Ana Bolena, Charles Brandon e o incesto

Charles Brandon, Duque de Suffolk, desafiou Henrique VIII ao se casar com sua irmã e ainda foi um dos únicos homens a ficar perto do Rei ao longo de sua vida. Sua amizade e vínculo de lealdade com Henrique VIII deve ter sido incrível. Ao longo dos anos, como outros caíram em torno dele se tornar vítimas de diferentes facções da corte ou de turbulência religiosa, o Duque sempre conseguiu manter sua amizade com o rei. Eu me pergunto se as melhores qualidades de Charles Brandon não eram da sua liderança ou a sua coragem ou habilidade nas relações internacionais, mas sim a sua capacidade de saber ler Henrique VIII e saber quando avançar, recuar e como manter a amizade do rei errático.

Muitas vezes me pergunto como é possível que entre as acusações que acabaram por decapitar Ana, havia incesto. O embaixador imperial Eustace Chapuys acreditava que Ana e seu irmão George praticavam incesto, e até escreveu que George foi acusado de dormir com sua própria irmã porque ‘uma vez notou-se que ele ficava em seu aposentos por um longo tempo”. Chapuys também mencionou outras ‘bobagens pequenas, mas não deu outros detalhes.

Maria Tudor (Brandon) conhecida na corte Tudor como a rainha francesa, nunca aceitou Ana Bolena como a esposa de Henrique VIII e rainha. Em abril de 1532, Maria publicamente se referiu a Ana Bolena usando ‘linguagem inflamante ‘, e o embaixador veneziano especulou que esse incidente provocou uma luta entre as facções de Suffolk (Brandon) e Norfolk (Bolena). Maria também se recusou a acompanhar o casal real em uma visita à França.

Maria Tudor e Charles BrandonMaria  se casou com o rei da França, Luís XII, no final de 1514. O rei morreu três meses depois do casamento, em janeiro de 1515, deixando Maria, com 18 anos, viúva. Como é habitual, Maria ficou em isolamento por 40 dias, pois esse era o costume para se verificar se a viúva estava ou não grávida. Ela não estava. Quando Henrique VIII enviou Charles Brandon para escoltar Maria de volta para a Inglaterra, o casal se casou em segredo, causando um escândalo na corte francesa. Maria, a rainha viúva, queria se casar, mas ambos cometeram traição ao casar sem a permissão do rei. Ainda havia o costume que ditava que uma rainha viúva deveria esperar um ano após a morte de seu marido antes de um próximo casamento. Outra coisa – Charles não era um homem livre. Ele estava comprometido com Elizabeth Grey (de 10 anos de idade), e seu casamento com Margaret Mortimer não estava completamente resolvido. Infelizmente não era o fim do escândalo: Maria enviou para Henrique VIII jóias suas como Rainha da França, mas elas não lhe eram de direito depois que seu marido morreu (todas foram detidas pela coroa francesa).

Assim, a aura de escândalo cercou o casamento de Maria Tudor e Charles Brandon. Se Ana Bolena estava na corte francesa, ela foi uma testemunha ocular do escândalo. Para Eric Ives, é a desaprovação do casamento de Maria e Charles que Ana tinha que colocavam uma pressão sobre o relacionamento dos dois.

Em 1527, a paixão de Henrique com Ana Bolena já tinha começado. Ele estava determinado a anular seu casamento com Catarina, alegando que este nunca havia sido legal. Ele afirmou que Catarina e Artur haviam consumado seu casamento, e seu amigo Suffolk agiu no interesse do rei. Ele cavou algumas memórias perdidas que sugeria a consumação. Uma pintura do início do século 20, Ana Bolena caçando um veado com o Rei. Artista desconhecido.Enquanto isso, Wolsey perdia a confiança de Henrique por causa dos muitos atrasos na anulação, e o rei usou Suffolk para atacar abertamente seu assessor, outrora poderoso. Em uma audiência pública sobre o caso, Suffolk bateu com o punho na mesa e gritou ‘A Inglaterra nunca será alegre enquanto tiver cardeais entre nós’. É lógico que Suffolk não teria ousado atacar Wolsey sem o apoio de Henrique.

O relacionamento de Ana com o Duque de Suffolk não foi fácil, e aparentemente o Duque trouxe algumas informações sobre uma ligação romântica de Ana com algum cavalheiro da corte e foi expulso por da Corte por um tempo. Chapuys esclarece o relato em maio de 1530:

‘Faz agora um longo tempo desde que o Duque de Suffolk esteve na Corte. Alguns dizem que ele foi exilado por algum tempo devido ao fato de ter dito ao rei que a Senhora tinha uma relação com algum cavaleiro da Corte, que já tinha uma vez sido banido da Corte por tal suspeita’.

Em 1531, Henrique baniu Catarina de Aragão da corte. Ele e Ana estavam constantemente juntos, e ele não fazia segredo de sua intenção de se casar com ela. Os Suffolk não estavam felizes com isso, mas eles não podiam fazer nada pois dependiam de Henrique para tudo.

Suffolk permaneceu no favor de Henrique. O rei deu a seu velho amigo a desagradável tarefa de persuadir Catarina de Aragão a aceitar a ruptura com Roma e o novo título de Princesa Viúva. Ele também moveu-a para Somersham, perto de Cambridge, uma mansão conhecida por sua atmosfera úmida e insalubre. Catarina não seria intimidade, e disse a Suffolk que teria que amarrá-la para levá-la para qualquer lugar. Depois de uma semana de negociações, Suffolk foi embora. Ele nunca mais veria Catarina.

É presumido, no entanto, que as raízes da aversão de Maria Tudor (Brandon) contra Ana Bolena tiveram origem em outro lugar. Ainda em 1531, o embaixador imperial relatou que Ana:

‘Queria vingar-se do Duque de Suffolk, pois ele uma vez fez uma acusação contra sua honra, e ela acusou-o de ter uma relação com sua própria filha. Ninguém sabe ainda o que vai sair de tudo isso’.

Parece óbvio que foi a acusação vingativa e cruel de Ana que deu à luz a hostilidade entre ela e Brandon.

A coroação de Ana Bolena

Em 1 de junho de 1533, Maria Tudor (Brandon)  e sua filha Francis não compareceram na coroação de Ana Bolena, mesmo que Charles fosse o Alto Comissário e  tivesse organizado a coroação. Aparentemente não era só ela que considerava o casamento do rei com Ana Bolena um caso de bigamia.

O historiador Eric Ives escreveu que ‘a irmã de Henrique estava perto da morte e sua filha quase fora da infância’, e que essa foi a razão por trás da ausência notável na coroação. Francis, entretanto, tinha 16 anos em 1533, e já estava bem longe da infância de acordo com os padrões Tudor. Ela se casaria com Henrique Grey, Marquês de Dorset, no mesmo ano.

Maria Tudor (Brandon) morreu no final de junho de 1533, apenas um mês após a coroação de Ana. Pode-se supor que ela estava doente e simplesmente não pode ir à coroação. No entanto, também é razoável supor que Maria não quis assistir a coroação de uma mulher que acusou o marido de ter tido uma relação incestuosa com a filha!

Em 1536, Ana Bolena foi acusada de ter uma relação incestuosa com seu irmão, George Bolena. Tendo em conta que Charles Brandon era um amigo próximo de Henrique VIII, e Ana acusou-o de ter uma relação incestuosa com sua filha, é uma possibilidade que Brandon tenha sugerido o incesto como uma forma de vingança. Charles Brandon assistiu a decapitação de Ana Bolena em 19 de maio de 1536.

Brandon morreu inesperadamente em 22 de agosto de 1545, aos 61 anos de idade. Apesar de querer um funeral simples, o Duque foi enterrado na Capela de São Jorge, em Windsor. Todas as despesas foram pagas pelo rei. Na sua lápida foi escrito: “Aqui jaz Charles Brandon, Duque de Suffolk, que se casou com a irmã do rei Henrique VIII, e morreu em seu reinado, em agosto de 1545, e foi enterrado a cargo do próprio rei”.

No livro ‘The Last Days of Henry VIII’ Robert Hutchinson afirma que depois que o rei ouviu a notícia da morte de Brandon, ele disse aos seus cortesões que Brandon foi o melhor dos amigos, generoso e leal, bem como verdadeiramente magnânimo para com seus inimigos políticos. Ele também apontou que poucos em seu Conselho poderiam dizer o mesmo sobre si mesmos.

Bibliografia:
ZUPANEC, Sylwia S.’Anna Boleyn, Karol Brandon i kazirodztwo‘. Acesso em 19 de Abril de 2013.
ZUPANEC, Sylwia S.’The roots of dislike: Anne Boleyn, Duke of Suffolk and Mary Tudor Brandon‘. Acesso em 19 de Abril de 2013.
How Did Charles Brandon, Duke of Suffolk die‘. Acesso em 19 de Abril de 2013.
Charles Brandon and Princess Mary Tudor‘. Acesso em 19 de Abril de 2013.

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7 comentários sobre “Ana Bolena, Charles Brandon e o incesto

  1. Eu nao tinha conhecimento de que o Duque de Suffolk, foi acusado de incesto com sua filha, e que provavelmente tenha cido a razao pela qual ele tambem entregou Ana Bolena como quem teria cometido o mesmo com o irmao. Sempre boas informacoes, grata.

  2. Este é um assunto pouco abordado pela historiografia e é muito interessante para quem estuda as intrigas de corte durante o reinado de Henrique VIII. Também sinto falta de estudos acerca da influência de Mary Tudor (Brandon) na corte Tudor. Geralmente ela deixa de ser assunto para os estudiosos após suas pazes com o rei!

  3. Quanto a acusação de incesto inferida a Brandon, creio seja importante considerar algo. Primeiro, como o próprio Henrique VIII disse, tratava-se de um homem de valor, acima de muitos, sendo assim, não acredito neste incesto, e segundo, muito menos na sua presumida vingança contra Ana Bolena, acusando-a de ter um caso com o próprio irmão. Não me parece o perfil deste leal amigo do Rei.

    • Acho que a questão está exatamente no que você disse: ele era um homem leal ao Rei e não a Ana Bolena.

  4. Ok… O que não o impedia de ter valores pessoais e agir por tais…. E quanto a lealdade ao Rei.. Wolsey e Thomas More também eram, e o fim de ambos não foi algo pitoresco. A lealdade e amizade de ambos, não impediram suas mortes. Ainda, Brandom desafiou o Rei, casando com sua irmã as escondidas, e não perdeu a cabeça por isso. O que outros, por muito menos, perderam!

    Qual seria então o segredo desse Duque, em conseguir permanecer amigo admirado do “errático” Henrique? No meu entender o próprio rei trouxe essa resposta, explícita claramente no ultimo parágrafo desse texto. A mim, sem dúvidas, tratam-se dos predicados que garantiram a amizade e o respeito do Rei.

    Avaliar a moral dos personagens é tarefa complicada. Trata-se de de mera especulação. Sendo assim, minha aposta para esse assunto, caminha juntamente com as palavras Henrique, na ocasião da morte de Charles.

  5. Hi first very excellent and detailed article. Yes, Charles Brandon was accused of incest according to a hostile source at the time who mentions that there was some distrust with him and Mistress Anne Boleyn and that they had fallen out. He is also said to have commented that he and his wife if they had the courage would do all they could to change Henry’ mind about marrying Anne Boleyn. Brandon was in a very difficult position as the brother in law and the friend of the King, married to his sister, who supported Queen Katherine and his ward and future wife was Catalina Willoughby, the daughter of Maria de Salinas the best friend and companion of Queen Katherine. He was also said to have a way with the ladies and this may have been why Henry sent him to move the Queen from her home. But when she refused he could not exactly pick her up and carry her out so he had to give up and leave. He was sent from court when he quarrelled with Anne as he told the King that Anne had a bad reputation and the King was not happy about this. But he also knew just how long to keep out of the way, come back to court, make his peace with the King and keep on the good side of the King. Brandon served Henry with faith for the whole of his life and seems to have been trusted by the King in some of his most personal moments. He certainly got a good funeral, and is in the aisle next to that where Henry and Jane Seymour are buried in Windsor.

    Thank you again for an excellent article.

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