Ficção, amor e o casamento na Era Tudor

casamento tudor

Sabemos que mulher medieval e renascentista era definida pelo seu estado civil: na adolescência, era uma virgem solteira até o momento que, quando adulta, entraria no estado matrimonial no qual ou ela ou morreria ou sobreviveria à viuvez. Assuntos comuns para a ficção história são a vida sexual dos cortesões reais: qualquer um que olhe para a vida sexual de alguém deste período inevitavelmente olha para seu eventual casamento, uma vez que poucas pessoas permaneciam solteiros naquela época. No entanto, o casamento que é mostrado na ficção história raramente representa o estado real do casamento da época. Esse artigo incide exclusivamente sobre o casamento dos cortesões reais e como eles foram retratados na ficção, e não o casamento como um estado geral em todos os estratos sociais do período Tudor (1485 – 1603).

Um típico casamento ficcional Tudor geralmente é mostrado como sendo opressivo e restritivo para a mulher – e legalmente e podemos ver que esse é o caso. Os homens medievais e renascentistas tinham, em teoria, o poder total sobre suas esposas. Com o casamento, o dote de uma mulher tornava-se propriedade de seu marido para que ele administrasse como bem entendesse. Se o marido morresse, ela iria resgatar essas terras (ou o equivalente que seu marido tinha vendido, trocado ou perdido) e esperava-se que ele tivesse cuidado deles esse tempo todo (caso contrário, ela ficaria sem nada). Ela viveria onde o marido escolheria para ela viver. Se seu comportamento ofendesse o marido, ele poderia optar por mandá-la embora para uma outra propriedade dele ou até mesmo colocá-la em um convento. A mulher poderia não ter nenhuma propriedade em seu próprio direito e estaria dependente de seu marido para ter sua renda, para suas roupas e a despesa geral da vida. Ele pagaria tudo que ela precisasse: efetivamente, se ele não quisesse pagar por sua comida ela não comeria. Se ele se recusasse a pagar por suas roupas ela poderia ficar sem nenhuma, e se ele parasse de pagar suas criadas, ela ficaria sem nenhuma. Um marido poderia bater em sua esposa e, consequentemente, fazer o que quiser com ela às quatro portas.

O casamento de Jane Grey e Guildford Dudley é mostrado no filme Lady Jane, de 1986, como o típico casamento Tudor.

O casamento de Jane Grey e Guildford Dudley é mostrado no filme Lady Jane, de 1986, como o típico casamento Tudor.

Com esse quadro bastante desolador do casamento não é de se admirar que a imagem mais comum que temos de uma mulher casada nesse tempo era uma imagem de opressão. E então não é de se surpreender que muitas heroínas ficcionais recusam a se casar e tentam afirmar sua independência ao se casar com um homem de sua escolha, porque ela nunca iria se sujeitar a uma vida tão restritiva por um homem que não amava.

No entanto, aceitar este ponto de vista como um fato mostra apenas o mínimo de pesquisa. Sim, um marido tinha o direito de todos os itens acima, mas isso não significa que todos os homens se tornavam tiranos e mantinham suas esposas em uma penúria constante após o casamento. Na verdade, o casamento era, como regra geral, uma parceria igualitária entre marido e mulher trabalhando juntos para ganhar mais status e posições para si mesmos e sua família.

Claro que como um público ocidental moderno nos solidarizamos instantaneamente com uma mulher prestes a se casar, uma vez que os casamentos Tudor eram em sua grande maioria arranjados. Quando a heroína ficcional expressa seu descontentamento com seu casamento iminente, ela é imediatamente forçada a uma situação que não quer. Nada é ajudado pela idéia comum de que se uma família quisesse casar sua parente mulher com um homem velho, eles o fariam. A adaptação televisiva de “The Other Boleyn Girl” mostra a tentativa da família Bolena em casar Maria Bolena com um homem velho e acima do peso. Mas só porque uma família poderia fazer isso não significa que eles fariam. A esmagadora maioria das famílias queriam noivos e noivas com idades semelhantes, ou pelo menos com uma idade razoável. Enquanto não era inédito para um homem idoso se casar com uma jovem mulher, isso não era uma norma e geralmente causava um escândalo, com uma simpatia pela mulher. Quando Charles Brandon, de 49 anos, se casou com uma jovem de 14, o arranjo foi considerado tão incomum que o embaixador espanhol incluiu a notícia em seus despachos como valendo mencionar “a novidade do caso”.

Era uma sabedoria convencional que parceiros de idade, status e riquezas aproximadas eram melhores paraum casamento: diferenças de idade eram consideradas imprudentes – um grande exemplo foi quando Louis XII, de 52 anos, se casou com Maria Tudor, de 18 anos. Ele morreu 3 meses depois e Maria logo se casou secretamente com Charles Brandon, de uma idade mais próxima da sua, embora de status e riquezas muito inferiores.

Além disso, era necessário o consentimento expresso dos noivos para um casamento ser válido – assim, era prática comum que os casais declarassem sua aceitação mútua durante o namoro. Mas para os ricos, esse podia ser um momento perigoso, uma vez que um consentimento por ambos já resultava em um contrato de casamento – o que poderia ocasionar em problemas caso um dos noivos se casasse posteriormente com outra pessoa, mesmo que o contrato verbal tivesse sido feito décadas atrás. Isso aconteceu com a rainha Ana de Cleves – seu casamento com Henrique VIII foi anulado, entre outros motivos, pelo seu noivado com o Duque de Lorraine.

A maioria dos casamentos era como os de Maria Bolena e William Carey, como mostrado no filme "A Outra" de 2008.

A maioria dos casamentos era como os de Maria Bolena e William Carey, como mostrado no filme “A Outra” de 2008.

A corte estava cheia de mulheres que faziam seus próprios casamentos contra os planos de sua família e do monarca. A princesa Margaret, a princesa Maria, ambas as irmãs Bolena, Maria Rainha da Escócia, Catarina Grey, Elizabeth Throckmorton, Elizabeth Vernon e Lettice Knollys são apenas apenas algumas das mulheres que fizeram os seus próprios casamentos. A própria avó de Henrique VII fora assim. O fato é que elas eram mais comuns do que a ficção nos quer fazer crer – embora ocorresse, é claro, coisas ruins quando um casamento secreto fosse descoberto, uma pequena proporção dessas mulheres eram obrigadas a abandonar o marido – grande parte das vezes porque, quando um casamento era descoberto, já havia sido consumado.

Um casal poderia muito bem contrair matrimônio secretamente e se considerar ‘homem e mulher diante de Deus’, mas um casamento na Igreja era necessário para satisfazer as expectativas dos amigos, da família e da comunidade. Acredita-se que quase 1/3 das noivas elisabetanas estavam grávidas quando se casaram na Igreja, apesar da proibição sobre relações sexuais. Além disso, durante a cerimônia, cada parceiro se comprometia a amar o outro, e o dever dos maridos em particular era enfatizado com citações das cartas de São Paulo.

O parentesco era tudo para as família renascentistas, e não apenas da Inglaterra. Os casamentos eram arranjados a fim de fortalecer os laços familiares e ganhar mais conexões que garantissem proteção e prosperidade para a família; e pais arranjavam os casamentos de seus filhos a fim de garantir o seu futuro – não é só as filhas que tinham o seu casamento arranjado, os filhos também eram casados sem terem chance de escolher suas parceiras. Como nota o historiador Jasper Ridley, as mulheres eram vistas como necessariamente subordinada aos homens, mas também tinham lugares de honra e importância na sociedade – principalmente se, em um casamento arranjado, o status da mulher fosse maior do que o do homem. Além disso, uma vez casados, embora as terras das mulheres se tornassem do seu marido, eram as mulheres que as administravam. Isso era mais presente na vida de ‘mulheres comuns’, que tomavam conta de suas casas, preparavam as refeições e compravam o que era necessário para o seu lar no mercado de suas vilas.

Em termos de administração doméstica – praticamente o único lugar em que todas as mulheres, de todos os níveis sociais, tinham superioridade ao homem – o marido é visto como assumindo um papel passivo. Se uma mulher vivia na corte e fosse dama de companhia da Rainha, era benéfico para um cortesão, uma vez que o salvava da despesa de ter que subordinar uma dama para lhe contar as informações que eram ditas dentro da corte e do círculo da Rainha. Para Sir Thomas Smith (1513 – 1577), escritor sobre o governo e a sociedade inglesa, a família não era uma monarquia, mas sim uma aristocracia, ‘onde alguns e os melhores governam, e onde nem sempre um – mas em algum momento e em alguma coisa um, e algum tempo e em alguma outra coisa ambos’. Correspondências familiares entre cortesões revelam a estreita parceria entre alguns maridos e esposas: em 1502, comprometido em uma luta para recuperar suas terras, Sir Robert Plumpton dependia de sua esposa Agnes para defender ua mansão e arrecadar dinheiro para ele – embora ele pedisse para que ele acabasse com essa questão. Ele se dirigiu a ela em uma carta como ‘coração querido’ e descrevendo a si mesmo como ‘seu próprio amante’. na década de 1540, John Johnson, comerciante, confiava que sua esposa Sabine gerenciasse seus negócios na Inglaterra enquanto ele estava em Calais trabalhando como comerciante de lã: eles assinavam suas cartas como ‘marido amoroso’ e ‘esposa amorosa’.

 O casamento de Maria Stuart e Francisco na série Reign.


O casamento de Maria Stuart e Francisco na série Reign.

É lógico que isso não quer dizer que todo casamento era um sucesso – mas mesmo para aqueles que eram infelizes, havia a chance de ir ao tribunal e pedir o divórcio por conta de abuso ou negligência, como Maria Talbot fez com o seu infeliz marido Henry Percy. O pai de Maria temeu que ela estivesse sendo abusada por seu marido, e Henry reagiu ao não deixar Maria se comunicar com sua família. Maria, por sua vez, foi para a casa de sua família e se recusou a ver seu marido, processando-o por divórcio. Embora ela não tenha tido sucesso – embora ele tenha morrido pouco depois – essa era uma possibilidade para as mulheres podiam fazer isso.

Acontece que grande parte da ficção história é baseada em torno de Catarina de Aragão, que mostra que os maridos estavam livres para tomar amantes enquanto suas esposas tinham que ‘fechar os olhos e suportar’. Embora uma rainha realmente tinha que ser virtuosa, algumas damas de companhia tomavam amantes – Anne Stafford, por exemplo, viveu em adultério aberto com William Compton por muitos anos até a sua morte. Apesar de suas imprecisões históricas, The Tudors mostra como muitas mulheres da corte mantinham relacionamentos com outros homens além de seus maridos.

A noção de que a sociedade Tudor era opressiva e patriarcal, onde esperava-se que as mulheres conhecessem seu lugar, diz muito mais sobre as atitudes do século XIX para as mulheres do que com os Tudor de fato. Grande parte das fontes para esses ‘mitos’ são de estatutos, atos de Estado e sermões religiosos, onde as mulheres eram retratadas como sujeitas à regra do pai, marido ou mestre – no entanto, essas fontes oficiais foram escritas de homens para homens, onde a voz das mulheres estão escondidas. No entanto, isso não quer dizer que a voz das mulheres está escondida nos registros históricos: como pudemos ver, através da literatura e de cartas podemos ver todo um universo Tudor que muitas vezes é desconhecido. Concluindo, a idéia deste artigo é mostrar que nem tudo no casamento Tudor era opressivo de forma que a ficção nos faz mostrar. Em teoria, os homens tinham controle completo sobre suas esposas; na prática, o casal via em si um parceiro para ajudar no avanço de suas ambições.

Bibliografia:
HOULBROOKE, Ralph. Love and marriage in Tudor England. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.
TONGE, Dave. Attitudes towards women in the Tudor period. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.
Fiction, Feminism and Marriage. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.

O bordado na Era Tudor (1485 – 1603)

bordado

Os séculos XVI e XVII viram o florescimento da arte de bordar, particularmente na Inglaterra. Durante a Idade Média, os artesãos ingleses eram famosos por toda a Europa pelo seu bordado, mas a partir do momento em que Henrique VIII rompeu com a Igreja Católica e estabeleceu a Igreja da Inglaterra, a necessidade de enfeites e mobiliários para o culto religioso elaborado diminuiu muito. Mas, ao mesmo tempo, o gosto por roupas ricas e decoradas aumentou muito, e uma grande porção da sociedade poderia se dar ao luxo de comprar ou fazer ricos bordados durante o final do reinado de Henrique VIII e de Elizabeth I.

Os bordados de alta qualidade eram produzidos por um grupo diversificado de pessoas. Enquanto essa habilidade é tradicionalmente associado à feminilidade, o bordado era praticado por homens e mulheres, crianças e adultos, sendo eles profissionais pagos ou armadores talentosos. Uma vez que todos os produtos têxteis eram decorados à mão, a habilidade de bordar era necessária em todos os níveis da sociedade. É altamente provável que quase todos os jovens eram ensinados a manejar uma agulha. O tipo de trabalho que era ensinado à uma jovem era em grande parte dependente de seu status socioeconômico: as mulheres jovens e simples teriam que produzir seu próprio vestuário, e ganhar a vida, então aprendiam técnicas de costuras simples e práticas. As mulheres jovens da aristocracia aprendiam técnicas de bordado decorativos e elaborados.

Livro com capa bordada do século XVI.

Livro com capa bordada do século XVI.

Bordadeiros profissionais do sexo masculino eram membros da Companhia de Bordadeiros de Worshipful, durante o reinado de Elizabeth I. Apesar da adesão à guilda ser restrita a homens, é evidente que mulheres também desempenhavam um papel importante nas oficinas de bordados. Dois tipos de bordado predominavam nesse período: os baseados na flora e na fauna e desenhos que ilustravam narrativas da Bíblia. O aumento da produção e popularidade dos bordados se deu em grande parte por causa de livros de bordados impressos no final do século XVI e XVII, e o bordado decorativo se tornou um passatempo entre aqueles que podiam comprar os livros e terem recursos para se destacarem na agulha. Os primeiros livros com receitas de bordado foram impressos no continente e importados para a Inglaterra em 1554, e o primeiro livro inglês foi publicado na década de 1590 – os livros anteriores eram quase inteiramente copiados de obras alemãs ou italianas.

O único problema foi que, com as publicações, os bordadeiros profissionais tiveram que enfrentar a concorrência de inúmeros bordadeiros entusiastas amadores. A propagação do bordado atingiu todas as áreas imagináveis: lençóis, colchas, toalhas de mesa, tapetes, almofadas, luvas, lenços, corpetes, saias, bolsas, capas de livros, marcadores de livros, sapatos, chapéus, e inúmeros outros itens do dia-a-dia.

Fundada em 1565, a Royal Exchange, em Londres, popularizou acessórios da moda feitos “em massa” – uma variedade de produtos importados de luxo agora poderiam ser comprados neste centro de atividades comerciais, como chapéus, lenços e bolsas bordadas, sendo utilizadas para carregar ervas aromáticas ou embrulho como presente. Além disso, as luvas eram o objeto mais evocativo de um indivíduo, fortemente associados com devoções românticas, e muitas vezes decorados com símbolos de devoção, como corações.

Luvas elisabetanas bordadas.

Luvas elisabetanas bordadas.

Mas não eram só os pequenos acessórios que eram enfeitados com bordados: roupas inteiras do século XVI e XVII eram bordadas, e poderiam ser alto luxo, com inclusão de fios de ouro e prata, pérolas e pedras preciosas. Um dos locais que eram mais utilizados bordados, que podemos ver nos retratos Tudor, são em mangas e golas das chemises – as camisas longas que eram usadas por baixo dos vestidos das mulheres e dos trajes dos homens.

No período Tudor, os bordados eram feitos principalmente em dois tipos de tecido: seda branca em cetim e linho não tingido (como as chemises). A técnica de bordar determinava a escolha do tecido: os pontos denominados Tent, Cross e Gobelin eram trabalhados no linho, cuja trama continha de 15 a 16 fios por tecido, sendo adequado para o trabalho de bordar.  Nas chemises, o tipo de bordado mais usado era a técnica de blackwork – usando apenas o fios pretos. Os pontos mais utilizados eram o Double Running ou BackStitch, e às vezes o Stem Stitch.

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Os bordadeiros usavam fios de seda, tanto em cores naturais quanto tingidos. Não se sabe se por razões de economia ou para facilitar a aplicação, as bordadeiras até o século XVI restringiam o uso de fios metálicos apenas nas superfícies visíveis do trabalho. Na segunda metade do século XVI, a expansão do comércio levou a um aumento na disponibilidade de ouro, prata e seda, e obras bordadas nesse momento (de 1550 a 1600) se destacam pela sua expressividade e alto nível de perícia na combinação de fios de seda com de metais de espessuras, larguras e formas diferentes.

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Bibliografia:
WATT, Melinda. “English Embroidery of the Late Tudor and Stuart Eras“. Acesso em 29 de Junho de 2016.
CARR, Cristina Balloffet. “The Materials and Techniques of English Embroidery of the Late Tudor and Stuart Eras“. Acesso em 29 de Junho de 2016.
Introduction to English Embroidery“. Acesso em 29 de Junho de 2016.

Grupo de vendas e trocas do período Medieval, Tudor e Vitoriano

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Para os interessados em compras, vendas ou trocas de itens (como roupas, heráldicas, canecas, marcadores de páginas, livros, peças de decoração e espadas) relacionados ao período medieval (V a XV), Tudor (1485 – 1603) e Vitoriano (1837 – 1901) no Brasil, criei um grupo de vendas no Facebook.

As regras básicas: a relação de compra/venda/troca será entre os usuários do grupo, a forma de pagamento e envio deverá ser combinada entre ambos (a falta de pagamento ou envio será de responsabilidade dos vendedores/compradores, não tendo relação nenhuma com os administradores do grupo); não fazer postagem repetida; não compartilhar publicações de venda (o usuário deve publicar um item que ele está vendendo e não outra pessoa);e  colocar preço nas postagens.

Como todos sabemos, hoje são raras as oportunidades que lojistas e compradores têm de se encontrar e conversar pessoalmente, e por isso a internet e grupos como esses ajudam muito pessoas interessadas nesses períodos históricos. Aguardo a participação de vocês!

O exorcismo de Sara Williams

Nonancourt - An Exorcism of a WomanNo dia de ano-novo de 1586, um padre católico inglês decidiu que “nem tudo estava bem” com uma jovem criada da casa de Hackney Vaux. Então ele a amarrou em uma cadeira, deu-lhe uma “bebida sagrada” que a fez vomitar e a obrigou a inalar enxofre queimado. Depois de dez hora, Sara Williams, que tinha 15 anos, foi exorcizada do demônio que se presumia tê-la possuído. Uma testemunha ocular escreveu:

“Foi uma visão maravilhosa, garanto-vos, contemplar a dor e o tormento do diabo até na queima do enxofre e mantendo o mesmo sob seu nariz, como ele rugiu, atormentado, e gritava de maneira mais terrível… falando palavrões e xingando tão gravemente que um homem teria ficado com medo de tê-lo ouvido”.

Sara, que estava possuída, foi espancada com um manípulo, forçada a colocar uma veste litúrgica e teve relíquias pressionadas contra sua carne. Já no fim de sua provação, ela gritou que o demônio iria quebrá-la: “Ele jaz no fundo da minha barriga”.

“Em seguida, o sacerdote, percebendo que o diabo estava na parte inferior da barriga, deu uma relíquia a uma das mulheres, querendo que a colocasse até a barriga da possuída, o que foi feito pela mulher, e foi maravilhoso ver como o diabo estava atormentado.”

Por fim, com Sara convocando a ajuda de Deus e da Virgem Maria, o diabo foi expulso e os espectadores católicos voltaram para casa, cheios da certeza que “nestes dias tão cheios de maldade e impiedade, tão cheios de heresia e infidelidade, Deus estava ao seu lado”.

Em 1585, ano em que Elizabeth I enviou forças para os Países Baixos lutarem contra a Espanha, um projeto de lei “contra os jesuítas, os padres do seminário tal como outras pessoas desobedientes” foi lido na Câmara dos Lordes. Ele propunha que qualquer sacerdote ordenado no exterior em 1559 e que fosse encontrado na Inglaterra 40 dias após a promulgação seria automaticamente considerado um traidor. Recusantes deste projeto de lei, tal como Vaux, tinham sido presos em 1581 por se recusarem a jurar de terem abrigado o missionário jesuíta Edmund Campion.

Pouco depois, Vaux e vários outros homens reuniram-se com cinco sacerdotes. Eles concordaram que, a não ser que fossem enviados especificamente, os missionários teriam que “se virar” por um tempo.

O estatuto de 1585 culminou no exorcismo de Sara Williams. Várias vezes ela ameaçou trair os seus exorcistas para os homens da rainha. Uma lei de 1563 fazia a invocação de espíritos – e o exorcismo – punível com morte. Esse relato expõe algumas das tensões que existiam dentro das famílias não-conformistas, onde mesmo após a lei, algumas famílias continuaram a abrigar padres. O demônio, falando através de Sara, zombou dos jovens missionários.

Havia um medo generalizado de espiões. O exorcismo de Sara ocorreu na casa de Vaux. Em outubro de 1584, um traidor católico havia dado a localização da capela secreta de Vaux e afirmou que a família estava esperando um ataque a qualquer momento. Em 5 de novembro de 1586, a casa seria revistada e Henry Vaux preso, com base nas informações de um exorcista chamado Anthony Tyrrel que se tornou informante do governo. “Eu irei agora e depois tentá-la”, ameaçou o diabo em Sara, “às vezes com dinheiro”, e às vezes “na forma de um homem alto”. Ele também disse que tinha falado com oficiais e vizinhos, e quando o exorcista perguntou porque eles ainda não tinham sido presos, o diabo disse que sido frustrado pelo poder da Trindade e da Virgem Maria. Não só o diabo andava junto da religião oficial – ele também ficava junto dos protestantes e católicos:

“Todos os protestantes e hereges estão na minha mão direita perto de mim, mas os cismáticos estão na minha mão esquerda um pouco mais longe: não obstante, todos eles são meus.”

Há ainda uma crítica ao estado elisabetano de que o diabo reconheceu o osso de Alexander Briant, um padre que havia sido executado em 1581, e cujo ossos foram usados no exorcismo de Sara. “Se isso não é um testemunho suficiente do martírio glorioso dos nosso sacerdotes”, escreve a testemunha, “eu não sei o que seria”. Quando o diabo finalmente foi banido do corpo de Sara, esse foi mais um triunfo para o catolicismo – no relato, é exibido o carisma de sacerdotes católicos e suas relíquias em um momento em que a tentação de abandoná-las era muito grande. Em uma época em que as pessoas notavam fenômenos sobrenaturais , executavam bruxas e seriam pressionados para identificar uma diferença precisa entre religião e magia, um exorcismo aparentemente bem-sucedido oferecia uma correlação visual atraente para a linha protestantes de que os milagres e as possessões demoníacas não tinham desaparecido.

Além de Sara, outros seis jovens homens e mulheres foram exorcizados entre o outono de 1585 e o verão de 1586. Um exorcista alegou ter feito 500 conversões neste período, embora o número tivesse sido contestado. “A interveção do Céu foi inquestionável”, escreveu um exorcista jesuíta, William Weston, “e os espectadores incrédulos ficaram espantados”. No caso de Sara, o ritual de expulsão reforçava a devoção e redobrava as orações, para que no momento de triunfo a notícia pudesse ser compartilhada, a fé reforçada e a palavra espalhada.

De acordo com Friswood Williams, irmã mais velha de Sara, a prática dividia as comunidades. A própria Sara afirmou mais tarde que seu confessor, chamado Richard Yaxley, depois de saber do que havia acontecido com ela, disse que “sentia muito e que eles se arrependessem por ter feito aquilo com ela”. Quando pressionado para dar a sua opinião se ela tinha ou não sido possuída pelo demônio, o padre disse que já era “passado”.

Sara Williams mudou-se para Oxford e foi presa por 14 semanas. Seu crime era não ir à Igreja, e não há registros se ela tinha sido questionada sobre o exorcismo. No início da década de 1590 ela foi questionada sobre os exorcismos, mas se recusou a revelar qualquer coisa. Foi apenas em abril de 1602,  depois que todos aqueles que participaram no exorcismo estivessem mortos ou presos, que Sara deu um depoimento para o governo. Ela então estava na casa dos trinta, casada e mãe de cinco filhos.

Richard Bancroft

Richard Bancroft

Curiosamente, os oficiais não queriam prender os padres católicos. Eles queriam fazer uma campanha para expor as práticas de “prestidigitação diabólica”. Com base em depoimentos de pessoas exorcizadas durante 1585 e 1586, Richard Bancroft, um dos homens que investigaram a investigação, publicou em 1603 um livro sobre “imposturas papistas flagrantes” que pretendiam converter os súditos da rainha em católicos através de exorcismos.

No depoimento de 1602 de Sara, ela disse que as mulheres a examinaram e que os padres fingiram que o demônio se escondia na parte mais secreta de seu corpo. Desse modo, eles mergulharam as relíquias em alguns molhos e deram a uma empregada para colocar a relíquia “naquele lugar”. Sara supostamente caiu em lágrimas durante a entrevista. Ela ainda depôs sobre duas ocasiões antes de ser presa em uma cadeia que os sacerdotes tinham feito “uma mulher jorrar algo pelas suas partes íntimas de seu corpo, o que a deixou muito doente”. Aparentemente, um dos sacerdotes depois avisou que ela nunca seria capaz de ter filhos, porque “o diabo rasgou suas partes de tal modo que ela não poderia conceber”. Isso, felizmente, acabou por se tornar falso.

A questão complicada é que não só Sara estava no início de sua menstruação (remédios contemporâneos incluíam pessários, injeções para o útero e vômitos induzidos), ela também sofria de “encaixe da mãe”, uma aflição muitas vezes percebida como sendo de causas sobrenaturais, mas diagnosticada como uma histeria de causas naturais. A publicação deste diagnóstico foi quase certo encomendado por Bancroft como parte da campanha para destruir a crença na possessão espiritual.

Os sacerdotes então viram e ouvirão o que eles fervorosamente queriam ver e ouvir: uma menina apavorada, suscetível a doenças e alterações de humor, habitada pelo diabo e precisando desesperadamente de uma cura milagrosa que só a Igreja Católica poderia oferecer.

Quais quer que tenham sido os abusos perpetrados durante o exorcismo de Sara Williams, quaisquer que tenham sido os erros e acertos, verdades ou inverdades, o episódio oferece um vislumbre de um mundo opressivo e das pessoas que viviam nele. A voz de Sara foi sequestrada por demônios, propagandistas católicos e religiosos. É uma expressão profundamente autêntico de seu tempo.

Bibliografia:
SANDS, Kathleen R. “Demon Possession in Elizabethan England”. United States of America: Praeger Publishers, 2004.
CHILDS, Jessie. “Beware the Foul Fiend: An Exorcism in Elizabethan London“.
Denham Exorcisms

As datas Tudor e os calendários gregorianos e julianos

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No de 46 a.C., o ditador da República Romana Júlio Cesar decidiu reformar o calendário para readequá-lo ao tempo natural. A reforma juliana teve duas etapas: na primeira, estabeleceu-se que o ano de 46 a.C. teria 15 meses e um total de 455 dias para compensar a defasagem (aquele ficou conhecido pelos romanos, e com toda a razão, como o “ano da confusão”). A segunda etapa da reforma consistiu em adotar, a partir de 45 a.C., um ano composto por 365 dias e 6 horas, divididos em 12 meses. Para compensar as 6 horas excedentes de cada ano, seria incluído um dia a mais em fevereiro a cada 4 anos. No entanto, em consequência do movimento de elipse que a Terra faz ao redor do sol, uma defasagem entre o ano do calendário e o ano natural permanecia.  No século XV, por exemplo, o calendário juliano já estava atrasado quase dez dias em relação ao Sol: o equinócio da primavera no Hemisfério Norte caía por volta de 12 de março, em vez do dia 21.

No ano 1545, o Concílio de Trento determinou a realização de alterações no calendário da Igreja. Após décadas de estudos e cálculos astronômicos, o papa Gregório XIII instituiria o novo calendário em 1582 mediante a bula “Inter gravissimas”, a fim de adequar a data da Páscoa ao equinócio da primavera no Hemisfério Norte. O novo calendário apagava dez dias do calendário: a quinta-feira, dia 4 de Outubro de 1582, seria imediatamente seguida da sexta-feira, dia 15 de Outubro.  Em 1583, Portugal, Itália, Espanha, França e os reinos católicos da Alemanha já estavam usando as “novas” datas. Mas a Inglaterra, uma nação protestante, continuou a usar o estilo “antigo”, ou seja, o calendário juliano, até 1752 – de acordo com o astrônomo Johannes Kepler, os estados protestantes prefeririam  “estar em desacordo com o Sol a estar de acordo com o Papa”.  Ou seja, os relatórios ingleses sobre a Armada Espanhola registram eventos como tendo lugar dez dias antes do que os relatórios espanhóis. Os dias da semana também ficaram diferentes – o dia 1 de Maio de 1593, por exemplo, era uma terça-feira no calendário juliano mas era um sábado no calendário gregoriano.

ElizabethTheGoldenAgeEsse problema de dez dias entre as datas persistiu durante todo o reinado de Elizabeth I – se alguém que aceitava o calendário gregoriano e saísse da Inglaterra no dia 20 de Agosto de 1590 – e esperava-se uma média de 4 horas para cruzar o Canal Inglês – ele chegaria na França no dia 30 de Agosto.

Em seguida, há a questão de datas duplas, como em 2 de Fevereiro de 1555 e 1556. Por exemplo, na Inglaterra, o Ano Novo era comemorado no dia 25 de Março, embora o feriado chamado de Dia de ano Novo, em que os presentes eram dados aos monarcas, era comemorado no dia 1º de Janeiro. As datas para os eventos que aconteciam entre 1 de Janeiro e 24 de Março, por exemplo, poderiam ser encontrados como escritos no início de ano, ou em ambos os anos.

Além disso, os meses de Janeiro e Fevereiro de 1595 na França eram os meses de Janeiro e Fevereiro de 1594 na Inglaterra. Em 25 de Março de 1595, o ano começou com a Inglaterra e os elisabetanos estando “no mesmo ano” que os países católicos, até o dia 1 de Fevereiro do próximo mês. Por conta disso, algumas vezes, os elisabetanos escreviam duas datas em suas cartas.

Na Inglaterra, o calendário antigo ficou sendo usado até a adoção do calendário gregoriano, em 1752. Mas ainda há problemas: Ben Jonson, por exemplo, no início do século XVI, datava suas produções dramáticas usando o estilo novo de calendário, e não o antigo, na época em voga na Inglaterra.

Dessa forma, todas as datas de nascimento, casamento e morte dos Tudor e elisabetanos têm que ser tratados com cautela. Ainda existe outra questão para que os estudiosos Tudor tomem cuidado: existem documentos originais do século 16 que não usavam o ano em que eles estavam (“1603”, por exemplo) para marcar a data: eles escreviam 03 abril 45 Elizabeth: ou seja, dia 3 de Abril dos 45 anos do reinado de Elizabeth (ou seja, 1603). Outra questão são a separação do meses:  5/8/1567 seria 5 de Agosto, ou 8 de Maio (se considerarmos a forma americana de escrita, que coloca o mês antes do dia). Dessa forma, para que você possa estudar sobre os reinados Tudor, é necessário saber não só a data de adesão do rei, mas também estar familiarizado com a forma que os Tudor comemoravam o Ano Novo e usavam o calendário.

Bibliografia:
EMERSON, Kate. A note on dates and why you shouldn’t trust them. Acesso em 29 de Março de 2016.
Elizabethan Calendar“. Acesso em 29 de Março de 2016.
WAGNER, John A.; SCHMID, Susan Walters. Encyclopedia of Tudor England, Volume 1. ABC-CLIO, 2012.
KINNEY, Arthur F.; COPELAND, Thomas W.; SWAIN, David W., etc. Tudor England: An Encyclopedia. Routledge, 2000.