publicada em sua vida – o primeiro volume de seus poemas foi publicado 15 anos após sua morte – ele teve uma enorme influência sobre a poesia inglesa.

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A verdade por trás do erro: Filme Elizabeth [1998]

Dirigido por Shekhar Kapur, Elizabeth, filme de 1998, é considerado pela crítica especializada como o maior épico já feito sobre a vida da monarca, que governou a Inglaterra entre 1558 e 1603. Vencedor do Globo de Ouro de melhor atriz para Cate Blanchett e indicado a outras seis categorias do Oscar, o longa aborda os primeiros anos do reinado da filha de Henrique VIII com Ana Bolena e sua luta para permanecer no trono inglês. É uma excelente produção, pois cria asas à imaginação do público sobre o possível relacionamento entre a jovem Elizabeth e Lorde Robert Dudley, além de estabelecer um parâmetro entre as ameaças de invasão impostas pela Espanha e França e as tramóias de Thomas Howard, IV Duque de Norfolk, para usurpar a coroa e assassinar sua prima. Entretanto, como de costume em diversos filmes que abordam temas históricos, Elizabeth não escapa à recíproca e transparece ao grande público alguns erros que merecem ser levados em consideração.

O primeiro deles consiste na cronológica sucessão ao título de Duque de Norfolk pelos membros da família Howard: na cena em que a Rainha Maria I convoca uma sessão particular em sua câmara para saber notícias acerca da rebelião contra sua autoridade, ela transparece seus agradecimentos a um jovem pelo qual ela chamou de Norfolk. Porém, a figura do Duque ali presente deveria ser a de um homem com cerca de 80 anos de idade, haja vista que foi o tio de Ana Bolena quem liderou o combate. O jovem presente no quarto possivelmente era o neto de Thomas, que ascendeu ao título pouco depois da morte de seu avô (sim, avô e neto compartilhavam o mesmo nome). Foi o III Duque de Norfolk e não o seu neto, quem providenciou a prisão de Elizabeth, sob acusação de que ela estaria aliada com Thomas Wyatt no processo de rebelião contra a Rainha.

Mais adiante, o espectador tem um vislumbre da romântica vida de Elizabeth em Hatfield até deparar-se com a figura de uma jovem aia correndo pelos campos para alertar à sua senhora de que esta fora acusada de ser a instigadora da guerra civil e que naquele instante uma comitiva, sob liderança do Conde Sussex, estava a caminho com uma ordem de prisão. A mulher em questão se trata de Catherine Champernowne, mais conhecida pelo seu nome de casada, Kat Ashley, interpretada no filme por Emily Mortimer. Kat cuidou da Princesa Elizabeth desde 1537 e tornar-se-ia uma de suas melhores amigas até 1565, ano de sua morte. Porém, a “Kat” do filme Elizabeth apresenta-se muito mais jovem do que deveria ser, como se fosse da mesma idade que sua senhora, desconsiderando o fato de que a verdadeira Catherine Champernowne era no mínimo 20 anos mais velha que Elizabeth.

No desenrolar da trama, uma sucessão de acontecimentos e personagens ganha vida, como a alegórica coroação de Elizabeth, feita de forma a referenciar o famoso quadro em que a nova Rainha traja um vestido amarelo ouro e ostenta em sua cabeça a coroa de Santo Eduardo e em suas mãos os dois cetros da soberana. Foi simplesmente perfeita, era como se a Elizabeth da pintura saltasse para o filme e mostrasse ao público toda a força de sua majestade. Mais em seguida um novo equívoco ganha destaque: o embaixador francês notifica a Elizabeth a proposta de matrimônio do Duque D’Anjou, quando na verdade o primeiro pretendente da Rainha fora o Arquiduque Carlos da Áustria. A Proposta de casamento com o Duque francês só veio a calhar quando as relações da Inglaterra com a casa de Habsburgo se deterioraram em 1568 e o filme Elizabeth compreende apenas cinco anos do reinado da mesma.

Ainda no que se refere a datas, outro aspecto confunde a cabeça do telespectador: o filme se passa em 1554, como é mostrado no começo da trama, mas a coroação de Elizabeth só ocorreu em janeiro de 1559. Isso mostra como as cenas avançam de forma rápida, com pouco ou quase nenhum esclarecimento sobre a cronologia subsequente. A cena que se segue à festa dada em homenagem à nova Rainha, mostrando uma relação sexual entre Elizabeth e seu amigo de Infância Robert Dudley é outro embaraço, pois não há como ter absoluta certeza de que os dois mantinham essa intimidade, apesar do falatório real que confirmava esse ponto de vista. Não é impossível que os dois tenham trocado alguns beijos e carícias, mais até aí nunca se poderá saber se houve de fato a cópula carnal. O mais provável é que ambos mantinham uma relação de amor cortês, bastante comum àquele período.

No tocante ao atrito entre Elizabeth e Marie de Guise, o filme acentua que a mãe de Mary Stuart só iria cessar a investida francesa contra a Inglaterra se a Rainha aceitasse o cortejo de seu sobrinho, o Duque D’Anjou. Isso por si só já é uma grande invenção, pois Marie morreu em 1560. Elizabeth e Henry D’Anjou só se conheceram apenas em 1568 (Elizabeth ainda desposaria o irmão do duque, Francisco D’ Anjou, em 1572). Também não há como provar de que estava envolvida no provável assassinato da viúva de Jaime V, como o filme induz a acreditar. Nesse processo Francis Walsinghan, que havia voltado da França quando da coroação de Elizabeth, ganhara destaque, mas sua participação nesse caso não condiz com os registros históricos. Ele fora nomeado por Lorde Willian Cecil para integrar a Câmara dos Comuns, representando a cidade de Banbury e com o passar dos anos, se tornou o principal conselheiro de Elizabeth.

Sobre Willian Cecil, consagrado I Barão de Burghley, não é verossímil o fato de que a Rainha o afastou do conselho para tomar suas próprias decisões políticas. Muito pelo contrário. Até a Morte de Burghley, em 1598, ele havia sido nomeado duas vezes Secretário de Estado e Tesoureiro em 1572. Também é infundada a tese de que Willian teria informado a Elizabeth do casamento de Robert com Amy Dudley. Ora, vejam só que grandiosa invenção. Elizabeth sempre soube que Robert era casado e conviveu com isso desde então. O início das hostilidades entre os dois deveu-se à suspeita de que Lorde Robert teria assassinado sua mulher para ficar com Elizabeth. Até hoje isso é um grande mistério para os historiadores.

Além desses, outros erros se tornam enfadonhos: a conspiração de Robert com o Embaixador espanhol para influenciar a Rainha a se casar com Felipe II, rei da Espanha; O corte Chanel, que foi inventado pela estilista no século XX, usado por uma das damas da Rainha; Elizabeth ter se consagrado virgem após cortar os cabelos e decidir que não mais se casaria. São esses erros que tornam o filme Elizabeth responsável por divulgar uma história fictícia acerca desta, que foi a monarca mais bem articulada da Inglaterra. Por outro lado, ele confere com a falta de experiência de Elizabeth para governar nos seus primeiros anos de gestão até resolver seus problemas e conscientizar-se de que era uma soberana. Apesar destes equívocos, o longa-metragem é recomendável a todos aqueles que se interessam pela dinastia Tudor, pois faz um fiel retrato do vestuário, modos e costumes da corte elizabetana, bem como de sua líder.

Artigo escrito por Renato Drummond.   

Veja mais algumas fotos do filme: