Ana de Cleves, a “cavala” ?

 Ana de Cleves, artista desconhecido.Ana de Cleves foi escolhida como uma noiva adequada para Henrique VIII porque Thomas Cromwell, ministro-chefe, viu benefício na criação de laços com a família de Cleves. A Inglaterra precisava de um aliado forte, e Ana era relacionada com John Frederick da Saxônia (ele era seu cunhado) e era filha do duque de Cleves.
Embora Ana de Cleves fosse passar a sua história reconhecida como Flanders Mare (cavalo bélgico apreciado em guerras pelo seu tamanho enorme e força bruta, além de terem uma cor tipicamente escura) parece que foi só Henrique VIII que a considerou feia.

Em janeiro de 1539, Henrique VIII enviou Christopher Mont, um membro da família de Thomas Cromwell, como embaixador na Alemanha para discutir um possível casamento entre a princesa Maria e William, irmão de Ana de Cleves. Embora há relatos que ele não esteve realmente lá, é dito que ele reportou que “todo mundo elogiava a beleza da mulher, tando de rosto como de corpo. Um deles disse que ela superou a duquesa de Milão, como sol dourado faz com a lua de prata”.

Em contrapartida, o embaixador francês Marillac descreve Ana como “não tão jovem quanto se era esperado, nem tão bonita quanto os outros afirmam”, mas ela tinha “vivacidade de espírito, e na festa era a mais bonita das mulheres”.

Em março de 1539, Henrique enviou um embaixador para Cleves para obter relatórios sobre Ana e seu retrato, mas o embaixador encontrou dificuldades, uma vez que Ana e sua irmã insistiam em manter os rostos cobertos. No verão de 1539, Henrique enviou o seu pintor da corte, Hans Holbein. Apesar de não sabermos o que Henrique pensou de Ana em seu retrato, temos de concluir que ele gostou do que viu, uma vez que ele mandou continuar com as negociações. Porque então o rei teve uma antipatia imediata ao encontrar sua noiva pela primeira vez em Rochester, no Ano Novo de 1540?

A minha opinião é que Henrique foi humilhado e envergonhado no seu primeiro encontro, que tinha sido um desastre completo. Sempre romântico, Henrique decidiu fazer uma surpresa à Ana, disfarçando-se e interceptando-a no seu caminho a Londres. Isso era um tipo de tradição, e supostamente a noiva não iria ver quem ele era mesmo com o disfarce, e eles se apaixonariam mesmo assim à primeira vista e viveriam felizes para sempre. Infelizmente, Ana não conhecia essa tradição, e não reconheceu Henrique e ficou chocada e assustada quando ele tentou abraçá-la. Se fosse qualquer outro homem, ela teria agido de forma totalmente adequada, mas, infelizmente, era o rei.

Ana de Cleves, feito por Barthel Bruyn, em 1530.“Ela não falava muito inglês; ele não falava muito alemão. Isso adicionaria um tempero ao namoro. Um amante experiente como ele não precisava de palavras para conseguir o que queria de uma mulher. Ele riu, pensando nos prazeres futuros.

Quando chegou a Rochester, acompanhado por dois de seus atendentes, Henrique seguiu direto para a alcova de Ana. Diante da porta ele parou, horrorizado. A mulher que fez mesura diante dele não se parecia nem um pouco com a noiva que ele vinha idealizando. Era e não era o mesmo rosto que ele vira na pintura em miniatura. Tinha a fronte larga e alta, olhos escuros, cílios grossos, sobrancelhas escuras e muito marcadas. Seus cabelos negros estavam partidos no centro e escorriam pelos lados de seu rosto. O vestido não lhe caía bem, com um colarinho alto e rijo, que lembrava um casaco de homem. Tinha o corpo parrudo ao estilo das flamengas, e desde que Ana Bolena chegara á corte, os ingleses tinham adotado o gosto francês por corpos femininos. Enquanto o rosto na miniatura tinha a coloração delicada de uma pétala de rosa, o rosto verdadeiro de Ana era acastanhado e marcado por sardas. Henrique achou-a muito feia, e como não lhe ocorreu que sua pessoa provocou um efeito semelhante nela, ficou mudo de raiva.”

(PLAIDY, 2000, pág. 456)

Na manhã após sua noite de núpcias, Henrique deixou claro que ele não gostara de Ana, e que ela tinha “muito mal cheiro”. Um comentário bastante hipócrita vindo de um homem com uma úlcera na perna que, segundo relatos, dava para sentir o cheiro do outro lado do corredor. Talvez Ana só sofresse de odores corporais ou usasse um perfume que Henrique não gostasse. Ana provavelmente não era muito magra e Henrique disse: “Eu sou uma pessoa grande e não preciso de uma mulher grande”. Além disso, ele reclamou da “frouxidão de seus seios”.

David Starkey escreve que Henrique discutiu o assunto com seus médicos. Nas consultas, ele descreve que “ele encontrou o corpo desnorteado de tal forma que era impedido de se excitar ou provocar qualquer desejo”. Além de antipatia, isso também pode mostrar impotência em Henrique. Será que ele estava somente cobrindo o seu fracasso? Contra isso, Henrique argumentou que ele tinha tido sonhos molhados e que “era capaz de fazer o ato com outra, mas não com ela”.

Parece que Ana não tinha nenhum conhecimento sexual. Em uma conversa com Lady Rochford, Ana revelou que só dormia ao lado do rei e “ao vir para a cama, ele me beija e diz ‘boa noite, meu amor’, e de manhã, ele me beija de novo e diz ‘Adeus, querida’. Isso não é suficiente?” Lady Rochford respondeu: “Senhora, é preciso mais do que isso para que tenhamos um novo herdeiro”.

Alguns, entretanto, argumentam que Ana pode não ter sido tão ingênua como é sugerido nesta conversa e que ela estava somente “tentando manter as aparências”, ou até mesmo tentando proteger o seu marido.

 Ana de Cleves, feito por Barthel Bruyn, em 1530.Embora Alison Weir escreva que a filha de Henrique VIII, Maria ficou “a princípio consternada de saber que seu pai estava se casando com uma herege luterana”, e como Maria foi “parcialmente responsável pela conversão de Ana à fé católica“, não se têm muita certeza que Ana de Cleves era uma protestante convicta. Elizabeth Norton, em sua biografia de Ana, aponta que a educação religiosa de Ana foi controlada pela sua mãe, uma católica devota, e que seu pai, embora “influenciado pela reforma religiosa” foi humanista, ao invés de luterano, “permanecendo na perspectiva de um católico, apesar de ‘reformado'”. Mais tarde, em seu livro, Norton continua a dizer que “a ausência de qualquer referência à sua religião durante o reinado de Eduardo sugere que ela era conformada com a nova fé”, mas que, nos primeiros anos do reinado de Maria I, ela assistia as missas e que “não há evidência de que Ana nunca realmente aderiu ao protestantismo e morreu como uma católica”.

Ana talvez simplesmente fazia o que podia para sobreviver, como alguém sentado no muro.
É muito comentado que Ana não tinha sendo de vestimenta na época. Norton lembra que “Ana tinha crescido vestindo saias rodadas e pesadas, populares na Alemanha e nos Países Baixos”. Como você pode ver no retrato de Holbein, seu capelo também era muito diferente do inglês, usado por Jane Seymour, e o francês, usado por Ana Bolena.

Apesar de Ana de Cleves ter se tornado popular rapidamente com o povo inglês e eles acharem que o casamento era feliz, Henrique VIII não era um homem feliz. Thomas Cromwell, o homem que orquestrou o casamento, era o homem a pagar por isso. Ele tinha inimigos no Conselho do Rei, e o fracasso com o casamento de Cleves foi o momento certo para seus inimigos, Gardiner e Norfolk, se livrarem dele. Em 10 de junho de 1540, em uma reunião do conselho, Cromwell foi preso por traição e, posteriormente, executado em 28 de julho de 1540.

Nesse meio tempo, Ana percebeu que havia algo errado. Ela foi movida para o Palácio de Richmond, e havia rumores de que seu marido estava substituindo-a por uma de suas damas de companhia. Ao saber o que havia acontecido com Ana Bolena, Ana de Cleves deve ter ficado muito preocupada.

Ana de Cleves, por artista desconhecido.Henrique fingiu que seu casamento estava sendo investigado porque estava preocupado com o a sucessão, e rapidamente, em 7 de julho de 1540, uma convocação do clero concordou que eles não eram “presos ao casamento“. A anulação do casamento deles teve três evidências:

  • O noivado entre Ana e Francisco de Lorena: Ana foi noiva de Francis, herdeiro do Duque de Lorraine em 1527, mas com a morte do pai de Ana, o irmão dela quebrou o compromisso, pois se recusou a dar o território de Guelders ao duque. Henrique estava tentando se esquivar de Ana, mas o irmão de Ana garantiu aos embaixadores que o noivado havia sido abandonado muitos anos antes e que Ana estava livre para se casar.
  • Falta do consentimento de Henrique ao casamento
  • Falta da consumação.

Mensageiros foram então enviados para casa de Ana para que ela concordasse com a anulação do casamento. Aparentemente, Ana estava tão assustada que desmaiou. Ela temia o que acontecesse a ela se recusasse o pedido do rei, então ela aceitou a anulação assinando “Ana, a filha de Cleves”, ao invés de “Ana, a Rainha”. Henrique deve ter ficado feliz de ela ter sido submissa, e lhe escreveu de volta dirigindo-se a ela como “queria irmã direta e indireta, inteiramente amada”, agradecendo-a e informando-a de que ele tinha a intenção de lhe dar £4000 por ano, e casas em Richmond e Blechinglegh (hoje, Bletchingley). Ana foi recompensada também com jóias, tapeçarias, móveis e outras casas em Lewes e Hever Castle, a casa da família Bolena.

Tudo isso vigoraria enquanto lady Ana vivesse, com uma única condição – de que ela não passasse “para além-mar”: em vez disso, seria naturalizada como súdita do rei e levaria uma vida nova, próspera e feliz como a “boa irmã” adotada pelo rei Henrique VIII. Essa condição era, naturalmente, essencial para a limitação dos danos no que se referia a Cleves: os ingleses não podiam ter uma lady Ana descontente em liberdade, para provocar problemas no exterior. Em vez disso, como súdita inglesa, ela era como qualquer outra, dedicada “inteiramente a Nós [o rei], para ficar e continuar conosco (…) para que Nós possamos dispor dela em nosso reino”. Outra princesa estrangeira de nascimento, Catarina de Aragão, alegara com veemência que não era súdita do rei se o seu casamento fosse nulo; o que provavelmente explicava o cuidado tomado quanto a esse detalhe com lady Ana.

Apesar da maioria dos historiadores acreditar que ela era feliz, Norton escreve que:

“Apesar da sua aquiescência, Ana sempre acreditou ser a esposa legítima do rei e rainha verdadeira. Apesar disso, ela queria, antes de tudo, sobreviver, e se o preço dessa sobrevivência fosse uma negação do seu verdadeiro estado em troca de uma vida com uma gorda aposentadoria, ela estava preparada para jogar, mesmo que isso significasse aceitar um novo status, mais inferior do que a da sua ex-dama de companhia, a rainha Catarina Howard”.

Ana de Cleves, feito por Barthel Bruyn, em 1540.Ana de Cleves conseguiu sair de seu casamento de Henrique com a cabeça erguida (e ligada ao pescoço, um grande feito), bens, dinheiro e o título de “irmã do rei”. Ela teve um bom relacionamento com o rei, tanto é que se pensou que ele fosse casar com ela novamente depois da execução de Catarina. Ela sobreviveu mais do que o rei e todas as suas outras esposas, morrendo com 41 anos em 15 de julho de 1557. Sua vida estava longe de ser livre de problemas, mas pelo menos ela sobreviveu ao casamento com o famoso Henrique VIII.

“Seu casamento com o rei não foi válido, portanto, o mesmo aconteceria com seu casamento com qualquer outro. Ele a tinha atado à vida de solteira enquanto o filho do duque de Lorraine vivesse. O rei a amaldiçoara com a condição de solteira e estéril, e duvido que ele tenha até mesmo pensado nisso. Mas ela não é nenhuma tola. Ela deve ter refletido. Deve ter considerado com a barganha valia a pena. E, nesse caso, ela é a mulher mais estranha que já vimos na corte. É uma mulher encantadora e graciosa de apenas 25 anos, dona de uma grande fortuna, uma reputação irrepreensível, em seus anos férteis, e que decidiu nunca mais se casar. Que rainha estranha, essa jovem vinda de Cleves se revelou!”
(GREGORY, 2008, pág. 315)

Bibliografia:
PLAIDY, Jane. Assassinato Real. Tradução de Sylvio Gonçalves. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
GREGORY, Philippa. A Herança de Ana Bolena. Tradução de Ana Luiza Dantas Borges. 2º Ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

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11 comentários sobre “Ana de Cleves, a “cavala” ?

  1. Muito interessante a história! Eu realmente acredito que a vida dela possa ser mais estudada. Conhecermos mais as opiniões dela e o modo de vida.
    Adorei o post!

    • também acho que a vida dele mais parece um roteiro de novela mexicana do que uma história de vida de fato.

  2. Gostaria de ter mais informações históricas sobre Ana de Cleves, não acredito que ela foi um simploria, penso que pensou em sobreviver!

  3. olá acho a vida dessa da ana cleves muito interessante, gostaria de saber sua opiniao sobre a forma que a serie the turdos e o filme a vida privada de henrique oitavo a colocam. Em ambas interpretaçoes da-se a enterder que ela nao gostava do rei como esposo e ficou de certa forma satisfeita apos o divorcio. Desde ja agradeço.

    •  Elvi Hale na série The Six Wives of Henry VIII, em 1970.

      Elvi Hale na série The Six Wives of Henry VIII, em 1970.

      Olá! É um tanto complicado dar a minha opinião sobre isso porque não assisti todos os episódios da série The Tudors, mas para mim a interpretação ‘mais’ historicamente ”correta” foi Elvi Hale na série The Six Wives of Henry VIII, em 1970.

      Em The Tudors, Ana de Cleves foi interpretada por Joss Stone e é interessante notar que ela havia feito o teste para Jane Seymour que, na minha opinião, são bem diferentes. A sua interpretação foi simpática e as roupas, assim como a maioria das roupas em The Tudors, são simplesmente sem noção, não lembram nenhum um pouco as roupas que ela usava nos quadros que temos hoje. Já em The Private Life, interpretada por Elsa Lanchester, Ana de Cleves tem até um ‘amante’, completamente fictício, chamado John Loder. No filme, Ana era inteligente, astuta e deliberadamente mostrava-se pouco atraente a fim de livrar-se do casamento do rei, o que é uma idéia interessante mas, na minha opinião, dificilmente teria acontecido.

      Agora, a minha opinião sobre Ana de Cleves não gostar do rei e ficar satisfeita após o divórcio: eu acho que dificilmente alguma mulher gostasse do rei naquela época, quem dirá apaixonar-se por ele. Ana, com 25 anos, morava em Cleves, em lugar longínquo e tudo o que ela sabia sobre o rei fora-lhe contado por outras pessoas que desejavam o casamento, de modo que ver o rei de verdade, com quase cinquenta anos, gordo, doente e paranóico deve ter sido um choque. Os dois também eram muitos diferentes culturalmente: Henrique valorizava a educação e sofisticação nas mulheres, mas Ana recebeu nenhuma educação formal, não sabia cantar, dançar, ler ou falar e escrever qualquer língua que não fosse a sua, o alemão: ou seja, seria muito difícil para ela e Henrique se comunicarem, uma vez que ele também não falava muito alemão.

      Acho que o fato de Ana ter ficado feliz com o divórcio se deu porque ela provavelmente estava aterrorizada com a idéia de que o rei pudesse executá-la. Além disso, na época o divórcio foi incrível para Ana: ela seria agora ‘irmã’ do Rei, ganharia £4000 por ano, casas em Richmond, Blechinglegh, Lewes e Hever Castle; além de jóias, tapeçarias e móveis. Ela ficou, depois do divórcio, uma das mulheres mais ricas e poderosas da Inglaterra, sem nenhum marido, irmão, filho ou pai para lhe dar ordens – esse com certeza era o desejo de muitas mulheres na época!

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