Documentário ‘Maria I – A primeira Rainha Virgem’ (2002)

Esse é um dos poucos documentários feitos especificamente sobre Maria Tudor, a primeira monarca reinante da Inglaterra. Feito por David Starkey em 2002, curiosamente foi divulgado como “Bloody Mary” – Maria Sanguinária, quando na verdade o nome do documentário é “Mary I: The First Virgin Queen”, ou seja: Maria I, a Primeira Rainha Virgem. Mais uma vez, apesar de diversas revisões, o texto ainda ficou com diversos erros de português, mas acredito que é melhor do que nada rsrsrs.

O documentário é na verdade a primeira de duas partes de uma série de Starkey, chamada ‘Edward and Mary: The Unknown Tudors’. Infelizmente não poderei traduzir a parte de Eduardo VI, pois ainda não encontrei legendas na internet. Quando ao título do documentário, ‘A Primeira Rainha Virgem’, faz alusão ao fato de que Maria, até o período de seu casamento, declarou-se como Rainha Virgem e foi fonte de muitos discursos que mais tarde seriam re-utilizados por Elizabeth I, que consagrou-se como ‘Rainha Virgem’.

Link alternativo.

 

Anúncios

Como era a relação de Elizabeth e Maria Tudor?

Elizabeth e Maria

O fato de Elizabeth ser filha de Ana Bolena não impediu que ela e Maria tivessem uma relação amigável, embora elas raramente se vissem durante o reinado de Eduardo VI. Apesar de que Maria se via como a única herdeira legítima do rei Henrique VIII, e que tinha sido obrigada a servir Elizabeth como forma de castigo por não aceitar que o casamento de sua mãe, Catarina de Aragão, com o seu pai tinha sido ilegal e portanto inválido (e ela, por consequência, uma bastarda), Maria aparentemente gostava de Elizabeth. Em 1536, logo após a queda de Ana Bolena, quando Maria tinha 20 anos e Elizabeth 3, ela escreveu:

Minha irmã Elizabeth está em boa saúda, e eu não duvido essa criança dará a Sua Alteza motivos para se alegrar com o tempo.

É possível que a atitude bondosa de Maria com Elizabeth era devido ao fato de que ambas eram ilegítimas, mas uma vez que Maria sempre se considerou legítima por direito e Elizabeth ilegítima, isso é improvável. É mais provável que Maria, tendo tido o prazer de ter crescido ao lado de sua mãe durante sua infância, tenha sentido pena de Elizabeth por ter sua mãe executada tão cedo – mesmo sendo uma mulher que ela detestava; considerando também que ambas eram órfãs de mãe. Também é necessário levar em consideração que Maria, como parte da família real e como mulher renascentista, já estava na idade de se casar e ter filhos, e como não havia previsão para nenhuma das duas coisas acontecerem, também podemos pensar que Elizabeth possa ter preenchido um vazio que Maria estava sentindo.

Em 1537, tanto Maria quanto Elizabeth foram ao batizado de Eduardo VI, e foi registrado que Maria, além de ter sido bondosa com seu novo irmão, saiu da Capela Real de Hampton Court segurando a mão de Elizabeth. Tracy Borman, em seu livro “Elizabeth’s Women: The Hidden Story of the Virgin Queen”, descreve que enquando Lady Bryan, a governanta dos filhos de Henrique VIII, se concentrava em cuidar do bebê Eduardo, Maria supervisionava as lições de Elizabeth, dava-lhe presentes e dinheiro e ensinava-lhe jogos – mesmo depois de adulta e rainha, foi registrado que Maria adorava dar presente para as pessoas e jogar, ficando sempre endividada.

O relacionamento de ambas começou a deteriorar quando Elizabeth atingiu a adolescência. Aos 13 anos, a confiança e independência de espírito de Elizabeth já era contrastante com a natureza reservada e depressiva de Maria, de 30. O comportamento das duas só ficou mais contrastante com o tempo: em 1553, quando Maria Tudor tinha 37 anos e subiu ao trono, ela convidou Elizabeth, de 20 anos, para ir para Londres com ela em uma procissão. Tracy Borman escreve que,

mary e elizabeth

“A naturalmente introspectiva e sem a capacidade e charme de seu pai para encantar as multidões, Maria foi através da procissão respondendo desajeitadamente os seus elogios e parecendo distante ou indiferente. Quando um grupo de crianças pobres cantou um verso em sua honra, notou-se com desaprovação que ela “não disse nada em resposta”. Elizabeth, por outro lado, que tinha herdado o dom de Henrique VIII para relações públicas, atraiu muita atenção da multidão enquanto graciosamente inclinava sua cabeça e acenava com as mãos, fazendo com que todos os membros da multidão sentissem que ela os estava saudando pessoalmente”.

O relacionamento das meia-irmãs continuou bom até 1554. Embora logo no início de seu reinado Maria tenha declarado Elizabeth ilegítima de novo, isso era apenas uma ação diplomática que não deve ser interpretada como uma afronta pessoal. Também foi alegado diversas vezes que Maria acusava de anunciar publicamente que Elizabeth não era filha de seu pai, Henrique VIII, mas sim de Mark Smeaton, o músico da corte que foi condenado por adultério junto com Ana Bolena. Essas alegações não parecem ter validade. David Loades acredita que elas sejam o produto de convervas diplomáticas, e pelo menos oficialmente, Maria nunca disse isso publicamente, mesmo que esse fosse ou não o seu ponto de vista. Independente do que foi dito ou não, o embaixador veneziano comentou que Elizabeth se orgulhava de ser filha de Henrique VIII e que dizia a todos que parecia mais com ele do que a Rainha.

Após ficar pouco tempo na corte de sua irmã, Elizabeth voltou para sua mansão em Hatfield. Não se sabe o motivo, mas Elizabeth era o foco de todos os protestantes e corria perigo de ser implicada em uma conspiração para derrubar sua meia-irmã católica. O fracasso de converter Elizabeth à fé católica a deixava em um perigo maior, e em 18 de março de 1554 Elizabeth foi presa na Torre de Londres por 8 semanas depois de ter sido implicada na Rebelião de Wyatt. Também não podemos ver as ações de Maria como imperdoáveis – a participação de Elizabeth nessa rebelião é questionada até hoje, e enviar uma traidora à Torre não era um ato excepcional, mesmo que se tratasse de sua irmã.

Após ter sido libertada, Elizabeth teve que demonstrar sua conformidade exterior com a nova religião católica, embora ela tenha assegurado que isso seria um processo lento e insistido que não conhecia nenhuma outra religião além daquela que ela tinha sido instruída.  Elizabeth voltou para Hatfield, e lá ficou até em 1558, quando lhe foi comunicado que sua irmã, Maria havia morrido. Acredita-se que ao ficar sabendo ela disse: “Isto é obra do Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos”.

Quarenta e cinco anos depois, Elizabeth morreu e foi enterrada na Abadia de Westminster. Seu caixão foi colocado em cima de Maria. Aqueles que visitam o túmulo encontram a inscrição em latim:

maria e elizabeth rainhas

“Parceiras, tanto no trono quanto na sepultura, descansamos aqui as duas irmãs, Elizabeth e Maria, na esperança da Ressurreição”.

É fácil achar isso engraçado – é óbvio que as duas irmãs teriam que considerar esse arranjo, e também é simples concluir que as irmãs só foram parceiras em terem um trono e uma sepultura em comum. Mas apesar da tentativa de apresentar as duas como dois opostos polares, as irmãs tinham mais em comum dos que nós (e elas talvez) gostariam de admitir: ambos eram corajosas e implacáveis, sendo pioneiras quando tiveram que lutar pelo seu trono.

Bibliografia:
PORTER, Linda. Mary Tudor: The First Queen. Piatkus, 2009.
BORMAN, Tracy. Elizabeth’s Women: The Hidden Story of the Virgin Queen. Indiana University, 2009.
Elizabeth and Bloody Mary. Acesso em 7 de Junho de 2015.
There were never such devoted sisters: Mary and Elizabeth. Acesso em 7 de Junho de 2015.