O primeiro encontro de Henrique VIII e Ana de Cleves

A trágica da morte da Rainha Jane Seymour e a nova interessante notícia de que o Rei precisava de uma nova esposa começou a se espalhar. O reino tinha um novo herdeiro mas nenhuma rainha. Mas pela primeira vez, Henrique estava sozinho e não tinha desejo por uma nova esposa.

No começo da seleção, uma jovem princesa da Alemanha Ocidental do ducado de Cleves foi citada como uma possível noiva. Ela era a última opção, mas como as outras candidatas mais desejáveis ou apresentaram desculpas ou se casaram, ela se tornou a favorita. Thomas Cromwell tinha seus próprios motivos diplomáticos e religiosos para empurrar Henrique em direção à noiva alemã. Henrique ficou bem impressionado por seus laços familiares mas ele somente se comprometeria se fosse convencido de que poderia achá-la fisicamente atraente. O pintor da corte, Hans Holbein, foi enviado para fazer um retrato da nova mulher. Seu nome era Ana de Cleves e os embaixadores de Henrique elogiaram sobre a beleza do seu rosto e corpo.

Cromwell trabalhou para que Henrique escolhesse Ana. O casamento com Cléves protegeria a Inglaterra da ameaça católica da Espanha e França e permitiria a Cromwell atacar seus inimigos católicos locais. Ana não era uma mulher renascentista. Ela não sabia cantar ou dançar ou falar línguas estrangeiras. Mas era muito boa com bordado. Henrique considerou a imagem de Holbein como uma tela em branco na qual projetou suas fantasias da esposa ideal.

A comitiva de Ana partiu cruzando Flandres rumo a Calais. Informações sobre a princesa: ela era alta, tinha uma beleza primorosa e notáveis virtudes. Ela atravessou para Dover e, enquanto viajava através do seu novo país estranho, Ana empenhou-se para aprender sobre Henrique. Ela pediu que a ensinassem os jogos de cartas que ele gostava e começou a aprender a etiqueta inglesa. Suas novas acompanhantes acharam-na quase incomum. Suas roupas e maneiras alemãs eram completamente diferentes daquelas da corte. Após semanas de viagem e muito atraso pelo mau tempo, ela chegou em Rochester.

Afim de ‘nutrir o amor’, como disse a Cromwell, Henrique VIII decidiu fazer uma visita à noiva no dia seguinte, dia de ano-novo. O rei, à beira dos cinquenta, estava ansioso e tímido.  Com a galanteria de um cavaleiro, ele resolvera surpreendê-la em Rochester, a cerca de trinta milha de Londres, e para ali se dirigia.  Num verdadeiro estilo de conto de fadas, o rei cavalgou de Greenwich a Rochester, acompanhado por alguns dos cavaleiros da Casa Real, todos vestidos da mesma forma, em ‘capas de cor de mármore’ (ou seja, multicoloridas) com capuzes.

Ele não tinha esquecido um presente de ano-novo bom, e muito comovido, mandara Antony Browne,  seu estribeiro-mor, aos aposentos de lady Ana para anunciar a sua chegada. Vendo a sua futura rainha, Antony Browne ficou consternado, pois ela era diferente do que tinham dito, mas voltou ao Rei discretamente. Então o Rei, com os seus dois companheiros, dirigiram-se para o quarto dela.

Assim que o agreste rei irrompeu sala adentro, impaciente e ansioso por abraçar e beijar a noiva, deve ter-se instalado um silêncio incômodo e embaraçoso. Os rostos de Ana e das suas damas de companhia alemãs cobriram-se certamente de rubor e soaram risos nervosos. Desde a soleira, o rosto do rei alongou-se e ele ficou ‘extraordinariamente desconcertado e confuso’. Parecia mais velha, para a idade, faltava-lhe sem dúvida a beleza anunciada. Era possível que fosse ela? O rei entrou para abraçá-la e beijá-la e foi tomado por um ‘descontentamento e desgosto da sua pessoa’.

Ana não tinha idéia de quem eram aqueles homem e ninguém falou com ela. O homem desconhecido oferece-lhe um presente, e Ana aceitou educadamente sem entusiasmo. Ana, que talvez tivesse ficado confusa, deu a fatal impressão de estar enfadada. Ela estivera olhando pela janela o provocar de bois com cachorros, no dia de ano-novo, quando aqueles misteriosos visitantes começaram a aparecer. Além das cortesias normais, ela não viu motivo para interromper mais a sua atitude de espectadora.

O abraço do visitante desconhecido deixou-a totalmente ‘embaraçada’. Seu único recurso após algumas poucas palavras em alemão foi continuar a olhar pela janela. O rei não teve outra alternativa a não ser retirar-se para outro cômodo e vestir o casado de veludo púrpura da realeza, que deixou os lordes e cavalheiros que o acompanhavam curvando-se acentuadamente.

Segundo Wriothesley, Lady Ana então ‘humilhou-se de forma acentuada’, o rei tornou a saudá-la, e os dois ‘conversaram em termos afetuosos’. Mas isso talvez seja o verniz diplomático do arauto sobre o que tinha sido uma cena mal calculada por ambos os lados

Depois de ter rosnado vinte palavras, o rei deitou a mão ao presente que lhe trazia – uma capinha de pele de marta ricamente ornada para usar à volta do pescoço – e saiu precipitadamente, entre as vénias respeitosas dos seus amigos e cortesãos, deixando para trás uma noiva perplexa. O rei mandou o presente de volta na manhã seguinte, com ‘uma mensagem tão fria quanto a mesma podia ser’, antes de partir à pressa e com mais modos, de Rochester para Greenwich.

Foi uma série de erros que levou a relação ao pior começo possível. Ele havia representado uma cena de um dos romances de cavalaria de sua juventude. Em teoria, a amada, Ana, deveria ter reconhecido seu amor disfarçado, Henrique, no meio dos demais e teria sido amor à primeira vista.
Mas Ana não o havia reconhecido.

O rei voltou para a sua barca em silêncio. Depois, ‘triste e pensativo’, observou com ar de mau agouro: ‘Eu não vejo nada nessa mulher daquilo que me contaram e admiro-me de que homens inteligentes tenham podido mandar-me notícias como as que recebi’.

Ele estava furioso, se sentia enganado sobre a aparência dela e estava revoltado que Cromwell o tivesse iludido para casar-se por razões políticas. Elsa Lanchester como Ana de Cleves e Keith Michell como Henrique VIIIMesmo perante esse acontecimento, Henrique teve de agir como se não estivesse desapontado. De acordo com o planejado, os dois casaram-se no dia 3 de Janeiro. Enquanto Henrique se dirigia à cerimônia, ele disse a Cromwell:

‘Meu senhor, se não fosse para satisfazer o mundo e meu reino, não faria o que tenho de fazer neste dia por nada neste mundo!’

Bibliografia:
Documentário ‘The Six Wives of Henry VIII’, escrito por David Starkey, emitido no Channel 4 de 10 de setembro de 2001 a 1 de outubro de 2001.
LOADES, David. As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV – XVII). Tradução de Paulo Mendes. Portugal: Caleidoscópio, 2010.
HACKETT, Fracis. ‘Henrique VIII’. Tradução de Carlos Domingues. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva – 2º Edição – Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

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