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A imagem de Ana Bolena poderia representar a Rainha Philippa de Hainault?

Quase todos os anos, surgem rumores de uma possível imagem de Ana Bolena em algum lugar. No ano passado, foi Ebay, e esse ano parece que pesquisaram mais fundo: essa semana, o historiador da arte Roland Hui publicou em seu blog um artigo sobre uma imagem de 1534, em que a imagem da Rainha Ana Bolena poderia ter sido usada para representar  Philippa de Hainault, esposa de Eduardo III.

Feito em 1534, o Black Book of the Garter é um dos grandes tesouros do Castelo de Windsor, e contém a história, regulamentos e cerimônias dos ilustres Cavaleiros da Ordem de Jarreteira, fundada pelo rei Eduardo IIII em 1348. O livro é atribuído ao artista flamengo Lucas Horenbout, ativo na corte inglesa entre 1520 e 1540.

Uma vez que o livro foi concebido no reinado de Henrique VIII, ele tem mais destaque na publicação do que Eduardo III. Ele é mostrado duas vezes com seus Cavaleiros da Jarreteira, e depois é mostrado sozinho em oração. Não apenas Henrique, como soberano, tinha o maior cargo da ordem, mas ele também era marido de Ana Bolena.

E, na vigésima página do livro, uma senhora coroada e com um cetro está sentada e cercada por cortesãos. Atrás dela estão seis mulheres e um cavaleiro. O texto que a acompanha identifica-a como Rainha Consorte e ajuda a presidir a reunião da Ordem. A Rainha em questão é Philippa de Hainault, esposa de Eduardo III. No entanto, tanto ela quanto Eduardo viveram no século 14, e essas não eram as roupas daquela época: Philippa está vestida com roupas da corte de Henrique VIII, e em seu pescoço é possível ver um cordão escrito A.R – que nesse período, era reconhecido como Ana Regina, Rainha Ana. Cinco das damas atrás da Rainha estão usando capelos franceses arredondados, enquanto uma senhora à esquerda usa um capelo inglês. A Rainha também usa um capelo inglês com uma coroa, além de vestido de pano de ouro. A faixa ruiva que pode ser vista na borda do capelo não é seu cabelo – é apenas uma faixa que era usada como parte dos enfeites do capelo.

Para Hui, ao ‘atualizar’ Eduardo III, Philippa e sua corte para o século 16, Horenboult seguia uma convenção artística de contemporizar o passado (como é visto em diversas obras de arte da Idade Média e do Renascimento, em que as figuras bíblicas e históricas são mostrados com roupas modernas). Além disso, é possível que ele estivesse criando um cenário em que ele pagasse um tributo á atual Rainha, imaginando-a no lugar de Philippa. No entanto, diferentemente do século 14, no século as 15 mulheres já não participavam dos rituais da Ordem de Jarreteira. Apesar disso, a presença da Rainha ainda era importante o suficiente para ser colocada no Livro.

Talvez a representação de Ana como Philippa também fosse um lembrete: ela e Eduardo tiveram treze filhos, dos quais cinco filhos sobreviveram até a idade adulta (no entanto, a rivalidade proveniente de descendentes numerosos acabou levando a conhecida Guerra das Rosas). O primeiro filho deles, Eduardo, nasceu dois anos após o casamento dos seus pais. Acredita-se que Ana Bolena e Henrique VIII se casaram em 1533, um ano antes desse livro ser feito.

Curiosamente, no final da sua vida Eduardo III foi muito criticado por ter sido muito influenciado por sua amante, Alice Perrers – ela era uma dama de companhia de sua esposa. Ela se tornou amante dele aos 15 anos (ele tinha 52), seis anos antes de Philippa morrer de hidropisia, em 1369. Até a morte da rainha, sua relação era extremamente secreta e velada. No final do reinado de Edward, Alice foi acusada de tornar a sua vida uma miséria e de atraí-lo com seus encantos apenas para promover suas próprias ambições pessoais.

Philippa foi descrita pelo cronista Jean Froissat por ser “a Rainha mais gentil, mais liberal e mais cortês que existiu em seus dias”, sendo lembrada por ser misericordiosa – ela era lembrada por ter implorado a seu marido, Eduardo III, para poupar a vida dos burgueses de Calais, além de ser padroeira da aprendizagem. O Queen’s College, de Oxford, foi fundado em sua honra.

Henrique V e Henrique VIII representados no Livro. Existe grandes semelhanças.

Mas se Ana Bolena era Philippa no Livro, então Henrique VIII era Eduardo VIII? O historiador acredita que não: o livro contém imagens clássicas de Eduardo III, enquanto a de Henrique V claramente representa Henrique VIII: embora seja elogiado como ‘um dos príncipes mais invencíveis que já sentou no trono inglês’, Eduardo também perdeu seus territórios na França e lamentou a sua sucessão por Eduardo, o Príncipe Negro. Já Henrique V é exaltado como ‘o maior príncipe invencível’ e ‘o melhor em todos os tipos de virtudes‘. Henrique V morreu jovem, aos 36 anos, deixando um legado bem-sucedido de conquistas marciais que Henrique VIII, então com – anos, estava ansioso para seguir.

Embora o rosto de outros personagens estejam bem claros e destinados a retratar pessoas reais, o rosto de Philippa é reconhecidamente decepcionante em sua suavidade: evidentemente, Horenboult estava mais interessado em apresentá-la como um ícone idealizado de majestade. A mulher tem um rosto longo e ovel com um queixo pontudo, características comparáveis as descrições de Ana Bolena.

Embora tivesse sofrido um aborto naquele ano, em 1534 Ana ainda estava nas graças do rei: ela foi celebrada na medalha conhecida como “A mais Feliz”, e de acordo com Hui, ainda foi incluída neste livro como representante da Rainha Philippa. Uma vez que existem poucos e misteriosos retratos de Ana, caso seja reconhecido que essa imagem realmente representa Ana, essa seria a única imagem, além da medalha de 1534, feitos  quando ela ainda estava viva.

Bibliografia:
ABERNETHY, Susan. Philippa of Hainault, Queen of England. Acesso em 26 de Abril de 2017.
CONNOLLY, Sharon Bennet. Alice Perrers, Mistress of the King. Acesso em 26 de Abril de 2017.
HUI, Roland. Anne Boleyn as ‘The Lady of the Garter’. Acesso em 26 de Abril de 2017.

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Margot Robbie poderá interpretar Elizabeth I no filme “Mary”, com Saoirse Ronan

Há anos existem rumores de que Saoirse Ronan interpretaria Maria Stuart em uma adaptação cinematográfica. Agora, surgiram rumores de que Margot Robbie estaria em negociações para interpretar Elizabeth I na mesma produção!

De acordo com o site Variety, Margot está em negociação com a Focus Features, com Josie Rourke dirigindo o filme que terá a produção de Tim Bevan, Eric Fellner e Deborah Hayward.

Beau Willimon, criador de House of Cards, está escrevendo um script original baseado no livro de John Guy, “The True Life of Mary Stuart”. O filme, que supostamente se chamará “Mary”, deverá começar a ser filmado no final deste ano.

Aos 26 anos, a australiana Margot alcançou maior sucesso e reconhecimento após interpretar a Arlequina no filme “Esquadrão Suicida” e “O Lobo de Wall Street”. Em comparação, Saoirse, de 23 anos, ganhou destaque internacional aos 13 anos após co-estrelar o filme ‘Desejo e Reparação’.

Fonte: Variety

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18 de Abril de 1536: Eustace Chapuys reconhece Ana Bolena

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Desde 1529, o espanhol Eustace Chapuys estava na corte inglesa. Ele era o Embaixador Imperial na Inglaterra, leal a Catarina de Aragão. Quando o rei iniciou um processo de divórcio, Chapuys compreensivelmente permaneceu fiel à filha da Espanha – em seus escritos, o embaixador se refere ao novo amor de Henrique, Ana Bolena, como Concubina, uma vez que ele se recusava a reconhecer Ana Bolena como esposa de Henrique e muito menos como rainha da Inglaterra. Isso nos dá uma idéia de como a corte era grande e cheia de gente: apesar de ter se casado com o rei em 1533, e Chapuys sempre enviar relatórios detalhando todos os acontecimentos da corte, ele e Ana Bolena nunca haviam se encontrado.

No entanto, em 18 de Abril de 1536, Ana Bolena e sua facção tiveram uma pequena vitória: eles conseguiram arranjar um encontro entre o embaixador e Ana na Capela do Palácio de Greenwich. Como podemos ler abaixo em sua carta, Chapuys já havia dito a Thomas Cromwell que não queria ver Ana, pois ele seria obrigado a beijá-la e se curvar perante dela, o que seria um sinal de reconhecimento de seu status.

“Antes que o rei saísse para a missa, Cromwell me procurou para perguntar se eu não iria visitar e beijar a Concubina, o que seria um prazer para este Rei; no entanto, ele deixou [a escolha] para mim. Disse-lhe que por muito tempo a minha vontade tinha sido escrava do Rei, e que para servi-lo bastava me comandar; mas que eu pensava, por várias razões, e que eu diria ao rei outra vez, que essa visita não seria aconselhável, e implorei a Cromwell para pedir desculpas, e para dissuadir a referida visita, para não estragar as coisas.

Eu fui conduzido à missa pelo senhor Rochford, irmão da Concubina, e quando foi a hora da oferenda muitas pessoas se aproximaram do Rei, por curiosidade, e desejando, sem dúvida, saber que tipo de comportamento a concubina e eu deveríamos demonstrar. Devo dizer que ela foi suficientemente afável na ocasião, pois eu fui colocado atrás da porta pela qual ela entrou na capela, e ela se virou para retribuir a reverência que eu fiz quando ela passou”.

A ironia é que Ana estava mais vulnerável do que nunca e, como sabemos, seria executada no mês seguinte: o afeto de Henrique tinha diminuído muito, e ele já estava enamorado com Jane Seymour. Já há algum tempo Chapuys parecia resignado com o fato de que, em algum momento, ele teria que se encontrar com Ana Bolena e reconhecê-la como Rainha e, da mesma forma, Ana precisava reconhecer Chapuys como seu embaixador, de forma que reconheceria Carlos V como Imperador. Acredita-se que tanto Chapuys como Thomas Cromwell estavam trabalhando juntos para aproximar os dois monarcas, em uma tentativa de curar os estragos causados pelo divórcio de Henrique: Catarina de Aragão já havia falecido, e Carlos estava disposto a reconhecer o casamento de Henrique.

O ator Mathieu Amalric interpreta Eustace Chapuys na série Wolf Hall.

O ator Mathieu Amalric interpreta Eustace Chapuys na série Wolf Hall.

Ao contrário do que muitos pensam, Chapuys não detestava toda a família Bolena: seus relatórios mencionam jantares privados com Thomas e George, pai e irmão de Ana, e ele não se incomodou com seu encontro com George antes da missa: ele só notou que o rei estava excessivamente entusiasmado, o que fez com que Chapuys ficasse em alerta. Além disso, ele também descreve em seu relatório que Ana foi ‘afável’ por tê-lo colocado perto da porta, de forma que eles não trocaram nem uma palavra: ela apenas retribuiu a sua reverência. Isso foi importante para ambos os lados: após o acontecido, Chapuys jantou com George e Thomas Bolena, junto de outros conselheiros, embora Ana também tivesse expressado o desejo de jantar com Chapuys. Ela também fez graça do Embaixador francês, algo que Chapuys também fazia.

Em sua próxima carta, Chapuys descreveu que Maria, a filha de Henrique, ficou ‘enciumada’ com o fato de Chapuys ter se curvado para Ana, embora ele tenha protestado que não tivesse beijado sua mão e nem falado com ela.

“Embora eu não tenha beijado e nem falado com a Concubina, a Princesa e outras boas pessoas ficaram com um certo ciúmes das reverências mútuas que a cortesia requeria e a qual eu fiz na Igreja. Recusei-me a visitá-la até eu ter falado com o Rei. Se eu tivesse visto alguma esperança na resposta do Rei, eu teria oferecido não duas mas 100 velas para aquela mulher diabólica, embora outra coisa me tenha deixado indisposto; que me disseram que ela não estava nas graças do Rei. Além disso, Cromwell era da opinião de que eu deveria esperar até falar com o Rei.”

Á luz dos eventos, Cromwell aconselhou Chapuys que não visitasse Ana, mas que lhe desse presentes ou oferecesse velas: o rei já tinha conseguido forçar o seu reconhecimento e nenhuma outra cortesia a Ana era necessária. Apesar da história de Ana Bolena ter sido adaptada para televisão, a única série que recriou essa cena história foi Wolf Hall, onde a justificativa para o rei ter participado dessa brincadeira com o Embaixador é a mesma que alguns historiadores têm pontuado: Henrique realizou o seu objetivo de ter o seu segundo casamento reconhecido e, assim, poderia abandoná-lo quando quisesse.

Um mês depois, Ana Bolena foi executada, e a descrição final de Chapuys é um testemunho do tipo de mulher que ela era: “Ninguém jamais demonstrou mais coragem ou mais prontidão para encontrar a morte do que ela”.

Bibliografia:
MASON, Emma. Did Eustace Chapuys really despise Anne Boleyn?. Acesso em 20 de Janeiro de 2017.
BRYAN, Lissa. Anne Boleyn’s Final, Small, Strange Victory. Acesso em 20 de Janeiro de 2017.
On this day in 1536 – Eustace Chapuys bowed to Anne Boleyn. Acesso em 20 de Janeiro de 2017.

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Foto da Semana #314

Joanne Whalley como Catarina de Aragão na série Wolf Hall em 2015.

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Alison Weir lançará novo livro sobre Ana Bolena em 18 de Maio

Alison Weir é uma das mais conhecidas historiadoras do Reino Unido, vendendo mais de 2,7 milhões de livros no mundo todo. Mais conhecida por seus livros Tudor; Weir já publicou 17 livros de não-ficção sobre esse período e 5 romances históricos – nenhum deles foi publicado no Brasil até hoje.

No dia 18 de Maio, a autora estará lançando oficialmente seu mais novo livro sobre Ana Bolena: “Anne Boleyn: A king’s Obsession”. O evento acontecerá Hever Castle, casa de infância de Ana Bolena e os ingressos custam 18 libras, com uma recepção com bebidas, conversa e perguntas e autógrafo do livro. O livro já está disponível para compra em pré-venda por U$18,30 dólares na Amazon.

O livro faz parte da série de romances Six Tudor Queens, sendo o segundo volume. O primeiro, “Katherine of Aragon: The True Queen” foi lançado no dia 31 de Maio do ano passado.

Fonte: Hever Castle

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Foto da Semana #313

Lily Lesser como a princesa Maria Tudor na série Wolf Hall, em 2015.

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