Ana Bolena e o universo bruxo de Anne Rice

Vampira“A Hora das Bruxas”, o primeiro romance da saga de uma família de bruxas de Nova Orleans, as Mayfair, foi publicada em 1990, escritos por Anne Rice. Seguio dele foi Lasher (1993) e Taltos (1994). A Hora das Bruxas conta a história de treze gerações de bruxas da família Mayfair – elas são acompanhadas por um espírito, Lasher, cuja natureza nunca é claramente explicada no romance. Apenas no livro ‘Lasher’ é que sabemos de sua origem: ele diz que é filho de Ana Bolena, a segunda esposa de Henrique VIII e mãe de Elizabeth I:

– Não sei o que você está dizendo, não compreendo. Minha mãe era uma grande rainha. Nunca soube seu nome[…].
– Era a Bolena – disse a mulher, Emaleth, minha irmã. – A rainha Ana foi sua mãe e foi condenada à morte por feitiçaria e por gerar monstros.[…]
As palavras me atingiram como tudo: música, beleza, assombro ou medo. Eu sabia. Eu compreendia. Bastava que eu me detivesse por um instante de verdade na velha história. A rainha Ana, acusada de encantar Sua Majestade e de par uma criança deformada no leito real. Henrique, ansioso por provar que não era o pai, acusou-a de adultério e mandou que cinco homens de reconhecida perversidade e falta de moral preparassem o terreno para que ela fosse decapitada.

De acordo com a história, Ana Bolena foi amante de um homem chamado Douglas de Donnelaith – um membro de um clã especial de uma aldeia fictícia chamada Donnelaith, que carregava uma anomalia genética que lhe permitia, quando acasalava com algumas bruxas, poderia procriar membros adultos de uma raça diferente dos humanos e bruxos, chamados de Taltos. Desse forma, Douglas e Ana Bolena geraram Lasher, que foi morto em um massacre protestante em 1560. Seu espírito foi então suscitado por Suzanne, a primeira bruxa Mayfair, um século mais tarde, em 1660.

Lasher conta que ele nasceu em 1536. Isso indica que Anne Rice muito provavelmente se inspirou nos escritos de Nicholas Sander, um católico, que escreveu que em 1536, Ana deu à luz a um feto deformado, descrito como “uma massa informa de carne”, e que isso era sinal de que Ana havia usado bruxaria e que ela havia cometido algum tipo de pecado sexual. No entanto, de acordo com historiadores, nenhum feto deformado foi mencionado em 1536 ou depois da morte de Ana Bolena, e que isso não foi ressaltado em seu julgamento e nem sequer mencionado durante o reinado de Maria I, quando ela poderia ter usado isso como forma de denegrir a reputação de Ana.

Para os apoiadores católicos no livro de Anne Rice, Ana Bolena era a “a amante do rei Henrique. A que o encantara e o forçara a se voltar contra a Igreja”, e Elizabeth tinha “tanto medo do sangue da mãe que gera monstros que não permite que homem nenhum toque nela e nunca irá se casar”. De acordo com Lasher, no momento de seu nascimento, Ana Bolena

 Era uma criatura lívida, de olhos escuros, tensa e trêmula[…] Eu sabia quem ela era, que eu estivera dentro dela, e sabia que ela corria perigo de vida. Que, quando se revelasse minha monstruosidade, ela seria indubitavelmente chamada de bruxa e condenada à morte. Ela era uma rainha. E as rainhas não podem parir monstros. Que o rei não havia posto os olhos em mim, que as mulheres o estavam mantendo afastado dos aposentos, isso eu também sabia. As mulheres sentiam tanto medo de mim quanto minha mãe.

Charlotte Rampling foi uma das únicas atrizes que interpretou Ana Bolena com seis dedos.

Charlotte Rampling foi uma das únicas atrizes que interpretou Ana Bolena com seis dedos.

O monstro que Ana havia parido em 1536 não era apenas um recém-nascido gigante e deformado: sabia falar e raciocinar, e fez o possível para sair do castelo para evitar riscos para sua mãe, Ana Bolena. Ela própria ficou chocada quando viu que ele era capaz de falar e raciocinar:

“Ergueu a mão esquerda. Vi ali a marca da bruxa, o sexto dedo. Eu soube que voltara por meio dela por ser ela uma bruxa poderosa, embora inocente como todas as mães.”

Como se sabe, a idéia de que Ana Bolena era uma bruxa com seis dedos, três mamilos, dentes salientes e verrugas no rosto foi espalhado e popularizado também por Sanders, que escreveu em 1580 e que muito provavelmente nunca conheceu Ana Bolena. Henrique VIII realmente disse a seus cortesões que acreditava ter sido “seduzido e forçado em seu segundo casamento por meio de sortilégios e feitiços” a se casar com Ana Bolena, mas obviamente isso não prova que ela era uma bruxa. Além disso, tais criaturas  eram conhecidas por usar afrodisíacos e sensualidade excessiva – atos impensáveis para uma mulher do século XVI.

Depois disso, Ana disse o nome do pai de Lasher (Douglas), e que ele deveria ser trazido lá naquele momento. Ela também disse que,  ao “tentar dar um herdeiro ao rei, ela cometera um erro trágico para uma bruxa”. Isso também segue a história de que Ana havia tido diversos amantes na tentativa de engravidar e ter um filho homem.

Anne Rice também junta duas histórias em uma: Henrique diz que as mulheres o estavam mantendo afastados do quarto de Ana, e Henrique de fato reclamou que, após o aborto verídico que Ana teve em 1536, as damas o mantiveram afastado e que nem mesmo o deixaram ver o feto – que acredita-se ser uma criança do século masculino, que não tinha três meses e meio, mas que não era deformada; mas na verdade, um contemporâneo afirmou em 1536 que Ana tinha gestado ‘um belo filho’ (un beaus fils) nascido ‘antes do prazo’.

No livro de Anne Rice, a ordem dos fatos também é alterada: conta-se que os mosteiros foram destruídos por Henrique VIII, “estátuas e quadros eram leiloados, incinerados. Livros sacros perdidos para sempre”, e que “Henrique, o canalha, fez tudo por dinheiro. Tudo por dinheiro e porque ele queria se casar com Ana Bolena!”. O livro conta que “Henrique morreu, como você sabe, e sua filha católica, Mary, assumiu o trono” – como sabemos, a história foi um pouco mais complicada: após a morte de Henrique, Eduardo VI foi para o trono e depois foi seguido por Jane Grey, que depois foi deposta por Maria I. Além disso, Ana Bolena não foi acusada de feitiçaria e nem de gerar um monstro. Ela foi acusada apenas de traição – por planejar a morte do Rei -, adultério – por ter, de acordo com as acusações, diversos amantes -, e incesto – por supostamente  ter dormido com o seu irmão.

bruxaDiversos autores não-ficção e historiadores dão credibilidade à teoria de feitiçaria. Em sua biografia de Ana Bolena, Norah Lofts escreve que Ana tinha uma verruga, fazia ameaças típicas de bruxas e, quando estava na Torre, alegou que não choveria na Inglaterra durante sete anos. Além disso, ela tinha um cachorro chamado Urian – um dos nomes de Satanás – e que havia conseguido lançar um feitiço em Henrique, mas este perdeu o efeito em 1536, por isso sua violenta passagem ‘do amor para o ódio’. Retha Warnick é outra historiadora que também menciona bruxaria em seu livro sobre Ana, dizendo que acreditava que o fato de Ana incitar os homens a ter relações sexuais com ela era ‘coerente com a necessidade de provar que ela era uma bruxa’. No entanto, nenhum contemporâneo de Ana mencionou um dedo extra, um dente saliente ou verruga. O embaixador espanhol Chapuys, conhecido de chamar Ana de “concubina” e “putain”, certamente seria o primeiro a repetir tais rumores se esses fossem falados naquela época.

Bibliografia:
RICE, Anne. Lasher: As Vidas dos Bruxos Mayfair – Livro 3. Tradução de Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
INTROVIGNE, Massimo. Witchcraft, Evil, and Memnoch the Devil: Esoteric and Theosophical Themes in Anne Rice’s New Orleans Fiction. Acesso em 27 de Julho de 2015.
HIGGINBOTHAM, Susan. Anne Boleyn and the Charge of Witchcraf. Acesso em 27 de Julho de 2015.
SILVA, Maria Helena Alves. Ana Bolena era realmente uma bruxa?. Acesso em 27 de Julho de 2015.
SILVA, Maria Helena Alves. O dia em que Ana Bolena ‘abortou seu salvador’. Acesso em 27 de Julho de 2015.

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8 comentários sobre “Ana Bolena e o universo bruxo de Anne Rice

  1. Me fez um grande favor! Eu sabia que tinha menções a Ana nos livros da Anne Rice, mas não queria ler o livro só por causa disso hahaah adorei o artigo :)

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