O gentil William Carey e suas representações na literatura ficcional


Ana Bolena não teria necessariamente passado muito tempo com o seu cunhado, William Carey, e ele morreu alguns anos antes do que pode ser chamado da parte ‘principal’ da história da esposa mais retratada de Henrique VIII. Como resultado, suas aparições ficcionais – com a exceção óbvias dos romances centrados em Maria – são geralmente centrados em torno de seu casamento (muitas vezes ligada com a sua tolerância com o caso de Maria com o rei) e sua morte. Quando ao seu comportamento, é representado em grande parte como ele provavelmente teria desejado: gracioso. Continuar lendo

Anúncios

Ficção, amor e o casamento na Era Tudor

casamento tudor

Sabemos que mulher medieval e renascentista era definida pelo seu estado civil: na adolescência, era uma virgem solteira até o momento que, quando adulta, entraria no estado matrimonial no qual ou ela ou morreria ou sobreviveria à viuvez. Assuntos comuns para a ficção história são a vida sexual dos cortesões reais: qualquer um que olhe para a vida sexual de alguém deste período inevitavelmente olha para seu eventual casamento, uma vez que poucas pessoas permaneciam solteiros naquela época. No entanto, o casamento que é mostrado na ficção história raramente representa o estado real do casamento da época. Esse artigo incide exclusivamente sobre o casamento dos cortesões reais e como eles foram retratados na ficção, e não o casamento como um estado geral em todos os estratos sociais do período Tudor (1485 – 1603).

Um típico casamento ficcional Tudor geralmente é mostrado como sendo opressivo e restritivo para a mulher – e legalmente e podemos ver que esse é o caso. Os homens medievais e renascentistas tinham, em teoria, o poder total sobre suas esposas. Com o casamento, o dote de uma mulher tornava-se propriedade de seu marido para que ele administrasse como bem entendesse. Se o marido morresse, ela iria resgatar essas terras (ou o equivalente que seu marido tinha vendido, trocado ou perdido) e esperava-se que ele tivesse cuidado deles esse tempo todo (caso contrário, ela ficaria sem nada). Ela viveria onde o marido escolheria para ela viver. Se seu comportamento ofendesse o marido, ele poderia optar por mandá-la embora para uma outra propriedade dele ou até mesmo colocá-la em um convento. A mulher poderia não ter nenhuma propriedade em seu próprio direito e estaria dependente de seu marido para ter sua renda, para suas roupas e a despesa geral da vida. Ele pagaria tudo que ela precisasse: efetivamente, se ele não quisesse pagar por sua comida ela não comeria. Se ele se recusasse a pagar por suas roupas ela poderia ficar sem nenhuma, e se ele parasse de pagar suas criadas, ela ficaria sem nenhuma. Um marido poderia bater em sua esposa e, consequentemente, fazer o que quiser com ela às quatro portas.

O casamento de Jane Grey e Guildford Dudley é mostrado no filme Lady Jane, de 1986, como o típico casamento Tudor.

O casamento de Jane Grey e Guildford Dudley é mostrado no filme Lady Jane, de 1986, como o típico casamento Tudor.

Com esse quadro bastante desolador do casamento não é de se admirar que a imagem mais comum que temos de uma mulher casada nesse tempo era uma imagem de opressão. E então não é de se surpreender que muitas heroínas ficcionais recusam a se casar e tentam afirmar sua independência ao se casar com um homem de sua escolha, porque ela nunca iria se sujeitar a uma vida tão restritiva por um homem que não amava.

No entanto, aceitar este ponto de vista como um fato mostra apenas o mínimo de pesquisa. Sim, um marido tinha o direito de todos os itens acima, mas isso não significa que todos os homens se tornavam tiranos e mantinham suas esposas em uma penúria constante após o casamento. Na verdade, o casamento era, como regra geral, uma parceria igualitária entre marido e mulher trabalhando juntos para ganhar mais status e posições para si mesmos e sua família.

Claro que como um público ocidental moderno nos solidarizamos instantaneamente com uma mulher prestes a se casar, uma vez que os casamentos Tudor eram em sua grande maioria arranjados. Quando a heroína ficcional expressa seu descontentamento com seu casamento iminente, ela é imediatamente forçada a uma situação que não quer. Nada é ajudado pela idéia comum de que se uma família quisesse casar sua parente mulher com um homem velho, eles o fariam. A adaptação televisiva de “The Other Boleyn Girl” mostra a tentativa da família Bolena em casar Maria Bolena com um homem velho e acima do peso. Mas só porque uma família poderia fazer isso não significa que eles fariam. A esmagadora maioria das famílias queriam noivos e noivas com idades semelhantes, ou pelo menos com uma idade razoável. Enquanto não era inédito para um homem idoso se casar com uma jovem mulher, isso não era uma norma e geralmente causava um escândalo, com uma simpatia pela mulher. Quando Charles Brandon, de 49 anos, se casou com uma jovem de 14, o arranjo foi considerado tão incomum que o embaixador espanhol incluiu a notícia em seus despachos como valendo mencionar “a novidade do caso”.

Era uma sabedoria convencional que parceiros de idade, status e riquezas aproximadas eram melhores paraum casamento: diferenças de idade eram consideradas imprudentes – um grande exemplo foi quando Louis XII, de 52 anos, se casou com Maria Tudor, de 18 anos. Ele morreu 3 meses depois e Maria logo se casou secretamente com Charles Brandon, de uma idade mais próxima da sua, embora de status e riquezas muito inferiores.

Além disso, era necessário o consentimento expresso dos noivos para um casamento ser válido – assim, era prática comum que os casais declarassem sua aceitação mútua durante o namoro. Mas para os ricos, esse podia ser um momento perigoso, uma vez que um consentimento por ambos já resultava em um contrato de casamento – o que poderia ocasionar em problemas caso um dos noivos se casasse posteriormente com outra pessoa, mesmo que o contrato verbal tivesse sido feito décadas atrás. Isso aconteceu com a rainha Ana de Cleves – seu casamento com Henrique VIII foi anulado, entre outros motivos, pelo seu noivado com o Duque de Lorraine.

A maioria dos casamentos era como os de Maria Bolena e William Carey, como mostrado no filme "A Outra" de 2008.

A maioria dos casamentos era como os de Maria Bolena e William Carey, como mostrado no filme “A Outra” de 2008.

A corte estava cheia de mulheres que faziam seus próprios casamentos contra os planos de sua família e do monarca. A princesa Margaret, a princesa Maria, ambas as irmãs Bolena, Maria Rainha da Escócia, Catarina Grey, Elizabeth Throckmorton, Elizabeth Vernon e Lettice Knollys são apenas apenas algumas das mulheres que fizeram os seus próprios casamentos. A própria avó de Henrique VII fora assim. O fato é que elas eram mais comuns do que a ficção nos quer fazer crer – embora ocorresse, é claro, coisas ruins quando um casamento secreto fosse descoberto, uma pequena proporção dessas mulheres eram obrigadas a abandonar o marido – grande parte das vezes porque, quando um casamento era descoberto, já havia sido consumado.

Um casal poderia muito bem contrair matrimônio secretamente e se considerar ‘homem e mulher diante de Deus’, mas um casamento na Igreja era necessário para satisfazer as expectativas dos amigos, da família e da comunidade. Acredita-se que quase 1/3 das noivas elisabetanas estavam grávidas quando se casaram na Igreja, apesar da proibição sobre relações sexuais. Além disso, durante a cerimônia, cada parceiro se comprometia a amar o outro, e o dever dos maridos em particular era enfatizado com citações das cartas de São Paulo.

O parentesco era tudo para as família renascentistas, e não apenas da Inglaterra. Os casamentos eram arranjados a fim de fortalecer os laços familiares e ganhar mais conexões que garantissem proteção e prosperidade para a família; e pais arranjavam os casamentos de seus filhos a fim de garantir o seu futuro – não é só as filhas que tinham o seu casamento arranjado, os filhos também eram casados sem terem chance de escolher suas parceiras. Como nota o historiador Jasper Ridley, as mulheres eram vistas como necessariamente subordinada aos homens, mas também tinham lugares de honra e importância na sociedade – principalmente se, em um casamento arranjado, o status da mulher fosse maior do que o do homem. Além disso, uma vez casados, embora as terras das mulheres se tornassem do seu marido, eram as mulheres que as administravam. Isso era mais presente na vida de ‘mulheres comuns’, que tomavam conta de suas casas, preparavam as refeições e compravam o que era necessário para o seu lar no mercado de suas vilas.

Em termos de administração doméstica – praticamente o único lugar em que todas as mulheres, de todos os níveis sociais, tinham superioridade ao homem – o marido é visto como assumindo um papel passivo. Se uma mulher vivia na corte e fosse dama de companhia da Rainha, era benéfico para um cortesão, uma vez que o salvava da despesa de ter que subordinar uma dama para lhe contar as informações que eram ditas dentro da corte e do círculo da Rainha. Para Sir Thomas Smith (1513 – 1577), escritor sobre o governo e a sociedade inglesa, a família não era uma monarquia, mas sim uma aristocracia, ‘onde alguns e os melhores governam, e onde nem sempre um – mas em algum momento e em alguma coisa um, e algum tempo e em alguma outra coisa ambos’. Correspondências familiares entre cortesões revelam a estreita parceria entre alguns maridos e esposas: em 1502, comprometido em uma luta para recuperar suas terras, Sir Robert Plumpton dependia de sua esposa Agnes para defender ua mansão e arrecadar dinheiro para ele – embora ele pedisse para que ele acabasse com essa questão. Ele se dirigiu a ela em uma carta como ‘coração querido’ e descrevendo a si mesmo como ‘seu próprio amante’. na década de 1540, John Johnson, comerciante, confiava que sua esposa Sabine gerenciasse seus negócios na Inglaterra enquanto ele estava em Calais trabalhando como comerciante de lã: eles assinavam suas cartas como ‘marido amoroso’ e ‘esposa amorosa’.

 O casamento de Maria Stuart e Francisco na série Reign.


O casamento de Maria Stuart e Francisco na série Reign.

É lógico que isso não quer dizer que todo casamento era um sucesso – mas mesmo para aqueles que eram infelizes, havia a chance de ir ao tribunal e pedir o divórcio por conta de abuso ou negligência, como Maria Talbot fez com o seu infeliz marido Henry Percy. O pai de Maria temeu que ela estivesse sendo abusada por seu marido, e Henry reagiu ao não deixar Maria se comunicar com sua família. Maria, por sua vez, foi para a casa de sua família e se recusou a ver seu marido, processando-o por divórcio. Embora ela não tenha tido sucesso – embora ele tenha morrido pouco depois – essa era uma possibilidade para as mulheres podiam fazer isso.

Acontece que grande parte da ficção história é baseada em torno de Catarina de Aragão, que mostra que os maridos estavam livres para tomar amantes enquanto suas esposas tinham que ‘fechar os olhos e suportar’. Embora uma rainha realmente tinha que ser virtuosa, algumas damas de companhia tomavam amantes – Anne Stafford, por exemplo, viveu em adultério aberto com William Compton por muitos anos até a sua morte. Apesar de suas imprecisões históricas, The Tudors mostra como muitas mulheres da corte mantinham relacionamentos com outros homens além de seus maridos.

A noção de que a sociedade Tudor era opressiva e patriarcal, onde esperava-se que as mulheres conhecessem seu lugar, diz muito mais sobre as atitudes do século XIX para as mulheres do que com os Tudor de fato. Grande parte das fontes para esses ‘mitos’ são de estatutos, atos de Estado e sermões religiosos, onde as mulheres eram retratadas como sujeitas à regra do pai, marido ou mestre – no entanto, essas fontes oficiais foram escritas de homens para homens, onde a voz das mulheres estão escondidas. No entanto, isso não quer dizer que a voz das mulheres está escondida nos registros históricos: como pudemos ver, através da literatura e de cartas podemos ver todo um universo Tudor que muitas vezes é desconhecido. Concluindo, a idéia deste artigo é mostrar que nem tudo no casamento Tudor era opressivo de forma que a ficção nos faz mostrar. Em teoria, os homens tinham controle completo sobre suas esposas; na prática, o casal via em si um parceiro para ajudar no avanço de suas ambições.

Bibliografia:
HOULBROOKE, Ralph. Love and marriage in Tudor England. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.
TONGE, Dave. Attitudes towards women in the Tudor period. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.
Fiction, Feminism and Marriage. Acesso em 07 de Fevereiro de 2017.

A vida da criança nos tempos Tudor e Elisabetano

Hoje os primeiros anos de uma criança são valorizados como uma época de inocência e importantes experiências formativas. Existe um enorme mercado para roupas, móveis e brinquedos projetados especificamente para os pequenos, e as suas necessidades ditam as rotinas e as escolhas das famílias. Mas esse nem sempre foi o caso: o conceito de infância como um período separado, sentimental e ideal do desenvolvimento é uma invenção relativamente moderna. Embora agora as crianças tenham leis e direitos para protegê-los de trabalho forçado e para promover a sua saúde, segurança e educação, a sobrevivência dos jovens do passado eram menos certa, pois esperava-se que eles se adaptassem e estivessem de acordo com as expectativas dos adultos.

Continuar lendo

A Vida e a Época de William Shakespeare

vida e época

Livro de literatura infantil, “A Vida e a Época de William Shakespeare” leva o leitor a embarcar com Shakespeare em uma jornada pelas ruas de Londres e Stratford-upon-Avon com um relato fictício de sua vida.

Nome do Livro no Brasil: A Vida e a Época de William Shakespeare
Nome Original:
Escrito por:
Publicado no Brasil em: 2011
Editora: Ciranda Cultural
Nº de Páginas: 30

Inglaterra, A vida no reino de Elizabeth

“A rainha estava zangada. Durante todo mês de outubro de 1566, a raiva de Elizabeth crescia, infiltrando-se friamente pelas galerias douradas do palácio de Whitehall, ao longo do Rio Tâmisa, a oeste de Londres, e enchendo sua grande câmara privada, onde a imagem pintada do seu pai olhava com desprezo os aflitos conselheiros e cortesãos com olhos duros e pequenos, como que lhes lembrando que não se podia brincar com os Tudors.
Os membros do parlamento nunca teriam se atrevido a intrometer-se nos assuntos reais de seu pai, mas estavam se intrometendo nos dela. Planejavam apresentar uma petição a Elizabeth, que então tinha 33 anos, que se casasse e nomeasse um sucessor caso morresse sem ter tido um herdeiro. Independente de seus sentimentos, Elizabeth considerava isso um assunto confidencial de Estado, que não deveria ser apresentado em detalhe público. Para piorar as coisas, a Câmara dos Comuns propôs ligar essa petição a uma lei para prover subsídios para a Coroa. Os aliados naturais da rainha na Câmara dos Lordes, inclusive nobres e bispos da Igreja Anglicana, não puderam impedir essa manobra e nem tentaram fazê-lo, pois também estavam preocupados com a sucessão”.

Inglaterra, A vida no reino de Elizabeth

O reino que Elizabeth herdou parecia estar cercado de inimigos. Em 1558, a Inglaterra estava em guerra contra seus vizinho França e Escócia. Trinta anos mais tarde, quando o Rei Felipe da Espanha lançou sua invasão, ele mandou chamar tropas dos Países Baixos espanhóis, que também ficavam próximos. A irlanda permaneceu beligerante durante a maior parte dos 45 anos de seu reinado. Não obstante, a Inglaterra não só resistiu como prosperou.
A Inglaterra elisabetana tinha apenas uma grande cidade: Londres. Era o centro de governo, do comércio e da vida social, e chegava-se até ela através da Ponte de Londres, no Rio Tâmisa, e pelas estradas que atravessavam muitos portões da Muralha de Londres – uma velha barreira que não marcava mais os limites da cidade. Muitos ingleses abonados construíram suas casa na elegante rua conhecida como “The Strand”, a oeste da muralha, enquanto londrinos de todas as classes acorriam através do rio até o subúrbio de Southwark para ver peças de luminares como Shakespeare, que cantava as glória de sua pátria: “Este majestoso trono de reis, esta ilha imperial/ …Este abençoado lugar, esta terra, este reino, esta Inglaterra”.

——————————————————————————————–——————–

Nome do Livro no Brasil: Inglaterra, A vida no reino de Elizabeth
Nome Original: What Life Was Like in the Realm of Elizabeth
Escrito por: Norman Jones
Publicado no Brasil em: 2007
Editora: Folio
Nº de Páginas: 167

* Agradecimentos à Renato Drummond pelos dados e imagem.

A vida da mulher na era Tudor

Na Inglaterra dos Tudor, como em muitas outras culturas, as mulheres eram consideradas inferiores aos homens. Tanto os homens quanto as mulheres acreditavam nisso, porque a Igreja lhes disse e Deus ordenara. Mesmo com o advento da Reforma, isso não significou qualquer mudança no pensamento. O líder protestante John Knox, uma vez escreveu: “As mulheres em sua maior perfeição nasceram para servir e obedecer os homens”. Se você se lembrar, o tema era familiar ao da terceira esposa de Henrique VIII, Jane Seymour (“Pronta para obedecer e servir”).

Desde o nascimento, as mulheres tinham como dever ser uma boa filha e obedecer ao seu pai sobre tudo. Mesmo os tios, irmãos mais velhos e amigos dos pais de família deveriam esperar obediência imediata das meninas.

Para a maioria das mulheres eram ensinadas a arte de ser uma esposa ideal, por exemplo, como gerenciar uma casa, bordar, costurar, desenvolver soluções, preparar alimentos, os seus deveres com o futuro marido.

Na primeira metade do século XVI, a maioria das pessoas não acreditavam em educação feminina. Eles achavam que ensinar a ler e escrever era um desperdício de tempo. Eles temiam que elas passassem os dias se entretendo com cartas de amor.

Como esperado, a educação era um privilégio das damas de alto status. Seus pais ou chefes de famílias eram responsáveis pela contratação de professores, geralmente clérigos, cuja principal missão era a de transmitir dogmas religiosos. Eles também eram muito importantes nas artes musicais e nas línguas clássicas como latim, grego, além de espanhol, francês e italiano.

Apenas quatro das seis esposas de Henrique VIII receberam uma educação formal: Catarina de Aragão, Ana Bolena, Ana de Cleves e Catarina Parr. Jane Seymour e Catarina Howard mal eram alfabetizadas. Catarina de Aragão era considerada uma senhora virtuosa; Ana Bolena tornou-se conhecida por seu talento musical e sua habilidade de comunicação em francês. Elizabeth I teve uma educação extraordinária e era aficcionada pela leitura.

Os maridos das senhoras bem-nascidas eram escolhidos por seus pais ou outros parentes do sexo masculino da família. Muitos poucos homens e mulheres tinham o privilégio de escolher os seus próprios parceiros. As chances de uma mulher ter um bom casamento dependia muito de sua riqueza e posição social de sua família, de sua beleza ou realizações.

Os casamentos eram arranjados por razões políticas, para cimentar alianças, juntar riquezas, terras, status, forjar laços entre duas famílias. A idéia de se casar por amor era considerada absurda e bizarra. O casamento real era feito em vista de vantagens políticas, militares e comercial. Ás vezes, acontecia do casal só se conhecer no dia do casamento.

Os monarcas faziam casamentos com princesas de outras nações para ampliar seus poderes. Mas nem sempre dominada por interesses, às vezes o amor rompia barreiras. O caso de Eduardo IV, que se casou com Elizabeth Woodville, uma plebéia, por amor, o escândalo se espalhou pela Europa. E quando seu neto Henrique VIII se casou com quatro mulheres que não eram de sangue real, tal ato passou ‘despercebido’. O que chamou mais a atenção é que Henrique se casou com a maioria de suas esposas por amor, completamente fora das regras. Alguém podia dizer que havia motivos políticos no meio de tais uniões. Dentro da corte, havia várias facções tentando se beneficiar através do casamento do seu monarca.

Normalmente, as negociações para os casamentos reais levavam anos para serem finalizados. Geralmente começavam na infância para ambas as partes. O cortejo real era composta por cartas formais, com declarações de amor e presentes simbólicos, geralmente jóias.

Na maioria dos casos, devido à grande distância entre o casal, era impossível saber a aparência antes de se casar. As pessoas tinham que se contentar com descrições e retratos. Ás vezes se tinha uma decepção ocasional, como é conhecido o caso de Ana de Cleves, quarta esposa de Henrique VIII. Quando o rei viu seu retrato, amou, mas não gostou dela ao conhecê-la pessoalmente.

Richard of Shrewsbury and Anne de Mowbray WeddingNão havia idade legal para o noivado. O casamento de crianças não era desconhecido. Este foi o caso de Ricardo de Shrewsbury, duque de York (filho de Eduardo IV), que quando tinha cerca de quatro anos casou-se com Ana de Mowbray, que tinha cinco anos. A idade usual era quatorze anos, pois a mulher já era vista como demasiada velha para se casar e uma boca para alimentar, sem nenhuma renda extra entrando na casa. Ninguém questionava a idade precoce, uma vez que a expectativa de vida de uma mulher naquela época era de trinta anos. As chances de uma mulher ter um bom casamento dependia muito de sua riqueza e posição social de sua família, de sua beleza ou realizações.

Uma vez casadas, a principal função da mulher era produzir um filho para continuar a linhagem da família. Isto era a verdade desde o rei até o camponês comum. Na Inglaterra Tudor, a gravidez e o parto eram especialmente perigosos para uma mulher, e a morte no parto não era incomum. Uma das tradições nessa época era que a esposa preparasse um novo berçário para o bebê e fazer arranjos caso ela morresse no parto. Este ato era assistido por uma ‘parteira’, sendo esta geralmente um parente ou vizinho idoso do sexo feminino, sem conhecimento médico. As complicações eram frequentes, e mesmo se o parto fosse bem sucedido a mãe ainda poderia ser vítima de doenças devido à falta de higiene durante o parto. A mais famosa vítima Tudor de morte pós-parto é Jane Seymour, que morreu após dar à luz a Eduardo VI.

O modo como as mulheres se vestiam também eram estritamente controlados. As mulheres casadas não podiam usar o cabelo solto. Elas tinham que esconder seus cabelos sob um véu ou um capuz. As rainhas podiam usar os cabelos soltos em ocasiões de Estados, mas isso só era tolerado se elas usassem uma coroa. O cabelo de Ana Bolena era longo o suficiente para que ela pudesse se sentar nele – mas apesar de sua natureza forte, ela fez o esperado e escondia o seu cabelo, após o seu casamento com Henrique VIII.

Os vestidos, claro, cobriam quase tudo. As mangas iam até os punhos, e os vestidos de verão iam até o chão. Os espartilhos eram comuns, e um decote era considerado aceitável. Para as rainhas, os vestidos cerimoniais eram bonitos para quem olhasse, mas eram volumosos e pesados, geralmente incrustados com pedras preciosas. Usados em noites quentes, os vestidos deveriam ser bem desconfortáveis. As roupas eram feitas de lã ou de linho. Só as mulheres ricas podiam comprar algodão e seda.

A maioria das mulheres usavam capelos ou chapéus. Foi Ana Bolena que introduziu a moda do capelo francês na Inglaterra. Também era moda para as mulheres terem a pele pálida (se você fosse mais morena isso mostrava que você era pobre, pois tinha que trabalhar no sol quente). As mulheres deixavam seus lábios e bochechas avermelhados com chochonilha, um corante feito a partir de besouros triturados.

A partir do século 14 e até meados do século 17 havia leis para prever o que cada classe poderia ou não usar, de modo que só as pessoas de determinadas categorias pudessem usar determinados tipos de materiais em suas roupas. Isso era para que as pessoas pudessem ser facilmente reconhecidas pelas suas roupas, mas as leis se provaram ineficazes, uma vez que as pessoas simplesmente a ignoravam.

A lei dava ao marido plenos direitos sobre sua esposa. Ela se tornavam efetivamente sua propriedade. Uma mulher que cometesse adultério poderia ser queimada na fogueira, se a rainha/rei concordasse. A mulher que matasse o marido também era queimada na fogueira. Se a esposa apanhasse do marido, a lógica era de que a esposa teria provocado a briga e o marido não a teria agredido se ela não tivesse provocado. Portanto, ela era a responsável. Em teoria, uma mulher podia sair do casamento, mas para quê? Quem ficaria com ela, quem iria se casar com ela? Portanto, as mulheres tinham de permanecer no casamento, mesmo se fosse algo brutal, havia poucas coisas a se fazer.

As profissões eram fechadas para as mulheres (médicos, advogados e professores sempre eram do sexo masculino) e o emprego feminino era muitas vezes braçal e mal pago. No entanto, as mulheres eram autorizadas a participar de algumas guildas (organização de comerciantes e trabalhadores qualificados).
Em 1562, uma lei tornou ilegal empregar um homem ou uma mulher em um comércio a menos que tenha servido de aprendiz por sete anos. No entanto, no caso das mulheres, a lei muitas vezes não era aplicada. Muitas vezes, as guildas permitiam que os membros do sexo masculino empregasse sua esposa ou filhas. Além disso, se um artesão morresse, sua viúva muitas vezes trabalhavam em seu lugar.

Algumas mulheres trabalhavam na preparação de alimentos (na padaria, confeitaria ou fazendo cervejas), ou como chapeleiras, sapateiras, bordadeiras, lavadeiras. Muitas vezes, a esposa de um comerciante fazia suas contas se ele estava viajando e cuidava dos negócios. Se ele morresse, provavelmente deixaria seu negócio para ela – porque ela seria capaz de executá-lo.

No século 16 a maioria das famílias no meio rural eram praticamente auto-suficientes. Uma dona de casa tinha de cozinhar o pão e fermentar a cerveja (pois não era considerado seguro beber água), além de ser responsável pela cura do bacon, salgar a carne, fazer picles, geléias e compotas. Elas também faziam velas e sabão. A esposa de um fazendeiro também ordenhava as vacas, alimentava os animais, cuidava das ervas e legumes. As donas de casa também tinham de ter algum conhecimento sobre medicina e ser capaz de tratar de doenças da sua família, pois só os ricos podiam comprar um médico.

O uso de cosméticos ou maquiagem era desaprovada em alguns pontos da história, mas as mulheres ricas e nobres da era Tudor usavam maquiagem como uma indicação de seu status e classe social. A maquiagem também tinha o senso prático de esconder cicatrizes de várias doenças, como varíola, por isso a maquiagem pesada não era moda durante o reinado de Henrique VIII. Os perfumes eram populares junto com os cremes e pomadas para amaciar a pele.

Embora era dito naquela época que mulheres não tinham alma, muitas mulheres independentes no século 16 tinham firmes convicções sobre a religião. Algumas delas foram martirizadas. No reinado da rainha Maria, que era católica e perseguia os protestantes, 56 mulheres foram queimadas por suas crenças.

Elizabeth I era protestante, e durante o seu reinado você poderia ser enforcado se abrigasse um padre católico. Várias mulheres, como Anne Line, Margaret Clitheroe e Margaret Ward foram enforcadas por ajudar padres católicos ou ajudá-los a fugir da prisão.

Bibliografia:
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘La vida de las mujeres en la Inglaterra Tudor‘. Acesso em 7 de maio de 2011.
LAMBERT, Tim. ‘Life for women in Tudor Times‘. Acesso em 7 de maio de 2011.