As gravidezes de Catarina de Aragão

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Catarina de Aragão estava casada com Henrique VIII há dezesseis anos quando ele começou a duvidar da validade de sua união. O rei precisava desesperadamente de um filho para garantir sua sucessão, e via o fracasso de Catarina em lhe dar um herdeiro como o sinal de que Deus estava descontente com o casamento. A rainha já tinha ficado grávida várias vezes, mas todas terminavam em abortos, natimortos ou bebês que morreriam logo após o nascimento. Apenas uma menina, Maria, sobreviveria à infância.

É impossível dizer quantas vezes Catarina ficou grávida, dada a escassez de fontes primárias e o fato de que abortos e natimortos, mesmo quando sofridos por uma rainha, não eram considerados importantes o suficiente para serem gravados para a posteridade. Ainda sim, historiadores postulam sobre o número. Hester Chapman acredita que Catarina ficou grávida sete vezes; Sir John Dewhurst acredita que foram pelo menos nove; A.F. Pollard acredita que foram dez; e JJ Scarisbrick afirma que Cataria teve:

‘vários abortos, três crianças que eram natimortas ou morreram logo após o nascimento (dois deles do sexo masculino), duas que morreram em poucas semanas depois do nascimento (sendo um deles do sexo masculino), e uma garota, a princesa Maria’.

Apesar das várias opiniões, as fontes primárias dão evidência de apenas seis gravidezes: em 1510, 1511, 1513, 1514, 1516, 1518.

A primeira gravidez de Catarina aconteceu quatro meses após seu casamento com Henrique Tudor, em 1510. Havia várias razões para otimismo: sua mãe tinha gerado cinco filhos que sobreviveram à infância, sua irmã Maria, não menos do que nove.  Henrique escreveu orgulhoso para o seu sogro que a criança no útero dela estava viva. O rei e a corte estavam esperançosos, mas no fim de janeiro, Catarina deu à luz a uma filha natimorta.

Catarina de Aragão como a Virgem Maria, no início de 1500.Seu estômago, entretanto permaneceu inchado. Parece que seus médicos aconselharam-na de que estaria carregando gêmeos, e que a segunda criança ainda estava viva. Pode ter sido otimismo desesperado mas Catarina deve ter acreditado nisso pois, no início de março, tornou a sua gravidez oficial, retirando-se formalmente da corte. O rei e a corte também esperavam por Catarina, a máquina real de fazer bebês, parir. Após meses de confinamento, um desastre aconteceu. O inchaço, provavelmente causado por um infecção, havia desaparecido. O rei estava furioso e a rainha, humilhada.

No entanto, o nascimento permaneceu bastante secreto. Diego Fernandez, chanceler de Catarina, escreveu a seu pai, o rei Fernando, quatro meses depois, afirmando que ‘o caso era tão secreto que ninguém sabia disso até agora, exceto o rei meu senhor, duas mulheres espanholas, um médico e eu’. Mais tarde, a própria Catarina escreveria a seu pai dizendo que havia abortado uma filha morta, e que não escreveu antes porque, na Inglaterra, era considerado ‘um mau presságio’.

Catarina ficou grávida novamente muito em breve. No fim de setembro, metros de veludo estavam sendo encomendados para’a ala infantil do rei’ e em 1 de Janeiro de 1511, ela deu à luz a um filho. O feliz evento foi comemorado com salvas de tiros e festa. Mas a alegria seria de curta duração, pois a criança, nomeada Henrique, morreria em 22 de Fevereiro, com apenas 52 dias de vida.  Para Catarina, a mãe, a morte do seu filho foi uma tragédia. Para Catarina, a rainha, um desastre.

A seguinte gravidez seria em 17 de Setembro de 1513, e não é claro se o bebê, um menino, nasceu morto ou viveu apenas por um curto período de tempo. A última opção parece mais provável, pois os papéis de estado venezianos registram que ‘um herdeiro masculino nasceu para o Rei da Inglaterra e herdará a coroa, tendo o outro filho morrido’.  Apesar desse histórico de mortos e natimortos e de todo o sofrimento do casal, nada disso era inédito na época. Calcula-se que nas famílias aristocratas da Inglaterra apenas dois a cada cinco nascimentos resultavam em crianças sobreviventes.  O importante, no momento, era a capacidade da rainha de conceber.

Catarina ficara mais uma vez grávida. O oficial da corte De Plein escreveu a Margaret de Sabóia dizendo: ‘diz-se que a rainha está grávida e, tanto quanto eu sei, e pode-se ver, é verdade’. No entanto, não se sabe exatamente quando Catarina deu à luz, nem como a gravidez terminou, no ano de 1514. O embaixador veneziano Badoer escreveu em novembro que ‘a Rainha entregou uma criança do sexo masculino, que nasceu morto de oito meses, para a grande tristeza de toda a corte’. O cronista Holinshed registrou que o bebê tinha nascido vivo, mas morreu pouco depois. ‘Em novembro, a rainha deu à luz a um príncipe que não viveu muito tempo depois’.

Catarina finalmente teve uma criança que sobrevivera até a idade adulta. O trabalho de parto fora difícil e demorado, e apesar do sofrimento da mãe, a criança era saudável a até robusta; no entanto, era apenas uma menina. Maria nasceu em 18 de fevereiro de 1516, e foi recebida com uma alegria misturada com decepção. Ela não era o herdeiro há muito esperado, mas pelo menos a rainha havia provado que conseguia produzir bebês saudáveis. O otimista rei, Henrique, disse ao embaixador veneziano que ‘somos jovens e por isso graças a Deus, meninos se seguirão’. A atitude oficial da corte também era de otimismo: William Mountjouy escreveu: ‘… e que depois desse bom começo envie ao Senhor muitas crianças bonitas, para a alegria de Vossa graça e [de] todos os seus verdadeiros súditos’.

Carta de Henrique a WolseyEm 12 de Abril de 1518, começaram a surgir rumores da gravidez da rainha. O anúncio público foi feito no início de julho.  A carta ao lado, escrita por Henrique VIII ao Cardeal Wolsey, expressava suas esperanças nesta gravidez de Catarina. Ele escreve ‘Eu confio que a Rainha, minha esposa, ficará com a criança‘ e, sem dúvida lembrando das infelizes experiências do passado, ele acrescenta: ‘Meu senhor, eu escrevo isso não como uma coisa certa, mas como uma coisa em que eu tenho grande esperança e probabilidade‘. No entanto, em 18 de novembro, aconteceu uma tragédia. O ‘príncipe’ esperado com tanta confiança veio a ser uma princesa – e nascera morta. De acordo com o embaixador veneziano a criança era prematura: ‘A rainha entregou em seu oitavo mês uma filha natimorta, para grande tristeza da nação em geral’.  Esta seria a última gravidez de Catarina.

A dor da rainha só pode ter aumentado pelo fato de que um mês antes Bessie Blount, amante do rei, aparecerá grávida, só para entregar um filho saudável em Junho de 1519. A rainha não fez nenhum comentário sobre o assunto, e compareceu às festividades que o rei preparou para comemorar o nascimento de seu filho.

Embora seja possível que Catarina tenha sofrido outros abortos espontâneos, é importante ressaltar que as evidências para essas consistem em algumas frases insinuando que a rainha estava doente, ou rumores de um bebê. Portanto, até novas provas emergirem, essas sentenças são meramente boatos.

Também é muito difícil determinar a causa de seus problemas de fertilidade. Sendo muito religiosa, Catarina passava por vários jejuns durante o ano, o que poderia prejudicar os filhos que estava carregando. Também é possível que a enorme quantidade de estresse que estava para produzir um filho saudável contribuíram em grande parte de seu problema – isso se o problema fosse realmente de Catarina. Atualmente, existe uma teoria de que fosse uma incompatibilidade sanguínea a causa dos problemas reprodutivos do rei Tudor.

Bibliografia:
Documentário ‘The Six Wives of Henry VIII’, escrito por David Starkey, emitido no Channel 4 de 10 de setembro de 2001 a 1 de outubro de 2001.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva – 2º Edição – Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
Catherine of Aragon’s pregnancy, June 1518‘. Aceso em 09 de Maio de 2014.
HAOT, Giorgia. ‘Catherine Of Aragon’s Pregnancies‘. Aceso em 09 de Maio de 2014.

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9 comentários sobre “As gravidezes de Catarina de Aragão

  1. É possível que houvesse realmente um problema de incompatibilidade (talvez sanguinea?) entre Catarina e Henrique, pois eram aparentados, ainda que remotamente. É interessante pensar que se um desses filhos homens tivesse sobrevivido, a história da Inglaterra talvez tivesse sido muito diferente….

    • É possível sim Sonia, mas como a maioria das teorias, só saberemos se fizerem uma exumação! Já foi postado no site a teoria desenvolvida por Catrina Banks Whitley e Kyra Kranmer de que a incompatibilidade sanguínea entre Henrique VIII e suas seis esposas que teria causado seu problema de produção. Nesse caso, as autores explicam que se um pai Kell positivo engravida uma mãe Kell negativa, cada gravidez tem uma chance de 50-50 de ser Kell positivo.A primeira gravidez normalmente produz uma criança saudável, mesmo se a criança for Kell positivo e a mãe Kell negativo. Mas as próximas gestações da mãe Kell positivo seriam arriscadas porque os anticorpos da mãe atacariam um feto de Kell negativo como um corpo estranho.

      http://boullan.org/2013/06/30/o-sangue-do-rei/

    • Ambos são descendentes de John de Gaunt. Não existe nenhuma árvore genealógica boa que mostre isso de forma clara, no entanto, se você for seguindo os filhos, netos, e bisnetos de John de Gaunt na Wikipédia você chega em Henrique VII e Isabela. Se não me falha a memória, eles seriam primos de terceiro ou quarto grau. Na verdade, eles seriam “meio primos”, já que Henrique VIII descende da primeira esposa de John e Catarina da segunda esposa.

      • “[Catarina]descendia, pelo lado materno, da família real inglesa; sua bisavó Catarina de Lencastre, de quem recebeu seu nome, e sua trisavó Filipa de Lencastre eram ambas filhas de João de Gante e netas de Eduardo III. Consequentemente, ela era prima em terceiro grau de seu futuro sogro, Henrique VII, e em quarto grau da sogra, Isabel de Iorque.” Eles realmente eram parente. Por isso da paranoia de Henrique O_O.

  2. Exatamente. Mas não tenho certeza se esse era o motivo da paranóia de Henrique quanto à Catarina não ter filhos. Em tudo que eu li o medo dele era que isso acontecia porque ele havia casado com a viúva do seu irmão, e não porque eram parentes distantes. Uma das coisas que realmente deixou Henrique paranóico é que a maioria das famílias nobres descendiam de John de Gaunt, ou seja, qualquer um poderia reclamar o trono inglês para si (mas morreria logo depois, obviamente).

  3. Acho q ela tinha aquele problema que quando a mulher engravida tem que tomar uma injeção pq o sangue do bebê não é compatível….pq ela conseguia engravidar e quase sempre chegava até o final da gestação

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